Tudo à direita! Colômbia, Chile, Argentina... Extrema-direita conquista América do Sul

Tudo à direita! Colômbia, Chile, Argentina... Extrema-direita conquista América do Sul

País após país, a América do Sul está a deslizar para direitas cada vez mais radicais. O mais recente é a Colômbia. Uma viragem que confirma uma tendência regional já bem enraizada.

Um Olhar Europeu com RTBF / Adicionar como fonte informativa
Manifestação contra os resultados da segunda volta das eleições presidenciais em Bogotá, a 23 de junho de 2026. Esteban Vega La-Rotta / AFP

A Colômbia acaba de dar uma guinada acentuada para a direita. E, com isto, é enviado um novo sinal à América do Sul, que, país após país, está a deslizar para direitas cada vez mais radicais. 

A vitória de Abelardo de la Espriella insere-se numa onda que vai muito além de Bogotá. Com 49,7% dos votos contra 48,7% do senador de esquerda Iván Cepeda, o país escolheu um empresário sem experiência política, apoiado por Donald Trump e admirador declarado de Javier Milei e de Nayib Bukele. Uma viragem que confirma uma tendência regional já bem enraizada.
A "trumpização" da América do Sul
"É a confirmação da 'trumpização' dos Estados Unidos e, em particular, da América do Sul. Esta vitória na Colômbia reflete bem as influências de Donald Trump, de Javier Milei na Argentina, de Nayib Bukele em El Salvador ou de José Antonio Kast, eleito em dezembro no Chile. 

Estamos a assistir a uma espécie de Internacional da direita radical, que se está a unir em certos aspetos", afirma Frédéric Louault, doutorado em ciências políticas e especialista na América do Sul.

Para além da Colômbia, o panorama político do continente conta a mesma história: a Argentina na extrema-direita, o Equador e o Peru na direita radical, o Chile a inclinar-se para a extrema-direita e a Colômbia agora no mesmo campo. 

Por outro lado, o Brasil e o Uruguai permanecem ancorados na esquerda ou no centro-esquerda, enquanto a Venezuela continua a encarnar um regime de origem esquerdista que se tornou autoritário.

Todos [esses países da América do Sul] têm em comum questões bastante semelhantes.

Para Frédéric Louault, esta reestruturação não é um acidente eleitoral isolado, mas sim uma transformação profunda: "Todos estão unidos em torno de temas bastante semelhantes, tais como: a luta contra a esquerda em sentido lato, a desregulamentação e a destruição do Estado, o recurso a medidas enérgicas para combater a insegurança e a criminalidade".

Há cerca de dez anos, este movimento tem vindo a ganhar novo fôlego. As direitas tradicionais estão em declínio, por vezes esmagadas entre uma esquerda ainda sólida e figuras radicais que canalizam a ira social. 

"Há já cerca de dez anos que assistimos a uma radicalização das forças de direita. Hoje em dia, as forças de direita tradicionais estão literalmente a ser esmagadas pelas forças de direita radicais e pela extrema-direita", prossegue o codiretor do Centro de Estudos das Américas (AmericaS) da ULB. 

"Estão encurraladas entre um bloco de esquerda que continua, ainda assim, bastante sólido e esses outsiders da extrema-direita, por vezes novatos na política, que se apresentam com uma nova radicalidade e que vêm a drenar o eleitorado de direita. Assistimos, portanto, a um quase desaparecimento das opções políticas de direita que governaram praticamente desde o regresso das democracias em meados da década de 1980. Este é o elemento novo e marcante desde a eleição de Donald Trump em 2016", afirma.
As novas direitas estão a redefinir a América do Sul 
A Colômbia junta-se assim a uma lista já longa: Jair Bolsonaro em 2018, Bukele em 2019, Kast no Chile em 2025, ou ainda as dinâmicas peruanas em torno de Keiko Fujimori.
Apoiantes de Abelardo de la Espriella aguardam os resultados preliminares da segunda volta das eleições presidenciais em Barranquilla, na Colômbia, a 21 de junho de 2026 / VANEXA ROMERO / AFP

Mas porquê esta guinada para a direita no continente? Para o politólogo da ULB, a resposta é multifacetada e, sobretudo, estrutural. 

"Existe uma fragmentação do tecido social. Do ponto de vista económico, as desigualdades são cada vez mais profundas. A Colômbia é um excelente exemplo. Além disso, verificou-se que, desde 2013-2015, há claramente uma reviravolta na conjuntura económica, com um crescimento negativo. Acrescente-se a isso os diversos escândalos de corrupção, uma aversão às elites e uma reconfiguração da violência, com uma crise de segurança no continente e o surgimento de gangues e cartéis cada vez mais poderosos que, por vezes, se infiltram no Estado, e obtém-se o terreno mais fértil que se pode imaginar para o surgimento destas figuras provenientes da direita radical ou da extrema-direita", explica Frédéric Louault.
Efeito Bukele
Neste contexto, alguns modelos tornam-se referências. Nomeadamente o de Bukele, em El Salvador, apontado como exemplo por vários líderes e candidatos. 

"Para muitos países da América do Sul, o Presidente de El Salvador, na América Central, tornou-se um modelo. Foi o primeiro a candidatar-se sem aceitar a violação dos direitos humanos para prender certos membros de gangues. Conseguiu facilmente prender os criminosos para reduzir a insegurança num país muito pequeno. A sua política e este modelo de simplificação excessiva produziram resultados. Mas reproduzir este modelo à escala de um país grande, como a Colômbia ou o Peru, é praticamente impossível", explica o especialista em América do Sul.
Abelardo de la Espriella dirige-se aos apoiantes após o anúncio dos resultados preliminares da segunda volta das eleições presidenciais, em Barranquilla, na Colômbia, a 21 de junho de 2026 / JUAN BARRETO / AFP

Justamente, a Colômbia ilustra este paradoxo. Novo presidente eleito com a promessa de firmeza absoluta contra os grupos armados e o narcotráfico, Abelardo de la Espriella promete mega-prisões, uma redução maciça do Estado e uma guerra frontal contra os cartéis. 

"O que também é um pormenor curioso é que, no seu passado, o novo presidente colombiano foi advogado de vários narcotraficantes. Os observadores estarão, portanto, particularmente atentos às promessas de campanha sobre este tema", prossegue Frédéric Louault.
Promessas vazias?
Mas os especialistas já alertam para as limitações destes programas de segurança, num país marcado por décadas de conflito armado interno. 

"O que é certo é que muitas promessas eleitorais vão desmoronar-se. Já se vê isso com José Antonio Kast no Chile. Ele fez toda a sua campanha contra a imigração ilegal, associando o aumento da criminalidade à presença de venezuelanos no país. Queria fechar as fronteiras. Mas está a perceber que isso é muito mais complexo de pôr em prática. Como garantir o respeito pelos direitos humanos das pessoas detidas em resultado da política de segurança? Será preciso estar atento a isso", conclui Frédéric Louault.

Entre promessas de ruptura, modelos de segurança radicais e enormes expectativas sociais, a América do Sul parece estar a entrar numa nova fase política. Uma fase dominada por figuras fortes, muitas vezes outsiders, que prometem respostas simples a crises profundas. 

Resta saber se esta onda da direita radical representa uma viragem duradoura… Ou um novo ciclo de desilusão política num continente habituado a reviravoltas.

Quentin Warlop / 22 junho 2026 18:01 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
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