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Um desastre (muito pouco) natural - opinião de Germano Almeida

Um desastre (muito pouco) natural - opinião de Germano Almeida

A UE estuda a possibilidade de classificar a saída do Reino Unido “desastre natural” para desbloquear 500 milhões de euros que diminuam um impacto que já sabemos que irá ser negativo – só falta saber em que escala. Atendendo à forma como os políticos britânicos se têm comportado, não será um exagero. Sair sem acordo não devia ser uma possibilidade. A menos que já todos tenham perdido a cabeça. Vinte e um deputados conservadores, pelo menos, ainda não perderam.

Opinião de Germano Almeida - Analista de Política Internacional /
Reuters

“Se for criada uma fronteira visível na ilha da Irlanda, garanto que – na verdade, eu sei que os preparativos já estão a ser feitos – haverá violência outra vez” (Eammon Melaugh, fundador do Derry Housing Action Committee)

O Brexit, a decisão política mais estúpida das últimas décadas no mundo ocidental, está naquele ponto especialmente perigoso em que uma análise racional leva a conclusões tão assustadoras que o melhor mesmo é tentar silenciá-las.

Mas isso nunca foi boa política.

Boris Johnson tem-se mostrado, como PM britânico, o que já se tinha mostrado enquanto defensor acérrimo do “Leave”, no referendo do verão de há três anos: um líder político inteligente, culto e talentoso -- mas sobretudo manipulador e altamente irresponsável.

O “mantra” com que se comprometeu de “aconteça o que acontecer, o Reino Unido sairá da UE a 31 de outubro” pode soar a determinação em momento difícil – mas quando não é acompanhado de um plano sério, não passa de mera irresponsabilidade.

Nessa medida, Boris Johnson é a expressão mais fiel de todo este processo: o Brexit é uma irresponsabilidade e pura demagogia.

Todos perdem - estamos na fase de saber quem perderá mais e até que ponto -, ninguém ganha e ninguém faz a mínima ideia do que poderá suceder daqui a menos de dois meses.

Os argumentos da saída fundaram-se em mentiras e imprecisões (após o abandono da UE, os britânicos “retomariam o controlo” do seu país, como se alguma vez tivessem perdido a soberania do mesmo; Londres daria por semana 3,5 mil milhões de libras a Bruxelas, supostamente retirados do serviço nacional de saúde inglês, para financiar a saúde dos europeus, uma mentira tão descarada que os próprios Brexiteers, após os resultados do referendo, se apressaram a desmenti-la).

A hidra do populismo exibiu os seus poderes perversamente encantatórios a 23 de junho de 2016 – e depois do Mal feito, como em quase tudo nesta vida, só houve espaço para piorar.

Culpa, por cobardia e imprudência, de David Cameron (que achava que com um referendo matava politicamente o UKIP); de Jeremy Corbyn, líder trabalhista que começou por dar uma no cravo (terá votado pelo Leave) e dá agora outra na ferradura (diz que não pode aceitar saída sem acordo, mas foi incapaz de fazer grande entendimento com os conservadores).

Theresa May, uma Remainer, assumiu como missão entregar o Brexit.

Chegou a obter o único aspeto positivo deste processo lamentável – acordo com a equipa de Michel Barnier que previa, por entendimento de Londres com Bruxelas, moratória de dois anos em muitos aspetos da livre circulação, defesa dos direitos recíprocos de cidadãos britânicos e europeus e “backstop” na questão das Irlandas, ainda que temporário.

Desgraçadamente, esse acordo nunca vingou no parlamento britânico.

E foi aí que começou a desenhar-se o desastre: os ingleses queriam o Brexit, mas nunca souberam, nestes três anos e meio, explicar bem como – muito menos porquê.

Na loucura galopante em que entrou esta reta final do Brexit – Boris a pedir à Rainha a suspensão do Parlamento, Boris a dizer que quer acordo mas sem o ter, Boris a dizer que, se for caso disso, é para sair mesmo sem acordo, Corbyn a ameaçar com novas eleições, desde que isso garanta saída com acordo – ontem assistimos, finalmente, a uma réstia de bom senso.

Phillip Lee, deputado conservador, mudou de bancada em pleno discurso de Johnson e tirou a maioria a este executivo. Mais tarde, 21 deputados “tories” (sendo um deles Ken Clarke, antigo ministro das Finanças de Thatcher) votaram a favor de uma proposta que retoma o controlo para o parlamento do processo de saída – o que lhes custou a perda de estatuto partidário na bancada conservadora.

A ver a maioria parlamentar fugir-lhe das mãos, e sabendo que o cansaço do eleitorado é tão grande em relação a estes três anos de Brexit sem concretização, Boris fará tudo pela dramatização: quer eleições antecipadas a 15 de outubro, de modo a ter um mandato popular que impeça novo adiamento.

Há ainda, caso não haja “snap elections” e o Reino Unido saia mesmo a 31 de outubro em “No Deal Brexit”, quem antecipe um “Halloween Scenario”: eleições logo a seguir à saída desordenada, de modo a que Johnson agarre os louros juntos dos Brexiteers (e assim evite a ascensão de Farage, o Partido do Brexit e os nacionalistas do UKIP), mas não deixe passar tempo suficiente para sofrer custos eleitorais quanto ao caos que pode estar para vir nos meses seguintes.
Saída caótica não devia ser possibilidade. Mas é
Sair sem acordo – ainda que a oito semanas do “deadline” seja o cenároo que se aproxima – não devia ser uma possibilidade. A menos que já toda a gente tenha perdido.

Relatório governamental conhecido no mês passado apontava para alguns meses de caos total no Reino Unido, com serviços perto do colapso, filas de vários quilómetros no Canal da Mancha, perigo de ruturas de stock em mercadorias básicas.

Não será muito inteligente desvalorizar esse risco: 53% do que o Reino Unido consome diariamente é importado da EU; e 47% do que produz é exportado para a EU.

O mercado britânico também é muito relevante para a UE como um todo: 3% do total que exporta, 2,2% do total que importa. É importante, mas haverá alternativas.

Achar que se pode tirar um país com a dimensão e o peso do Reino Unido – terceira maior economia europeia, sétima maior mundial, maior exército nacional no espaço europeu – sem um plano ordenado e sem atender a imensos fatores específicos (alfandegários, fronteiriços, individuais, bilaterais, transnacionais; por terra, ar e mar) só pode ser encarado como ingenuidade, populismo ou (respirem fundo…) já num plano de delírio desesperado sobre o que poderá estar aí para vir.

É claro que terá que haver um acordo: se não for “a bem” (nos próximos 50 dias, a tempo de evitar o caos pós deadline de 31 de outubro) será “a mal”, umas semanas ou meses depois.

A que custo?

Esse é que é o grande problema.

O mercado do Reino Unido totaliza 3,5% da economia mundial, em 2019.

Estudo recente da Conferência das Nações Unidos para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) aponta para perdas na ordem 36 mil milhões de dólares para o todo da EU com o que deixará de exportar para o Reino Unido, enquanto não houver “Brexit Deal”). Logo a seguir a Turquia: 2,4 mil milhões. Coreia do Sul, Paquistão, Noruega, Islândia e Suíça também vão perder.

Maiores beneficiários dessa fortíssima retração nas relações UK/UE? Os dois colossos: China (mais 10,2 mil milhões exportações para o Reino Unido) e EUA (5,3 mil milhões de ganhos). Mas também África do Sul, Tailândia, Índia, Brasil, Rússia, Vietname e Nova Zelândia deverão ser mercados alternativos à UE para os britânicos, em caso de rutura desordenada.O tempo da Razão já passou
Se os erros políticos de Londres só afetassem quem voltou nos responsáveis, estaríamos a falar de um problema mais limitado.

Mas não.

O Brexit – que em referendo ganhou em Inglaterra e em Gales, mas perdeu na Escócia e na Irlanda – terá graves repercussões em dois dos países do Reino Unido.

A independência da Escócia será questão a ressurgir – já está a ser – e o problema das Irlandas (resolvido política e diplomaticamente há duas décadas) vai ressuscitar.

Também por isso, não haverá acordo eficaz que não preveja um “backstop”.

Devemos nós, europeus, ficar muito preocupados como este disparate do Brexit? Claro que sim.

Mas convém, também, lembrar que, nos últimos anos, já se decretou demasiadas vezes o “fim da Europa”. E a tudo a “Europa” resistiu: à crise financeira 2007-2009, à crise das dívidas soberanas, à crise do Euro, à ascensão dos populismos, à crise dos refugiados.

Sobreviverá, certamente, ao Brexit. Sem um aliado fundamental, mas com uma forte noção de que, apesar das divergências entre estados membros, a probabilidade de outro país desejar sair nos anos mais próximos não só não aumentou com este lamentável processo, como até diminuiu.

O Brexit não acabará com a Europa – mas já não é assim tão certo que não vá acabar com o Reino Unido.

Atrás dos tempos vêm tempos.
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