União Europeia em crise acolhe Croácia à espera de "nova história"

União Europeia em crise acolhe Croácia à espera de "nova história"

Debaixo de clarões de fogo-de-artifício e ao som das notas que Beethoven juntou em 1823 para criar o Hino à Alegria, a Croácia tornou-se às 0h00 desta segunda-feira o 28.º Estado-membro da União Europeia. Em Zagreb, dezenas de milhares de pessoas ouviram o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, a clamar que, ao fim de 22 anos de independência, aquele país está agora no “seu lugar justo”, o “coração da Europa”. Do Presidente croata, Ivo Josipovic, ouviram um apelo ao “otimismo”. Mesmo sob a “nuvem da crise” que se estende dos Balcãs à Península Ibérica.

RTP / Adicionar como fonte informativa
“É uma noite histórica. Vocês fizeram regressar a Croácia ao seu lugar justo, ao coração da Europa”, afirmou Durão Barroso em Zagreb Antonio Bronic, Reuters

“Não deixemos que a nuvem da crise económica ensombre o nosso otimismo. A crise é um desafio, um convite a fazer amanhã um dia melhor do que hoje”, exortou o Presidente da Croácia diante de cerca de 20 mil pessoas congregadas na Praça Ban Jelačić, em Zagreb, para testemunharem a hora zero da adesão do país à União Europeia.

A Croácia adere à União Europeia ao cabo de mais de dez anos de negociações e 22 anos depois da proclamação da independência face à antiga Jusgoslávia – o primeiro país da região a entrar no bloco foi a Eslovénia, em 2004.


O “convite” de Ivo Josipovic ilustra a esperança de que a entrada na Europa comunitária possa de algum modo atenuar o quadro de recessão que se vive desde 2009 naquele país balcânico, onde o desemprego atinge quase 20 por cento da população ativa e o Produto Interno Bruto permanece 39 por cento abaixo da média europeia, um indicador de atraso que é apenas superado por Roménia e Bulgária, países-membros desde 2007.

No seio do Governo de centro-esquerda liderado por Zoran Milanovic espera-se que, uma vez selado, o processo de adesão impulsione o tão desejado investimento estrangeiro. Ainda que a atual conjuntura da Europa comunitária, a braços com um persistente abalo económico, financeiro e cada vez mais institucional, aconselhe contenção. A opinião pública croata, essa, oscila hoje entre a partilha das expectativas dos órgãos do poder político e um ceticismo militante.

Nas redes sociais, incluindo a página que o Governo croata alimenta no Facebook, há quem questione abertamente as virtudes da adesão e até a pompa das celebrações com o agravamento da crise em pano de fundo. Outros, como os responsáveis pela organização não-governamental Occupy Croatia, encaram mesmo a entrada na União como “um genocídio económico contra os cidadãos”. E as leis europeias como instrumentos destinados a “servir os interesses de ricas multinacionais”, pela mão dos “seus vassalos políticos”. É este o tom de uma nota daquela estrutura eurocética citada pela France Presse.

Mas há também quem não contenha o júbilo. Como o estudante de economia Nik Kolveshi, ouvido pela mesma agência noticiosa, que, munido de uma pequena bandeira da União Europeia, acenava na última noite com a convicção de que se abririam de ora em diante “muitas oportunidades”.
A “noite histórica”

A alegria de Kolvechi é, em suma, um eco de todos os discursos oficiais. Se o Presidente Josipic se referiu à Europa como “um elemento-chave da identidade” dos croatas e como “uma comunidade de paz e segurança”, o primeiro-ministro Milanovic assinalou a “noite histórica” e sublinhou as “novas responsabilidades” decorrentes da adesão perante as dezenas de milhares de pessoas em festa no centro de Zagreb - assim como aos presidentes dos demais países dos Balcãs, que quiseram marcar presença nas cerimónias.

A abertura do espaço comunitário aos cerca de 4,2 milhões de croatas consuma o sétimo processo de alargamento desde 1957. São agora candidatos à adesão Sérvia, Montenegro, Macedónia, Islândia e Turquia.“Bem-vindos à União Europeia”, proclamou por sua vez, em Croata, o presidente da Comissão Europeia, para quem a Croácia se tornou uma “democracia plena”. “Vocês devolveram a Croácia ao seu lugar justo, ao coração da Europa. Hoje é o fim de um processo e o primeiro capítulo de uma nova história de sucesso”, acrescentou Durão Barroso.

Simbolicamente, no instante em que os relógios croatas marcaram a meia-noite (23h00 em Lisboa) foi removida a inscrição “alfândega” do posto da fronteira com a Eslovénia. Em simultâneo, era instalado um painel com a sigla da União Europeia na fronteira com a Sérvia, que recebeu na semana passada a luz verde de Bruxelas para o início das negociações de adesão.

Em Zagreb os festejos contaram com a participação de mais de 700 artistas, entre músicos, cantores e bailarinos. Houve também celebrações nas cidades de Split, Dubrovnik, Varazdin e Riejka.

Além de Durão Barroso e do presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, estiveram na capital croata perto de 170 responsáveis internacionais, entre os quais 15 chefes de Estado e 13 primeiros-ministros. A ausência mais controversa foi a da chanceler alemã, que se justificou com incompatibilidades de agenda. A imprensa da Croácia noticiou, porém, que Angela Merkel decidiu ficar em casa por causa da recusa das autoridades croatas em extraditar um antigo chefe dos serviços secretos jugoslavos procurado pela Justiça germânica – um processo ligado à morte de um dissidente croata na Alemanha em 1983.
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