Venâncio escreve a PR moçambicano pedindo para travar "carnificina" contra Anamola

Venâncio escreve a PR moçambicano pedindo para travar "carnificina" contra Anamola

O político moçambicano Venâncio Mondlane pediu hoje a intervenção do Presidente da República para travar a "carnificina" contra membros do Anamola, partido que lidera, garantindo que fez "tudo" com que se comprometeu no processo de pacificação de Moçambique.

Lusa /

"Da minha parte, fiz tudo desde o primeiro encontro, em 23 de março de 2025. Cumpri a minha palavra, mesmo com custo reputacional perante o povo. Contudo, é claro que esta lealdade está a ser lida como um salvo-conduto para cometer atrocidades contra membros do partido Anamola, os meus seguidores e o povo em geral", lê-se na carta aberta, divulgada pelo político e ex-candidato presidencial sobre "a situação dos direitos humanos e da violência política em Moçambique".

Venâncio Mondlane liderou a contestação ao processo em torno das eleições gerais de outubro de 2024, que levaram a cinco meses de protestos, confrontos com a polícia que provocaram mais de 400 mortos, e a destruição e vandalização de empresas e instituições públicas. O candidato presidencial nunca reconheceu os resultados e a violência só cessou depois de um encontro em março de 2025 com Daniel Chapo, empossado três meses antes como quinto Presidente moçambicano.

"Não procuramos conflito. Mas se o povo for coagido e ficar sem recurso legal, a história ensina que os povos privados de canais legítimos de participação e justiça tendem a procurar outras formas de resistência. Continuamos abertos ao diálogo genuíno e à paz, mas não aceitaremos a perseguição contínua do nosso povo e o desmantelamento da democracia em Moçambique", afirma.

O político fundou, em agosto de 2025, o Anamola e, desde então, afirma, em denúncias públicas e nesta carta, registaram-se "mais de 450 casos de violência contra membros do partido, incluindo 56 mortes", até maio.

"Com a aproximação da data da primeira convenção nacional do partido Anamola, marcada para 20 a 22 de junho de 2026, relatos de raptos de membros do partido multiplicam-se semanalmente e as detenções sem base legal intensificam-se", acusa.

Na carta assume-se "não apenas como o rosto mais visível da oposição em Moçambique, mas também como representante de milhões de moçambicanos que aspiram por um país mais livre, justo e democrático".

"Faço-o como cidadão que carrega o peso da nossa recente história dolorosa e o clamor de um povo que se recusa a ser silenciado", descreve Venâncio Mondlane, que lidera interinamente, desde setembro, o partido que lançou e fundou e é o único candidato a presidente na convenção do Anamola agendada para Nampula, no norte do país.

"Exorto-vos, como a autoridade máxima responsável pelo comando dado à UIR [Unidade de Intervenção Rápida, da polícia] e outras forças envolvidas nestas mortes, a fazer tudo para cessar esta carnificina", acrescenta, dirigindo-se a Chapo.

Afirma que "não há nada nem ninguém que abandonará a luta pela liberdade e pela justiça por causa de um regime que tem recorrido à repressão e à violência como instrumentos de controlo político" e avisa que "todo o sangue derramado apenas fertilizará e catalisará a convicção de que o povo se deve unir e preparar para uma nova e longa batalha contra a sua própria opressão".

"Estas perseguições e assassinatos, num Estado de Direito, apontam para premeditação com o objetivo de enfraquecer política e socialmente o partido Anamola, intimidar e aterrorizar o povo, e silenciar a democracia em Moçambique", diz, na carta, afirmando que esta posição "não constitui um ato de hostilidade" e sim de "responsabilidade".

"É um apelo à consciência do Estado, à legalidade e à paz. Visa expor, com rigor cronológico e factual, a deterioração acelerada dos direitos humanos e do funcionamento democrático no nosso país, e exigir ações imediatas para travar uma escalada que ameaça a própria existência da Nação como Estado de Direito", diz, após descrever vários episódios de violência e denunciar "o retorno da impunidade".

"Moçambique atravessa o período mais sombrio da sua história em matéria de direitos humanos. Assistimos ao ressurgir de um padrão que a Amnistia Internacional denunciou em 2008 e 2015: impunidade policial institucionalizada", conclui.

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