Uma independência marcada pela tristeza da morte de Amílcar

Uma independência marcada pela tristeza da morte de Amílcar

A declaração de Independência da Guiné-Bissau esteve quase para acontecer no dia de aniversário de Carmen Pereira, a única mulher que estava na mesa de proclamação, em 1973, na primeira reunião da Assembleia Nacional Popular (ANP).

Lusa /

"Era para ser antes de 24 [de setembro] e até eu estava a pensar: não. Vão marcar para a data do meu aniversário, que é 22 de setembro", conta em entrevista à agência Lusa.

Ela como segunda vice-presidente e Juvêncio Gomes, segundo secretário, são os dois únicos membros vivos da primeira mesa da ANP, o parlamento guineense -- mesa composta ainda por Paulo Correia (primeiro vice-presidente), Pascoal Alves (primeiro secretário) e Nino Vieira (presidente), o comandante das tropas de libertação que leu a proclamação da independência e que viria a ser Presidente da República da Guiné-Bissau, assassinado em 2009.

As dificuldades logísticas da época atrasaram a cerimónia em que o país nasceu -- e fizeram com que o feriado nacional não coincidisse com a data de aniversário de Carmen Pereira, presidente da Guiné-Bissau durante uma semana em maio de 1984 (por ser presidente da Assembleia, segundo figura política do Estado), chamada temporariamente ao cargo por Nino, quando este se ausentou do país.

Embora por pouco tempo, foi a primeira mulher presidente em África e a única na Guiné-Bissau.

Em 1973, a independência ainda era um sonho e a declaração era para ser lida no sul do país, mas "os portugueses souberam e houve bombardeamentos muito fortes".

Carmen recorda-se de ter sido Amílcar Cabral, líder do movimento independentista, a sugerir que se desviasse a assembleia inaugural para o Boé -- mais a nordeste, longe da mata, um sítio onde os portugueses não pensariam procurá-los, recorda.

Amílcar seria assassinado em janeiro de 1973 e já não assistiu ao momento que planeou.

No entanto "deixou uma agenda" onde estava anotado "tudo como deveria ser executado".

Os "camaradas" de partido Luís Cabral e Aristides Pereira "seguiram à risca as ideias que ele deixou", explica Carmen Pereira.

No dia da Independência, a combatente lembra-se de "haver muito choro" na sessão da ANP, porque "todos sentiam falta do camarada Amílcar Cabral: um dirigente, um amigo, um camarada e um conselheiro".

A mobilização de todos os deputados desde as respetivas frentes de batalha foi uma empreitada logística, levou tempo, mas o dia da Independência chegou.

O 24 de setembro de 1973 estava soalheiro na Madina do Boé, recorda Juvêncio Gomes, que na altura era comissário político do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) na Marinha -- ao passo que Carmen Pereira era comissária política do PAIGC no sul.

Foi um dia de sentimentos mistos: "muita gente chorou", recorda, mas "também houve camaradas a dançar e a tocar tambores", porque estava criada a República da Guiné-Bissau.

Passaram 42 anos e o país está entre os mais pobres do fundo, faltam infraestruturas básicas e serviços essenciais do Estado, como os hospitais e tribunais, que funcionam mal ou não trabalham de todo.

Mas, mesmo assim, destes dois veteranos vai ouvir-se sempre que valeu a pena a Independência.

Valeu a pena, mas há ressalvas: "nem sequer quero ouvir as palavras `golpe de Estado`, porque são um grande atraso para o país. Foi por causa de tantos golpes que a Guiné-Bissau ficou assim para atrás", salienta Carmen Pereira.

Agora pode-se dizer que valeu a pena, acrescenta Carmen Pereira, porque desde as eleições de 2014 "o país deixou de andar para trás": agora "a estabilidade veio para ficar".

A combatente acredita que os alegados atritos entre o Presidente José Mário Vaz, o presidente da Assembleia Nacional Popular Cipriano Cassamá e o primeiro-ministro Domingos Simões Pereira (todos do PAIGC) não passam de "boatos".

"Isso vem de pessoas que gostam de falar, mas o importante é trabalhar. Na Guiné-Bissau fala-se de tudo. É deixá-los falar. Tanto o Presidente como o primeiro-ministro evitam essas coisas", ou seja, tudo o que tenha a ver com desavenças.

Carmen Pereira faz parte de uma comissão criada no PAIGC para falar com aquelas três figuras de Estado e promover um encontro conjunto, tudo para garantir a coesão.

Para lá dos partidos, Juvêncio Gomes acredita que há jovens "decididos" e "destemidos" capaz de fazer a diferença, tal como ele e a companheira de armas ao lutarem pela Independência.

"Acredito sim, acredito neles", sublinha, com Carmen a defender a mesma ideia -- até porque já tem pelo menos um filho envolvido na atividade política.

"A experiência desses 41 anos ensina-nos que devemos ser firmes no nosso propósito de transformar novas gerações para dirigir o futuro do país", conclui Juvêncio Gomes.

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