Ultras no Egito – Que papel na Primavera Árabe?

Ultras no Egito – Que papel na Primavera Árabe?

Surgiram em 2007 como um novo fenómeno social no Egito de Hosni Mubarak. Os Ultras, fações mais radicais de adeptos de clubes de futebol, começaram pelo apoio incondicional aos maiores clubes do país: o Al-Ahly e o Zamalek. No entanto, a sua influência foi muito mais além do que a paixão pelo futebol. Com o começo da Primavera Árabe, em 2012, os adeptos mais fervorosos do futebol politizaram-se e protagonizaram algumas das maiores mudanças no país africano.

Inês Geraldo, RTP /
Ultras homanageiam vítimas de violência no futebol Amr Dalsh - REUTERS

O fenómeno começou nos anos 60 na Itália e na América Latina. Os Ultras foram sempre as fações mais radicais e violentas que se conhecem nos adeptos das várias modalidades em todo o mundo. No Egito, onde existe uma das mais competitivas ligas de futebol do continente africano, a nova vaga de grupos Ultra surgiu em 2007.

O documentário de Alaa Mosbah, Ultras (pode ser visto aqui), demonstra o surgimento e o papel que estas pessoas tiveram numa das mais importantes revoluções do século XXI.

Surgidos ainda no período governado por Hosni Mubarak, os novos grupos foram vistos como simples apoiantes aos clubes de futebol, especialmente, aos dois mais famosos que o Egito conhece: o Al Ahly e o Zamalek.

Os dois maiores clubes do Egito são também aqueles que mais adeptos têm nos grupos Ultra: as equipas são o Al-Ahly e o Zamalek, ambos do Cairo.Por norma, os grupos ultra não têm cor política, vivem apenas para o futebol, sobrevivem da paixão pelos clubes que defendem como se da própria família se tratasse. Por isso, o executivo de Hosni Mubarak e as autoridades egípcias nunca viram nestes grupos uma possível ameaça para a segurança nacional.



No Egito, as duas maiores fações de adeptos radicais pertencem aos dois maiores clubes do país. Cada uma das equipas tem um grupo de Ultras associado e personalizado com músicas que contam a história dos respetivos clubes e da paixão que estes adeptos alimentam pelas suas equipas.

Pelo Al-Ahly, são os Ultras Ahlawy que se destacam, pelo Zamalek, os White Knights. Num país como o Egito, liderado com “mão-de-ferro”, o futebol é uma das grandes ocupações dos cidadãos. O “desporto rei” move milhões de fãs, até ao ponto de os grupos de "ultras" serem mais conhecidos do que qualquer partido político.
Tanto assim é, que o professor de Sociologia Saeed Sadek, presente no documentário Ultras afirmou que as manifestações nas ruas apenas se davam quando uma equipa de futebol ganhava um título.
Qualquer tipo de manifestação de expressão política nunca avançou, devido à vigilância política e militar.

Estes grupos são conhecidos como anarquistas, repudiam a autoridade e lutam contra ela sempre que podem, no entanto, apresentam várias especificidades que podem passar despercebidas ao cidadão comum.

No Egito, falamos de grupos compostos, maioritariamente, por jovens, de todos os credos e setores da sociedade.

No documentário de Alah Mosbaa, os Ultras, os adeptos destes grupos explicam na primeira pessoa que há um sentimento de integração que não encontram em mais nenhum lugar. Sentem-se parte de uma família unida, com um lema de vida semelhante a “um por todos e todos por um”.



Após a crescente mobilização da população egípcia, naquele que foi o começo da “Primavera Árabe”, os Ultras tornaram-se numa das principais forças contra o regime autoritário de Hosni Mubarak.

A maneira como os grupos Ultra lutam contra as autoridades foi um dos grandes fatores que trouxeram estes adeptos para o epicentro das maiores manifestações que ocorreram durante a revolução no Egito.

Não existem provas de que estes fãs de futebol tenham organizado, de forma propositada, a sua participação nos protestos e confrontos contra as autoridades e regime egípcio. Muitos são os que defendem que a mobilização de Ultras nada teve que ver com política. Especialistas acreditam que a mobilização de grupos de adeptos de futebol para fazerem parte de manifestações de cariz político se deve ao amor que sentem pelo seu país.

Não interessa a cor clubística destas pessoas, a verdade é que os Ultras foram o primeiro grupo de impacto da “Primavera Árabe”.

Estes jovens fizeram parte dos maiores protestos e manifestações que se encontravam a favor da deposição de Hosni Mubarak.

A maneira como se relacionam como uma família ajudou. À frente de qualquer outro cidadão egípcio, aguentando as cargas policiais, encontravam-se os Ultras. A experiência de lutar contra autoridades também foi benéfica.

Diz-se que a mentalidade anarquista foi preponderante na luta dos Ultras contra o regime de Hosni Mubarak, pois sabiam como comportar-se perante um cenário de ataque por parte das polícias.



Os Ultras tornaram-se, primeiramente, heróis da revolução. Foram estes jovens, adeptos de futebol, que protegeram os cidadãos que clamaram por mudança. Os cânticos, antes aplicados no desporto, passaram para a forma de protesto, dando energia e força aos egípcios para se manifestarem.

Foram o primeiro ponto de colisão contra o regime e frequentemente foram os primeiros a ser feridos ou a morrerem. Na Praça Tahrir, no Cairo, foram fundamentais para a deposição de Mubarak e o fim do regime autoritário.
A tragédia em Port Said
No dia 1 de fevereiro de 2012, o Al-Ahly deslocou-se até Port Said para defrontar a equipa da casa: o Al-Masry.

O treinador da equipa do Cairo na altura era Manuel José. O jogo decorreu num ambiente de grande tensão, com bancadas hostis.

O Al-Ahly foi o primeiro a marcar e com uma vantagem no resultado foi para os balneários, no intervalo. A segunda parte da partida para o campeonato egípcio começou atrasada.
Várias invasões de campo e arremesso de petardos e pedras fizeram com que Al-Ahly e Al-Masry entrassem mais tarde para dentro das quatro linhas.

Os 45 minutos seguintes continuaram a ser de grande hostilidade e tensão nas bancadas e o ambiente ficou cada vez mais difícil à medida que o Al-Masry ia marcando golos. Foram três no total, o que deu a vitória à equipa da casa.



No entanto, o descalabro aconteceu após o apito final do árbitro: invasão de campo, pânico instalado.

As duas equipas fugiram para o balneário, muitas outras pessoas tentaram fugir para locais seguros. Caos entre milhares de pessoas e setenta e quatro vidas perdidas. Ao todo, setenta e dois adeptos mortos eram do Al-Ahly. Dois do Al-Masry.

O estádio da equipa da casa tinha vários militares e polícias à volta da pista de atletismo do recinto. Testemunhas afirmaram que nada foi feito para parar a tragédia.



As autoridades egípcias afirmam que o episódio não passou de uma altercação futebolística. Duas claques rivais que após uma partida de futebol se defrontaram e criaram uma realidade de violência e morte.

No entanto, os egípcios refutam a ideia de que a tragédia de Port Said tenha sido mero acaso. Os cidadãos acusam as polícias e militares de se terem abstido de agir por vingança contra os Ultras do Al-Ahly, que haviam participado na revolução que fez cair o regime.

No dia 1 de fevereiro de 2012, morreram mais de setenta pessoas no Port Said Stadium após invasão de campo por parte de adeptos do Al-Masry. Três anos após a tragédia, recorde aqui algumas das imagens que mais marcaram o Egito e o mundo.



"Foi um assassínio o que aconteceu em Port Said", diz Manuel José


Manuel José treinou durante vários anos no Egito. Em três passagens no país africano, o técnico português liderou o Al-Ahly, considerado um dos maiores clubes do continente africano.

De 2001 a 2012 (com interregnos em clubes portugueses, sauditas e na seleção angolana), o treinador de 68 anos venceu vários títulos. Ligas ganhas foram seis, às quais juntou quatro Supertaças Egípcias e Africanas. As suas conquistas incluem ainda duas Ligas dos Campeões do continente africano.

No dia 1 de fevereiro de 2012, em Port Said, Manuel José encontrava-se no banco do Al-Ahly, em partida contra o Al-Masry.

Em declarações ao Online da RTP, o técnico português contou as incidências daquele dia, que até hoje, é considerado um dos mais violentos episódios a decorrer na história do futebol.

Questionado sobre o que aconteceu em Port Said, o treinador de Vila Real de Santo António é perentório: o que se passou naquele dia foi premeditado, tratou-se de um assassínio em massa, tendo em vista os Ultras do Al-Ahly.

Após a confusão se instalar dentro de campo, várias foram as pessoas que fugiram para dentro das instalações do estádio. Manuel José explicou ao Online da RTP que não conseguiu chegar perto dos seus jogadores e que soube das suas situações via telemóvel.

O técnico explicou que ainda tentou chegar ao balneário pelo próprio pé mas que não conseguiu. Durante a sua tentativa gorada, Manuel José revelou que foi agredido com socos e pontapés.

E ainda descreveu o pânico vivido dentro do balneário onde se encontravam os jogadores do Al-Ahly: num espaço que estava destinado para menos de 50 pessoas, chegaram a encontrar-se cerca de três centenas de cidadãos.

O treinador de Vila Real de Santo António explicou também o contexto em que a tragédia de Port Said ocorreu. Para o treinador português, a morte de 74 pessoas a 1 de fevereiro de 2012 teve motivações políticas.

Para Manuel José, os grupos Ultras do Al-Ahly e Zamalek foram um dos grandes esteios para a deposição de Hosni Mubarak e consequente sucesso da revolução egípcia.

Após a tragédia ter ocorrido no Port Said Stadium, Manuel José disse ter sido levado para uma instituição militar, de forma a ser protegido daquilo que sucedeu no estádio e que vitimou mais de 70 pessoas.

O treinador português explicou que foi transportado por um carro de vidros fumados e que foi redirecionado para o aeroporto mais próximo. Aí, diz ter chegado ao mesmo tempo que os jogadores do Al-Alhy, vindos em dois tanques de guerra.

Ao concluir as suas declarações ao Online da RTP, Manuel José afirmou não ter tido medo das convulsões sociais que aconteceram no Egito.

O técnico referiu que continuou sempre a treinar o Al-Ahly enquanto protestos e manifestações decorreram e que não sentiu necessidade de sair do país.

O governo português enviou dois aviões para trazer os portugueses que moravam no Egito de regresso a Portugal, mas Manuel José recusou, tendo ficado com a mulher e Pedro Barny, o seu adjunto.
Ultras: de heróis a vilõesApós os graves incidentes no Port Said Stadium, vários foram os Ultras que saíram à rua para contestar o massacre contra os seus pares.

Após a morte de mais de 70 pessoas, os Ultras falaram em vingança por todos aqueles que haviam sido mortos, no fatídico dia de 1 de fevereiro de 2012.
Não havia volta a dar: por mais que a génese dos Ultras tivesse elo com o futebol, os mesmos estavam politizados.
Num clime de euforia, em que se destacaram eleições livres, os Ultras foram usados por partidos em campanhas políticas. Após a queda de Hosny Mubarak, os Ultras perderam concentração naquilo que era o seu grande objetivo: vingar a morte dos seus em Port Said.

Em 2012, Mohamed Morsi foi eleito Presidente mas a situação de euforia durou pouco tempo.



Os problemas sociais regressaram e os Ultras voltaram a ter um papel preponderante na deposição de Morsi. Mais uma vez, saíram à rua e protestaram. Os Ultras sentiram-se usados pelo sistema político e perceberam que promessas passariam incólumes. Voltaram a lutar contra o regime, agora liderado por Morsi.


Após as várias mudanças no Egito, os adeptos pertencentes aos Ultras tentaram o regresso ao futebol. Não queriam ter nada que ver com a política e focaram-se apenas no apoio à sua equipa.

No entanto, o estrago estava feito. Num dia, os Ultras foram heróis da revolução, no dia seguinte tornaram-se terroristas na sua própria pátria.

Os grupos que surgiram em 2007 já não eram apenas associados ao futebol. Pelo regime, pelas autoridades e pelos militares, os adeptos mais radicais do futebol passaram a ser considerados terroristas.

A sua participação na Primavera Árabe tornou-se no pretexto perfeito para colocar um "alvo" nos adeptos que integravam os Ultras.
Confrontos no Zamalek - Enppi


Seguindo-se a tragédia em Port Said, o campeonato egípcio foi suspenso. Quando voltou ao ativo, as partidas foram sempre disputadas com as bancadas vazias.

Três anos passados de uma das maiores tragédias do mundo do futebol, o público foi novamente chamado ao estádio.
Com um limite de 10 mil pessoas para ver a partida entre Zamalek (atualmente treinado por Jesualdo Ferreira) e Enppi, os bilhetes esgotaram rapidamente.
Fora do estádio, vários ultras do Zamalek, os White Knights queriam entrar. Mais uma vez, abateu-se a tragédia no futebol egípcio, quando forças da autoridade e adeptos entraram em confronto.

As forças policiais egípcias afirmam que uma grande multidão de adeptos Ultras tentou forçar a entrada no estádio (no Cairo) e que essas mesmas pessoas não tinham bilhetes para poder entrar no estádio.

Para dispersar a multidão, entidades oficiais afirmam ter arremessado gás lacrimogéneo para afastar milhares de pessoas que queriam forçar entrada no espetáculo futebolístico.



No entanto, membros dos ultras falam novamente num “plano premeditado” pelas autoridades do Egito para “vilanizar” as fações mais radicais do futebol.

Um dos líderes dos White Knights chegou a acusar a polícia de ter planeado o sucedido. Na sua página de Facebook escreveu que a cerca de 5 mil adeptos foi dada permissão para entrar no estádio, fechando-os de seguida num espaço pequeno, tendo sido depois arremessado gás lacrimogéneo.

Ainda na rede social, o homem que dá pelo nome de Yassir Miracle afirmou: “Estas pessoas morreram devido ao gás e a esmagamento. As forças de segurança procuraram depois carteiras e dinheiro nos cadáveres e corpos de pessoas feridas”.

No Twitter, a revolta foi demonstrada pelos egípcios com a hashtag #ZamalekMartyrs.




Assim, deu-se mais um episódio em que duas partes se acusam. Manuel José saiu há três anos do Egito e revelou, em declarações ao Online da RTP, que achou curioso haver uma nova abertura do governo egípcio para uma partida de futebol.

O treinador de Vila Real de Santo António explicou que, se não fosse a interdição de adeptos num estádio, ainda hoje se encontraria a treinar no Egito e lamentou que novos episódios de violência no futebol tivessem regressado, logo após uma nova chamada de adeptos aos estádios de futebol.

As forças de segurança egípcias e o regime de Abdul Fatah Al-Sisi garantem que a ação das autoridades se deveu ao mau comportamento das claques e à falta de ingressos para entrar no recinto.

Já os adeptos acusam as forças da autoridade de planearem ataques desmedidos a si e aos seus pares, tendo como objetivo vingar-se da participação dos Ultras nas manifestações e protestos da Primavera Árabe.

No passado dia 8 de fevereiro de 2015, morreram 20 pessoas. Depois de Port Said, o futebol egípcio foi mais uma vez, pretexto para a violência.
PUB