Trovoada admite despedida da política são-tomense após ser afastado de líder da ADI

Trovoada admite despedida da política são-tomense após ser afastado de líder da ADI

O ex-primeiro-ministro são-tomense Patrice Trovoada admitiu hoje a eventual fim da "caminhada política", após ser afastado da liderança da Ação Democrática Independente (ADI), que preside há mais de 20 anos. 

Lusa / Adicionar como fonte informativa

"Eu penso que chegamos ao fim de um ciclo político e vamos ter que entrar num outro ciclo político, cujos contornos, ainda desconhecidos, irão surgir necessariamente nos próximos meses", afirmou Patrice Trovoada num vídeo publicado no Facebook.

Nesta primeira declaração desde as eleições presidenciais de 19 de julho, na qual o candidato que apoiou perdeu para o atual Presidente da República, Carlos Vila Nova, que o demitiu da chefia do Governo em janeiro de 2025, Patrice Trovoada abriu a porta a uma das promessas que fez em várias ocasiões anteriores, agora que se aproximam as eleições legislativas, regional e autárquicas.

"Talvez também termina uma etapa da minha própria caminhada política e, se assim for, aceito isso com perfeita calma, serenidade porque nenhum homem é eterno, nenhum líder é insubstituível. E eu, Patrice Trovoada, sempre defendi, sempre apoiei, sempre promovi a renovação e a transição geracional", acrescentou.

Na semana passada, o Tribunal Constitucional (TC) são-tomense reconheceu o atual primeiro-ministro, Américo Ramos, como presidente da ADI, na sequência do congresso realizado em 27 de junho, impugnado pela ala do partido fiel a Patrice Trovoada, que consideram ainda como legitimo líder do partido. De resto, esteve prevista a realização de um congresso no domingo, mas após a decisão do TC acabou mesmo por não acontecer, sem justificação oficial.

Patrice Trovoada, que sempre abandonou São Tomé quando não está na chefia do Governo, considerou que a estratégia que passou pela eliminação "do ADI legitimo" ocorreu "nos gabinetes jurídicos e políticos, com suporte do Tribunal Constitucional", para impedir o partido de concorrer "em pé de igualdade nas eleições legislativas" de setembro.

Admitindo a saída na política, Trovoada defendeu que é "tempo de fazer surgir um novo tipo de são-tomense", que não aceita a mentira como normal, a pobreza como único destino para a população, o silêncio como a única resposta. "Não se deixem comprar e não comprem consciência, ao invés de construir soluções e consensos", acrescentou.

O ex-primeiro-ministro afirmou que o "futuro vai depender da consciência de todos" e criticou o silêncio, sobretudo da elite, que considera ter tornado cúmplice com "uma profunda desonestidade intelectual" face aos problemas que considera existir no arquipélago.

Líder da ADI há mais de duas décadas, Patrice Trovoada foi primeiro-ministro e chefe de vários governos de São Tomé e Príncipe, nomeadamente em 2008, 2010-2012, 2014-2018 e 2022-2025, além de ter exercidos o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros.

Apoiou diretamente a eleição dos dois últimos Presidentes da República de São Tomé e Príncipe, nomeadamente Evaristo de Carvalho em 2016, e Carlos Vila Nova em 2021, cuja relação degradou-se, culminando com a demissão de Trovoada em 2025, com o Presidente a alegar deslealdade institucional e ausências prolongadas do país.

A crise interna da ADI agudizou-se após Carlos Vila Nova ter rejeitado vários nomes propostos pelo partido. Acabou por escolher para primeiro-ministro o ex-secretário-geral do partido, Américo Ramos, contra a indicação da direção da ADI.

Desde então, o partido demarcou-se do Governo, rompeu com os militantes que integraram o executivo, e perdeu quase uma dezena de deputados do grupo parlamentar, que passaram a independentes.

São Tomé e Príncipe realizou eleições presidenciais em 19 de julho e tem agendadas legislativas, autárquicas e regional para 27 de setembro.

 

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