"Vivia-se melhor no tempo indonésio" - Abílio Araújo

"Vivia-se melhor no tempo indonésio" - Abílio Araújo

Abílio Araújo, presidente do Partido Nacionalista Timorense (PNT), pretende adaptar algumas políticas económicas indonésias e defende que a situação actual do país colocaria em risco a opção pela independência, dado que "se vivia melhor materialmente" durante a ocupação.

Pedro Rosa Mendes (© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.) /

"Se não fosse a destruição feita pelos indonésios e pelas milícias (pró-autonomia) em 1999, a situação actual poderia ter gerado uma nova recusa da independência, porque o povinho hoje diz que vivia melhor materialmente", afirmou o líder do PNT em entrevista à Lusa.

"É claro que havia repressão e morte" nos 24 anos de ocupação do território, ressalvou Abílio Araújo.

O presidente do PNT, "simples empresário que vem investir aqui", antigo líder da Fretilin, regressou quarta-feira de Portugal, onde tem vivido, para os últimos sete dias de campanha para as legislativas de 30 de Junho.

Abílio Araújo foi recebido no aeroporto de Díli por cerca de 300 apoiantes, segundo a Polícia das Nações Unidas, situação que gerou uma "altercação" com elementos do campo de deslocados que obrigou à intervenção da UNPol e das Forças de Estabilização Internacionais (ISF) para "evitar a escalada para um incidente sério".

"Ninguém esperava" o entusiasmo dos apoiantes, disse Abílio Araújo, o que prenuncia que "o PNT vai ser a surpresa desta campanha".

"A minha imagem ainda está intacta", sublinhou o líder do PNT, salientando que pertence à mesma geração dos actuais líderes timorenses.

"Historicamente, sou colega de todos".

Abílio Araújo iniciou-se na política "muito jovem, com um grupo que mais tarde viria a ser a Associação Social-Democrata Timorense (ASDT) e a Fretilin", recordou.

A sua posição política era, nessa época, no "género de uma clandestinidade com alguma tolerância do sistema colonial".

"O sistema não exerceu forte repressão sobre nós, porque sabia que a repressão iria gerar uma organização", explicou Abílio Araújo à Lusa no final de um comício em Díli.

"Isto era em 1971. Eu tinha 20 anos. José Ramos-Horta 20 anos. Mari Alkatiri 20 anos".

Abílio Araújo, "melhor aluno no último ano de liceu em Díli", ganhou uma bolsa de estudo em Portugal, para Ciências Económicas e Financeiras, "o primeiro timorense a estudar e a graduar-se neste curso".

Em 1974, regressou a Timor durante 13 meses, para integrar a Fretilin.

"Fui eu que redigi o programa político da Fretilin e escrevi o hino", recordou Abílio Araújo, que situa a sua desavença com a Fretilin na "profunda divergência" com Xanana Gusmão, comandante das Falintil e comissário político nacional do partido, "a partir de 1987/88".

"Comecei por ser marxista-leninista. Hoje sou o que se chama um burguês", resumiu Abílio Araújo sobre as suas convicções políticas.

"Como maoista, conheci nos bancos da universidade figuras como José Manuel Durão Barroso, José Lamego e Ana Gomes", referiu sobre a sua experiência política no pós-25 de Abril.

Abílio Araújo critica a governação da Fretilin porque, "não obstante ter ganho a maioria absoluta em 2002, deveria ter enveredado por uma política de convergência nacional".

"Assim teria somado todas as energias e não teríamos chegado a isto", acusa o presidente do PNT, "em que um governo chamado de inclusão acabou por ser um governo de exclusão".

O programa do PNT em 2007 "é o mesmo que não foi realizado" pela Fretilin, afirmou Abílio Araújo, "com a diferença da realidade timorense, que não é a mesma".

"Mudou a economia, mudou a sociedade tradicional. Na época colonial, nenhum timorense tinha loja porque o comércio estava todo nas mãos dos chineses", notou o presidente do PNT.

"Até 1975, os timorenses beneficiados eram apenas os funcionários públicos. No tempo indonésio não se fez grande coisa, mas foi nessa época que os timorenses começaram a ter um quiosque, uma loja, a ser comerciantes individuais, importadores, até que hoje já temos uma classe empresarial".

"A estrutura económica de Timor era nitidamente colonial: exportar o café para importar o nescafé", analisou ainda Abílio Araújo.

Uma das propostas do PNT é "pagar parte dos salários em géneros", incentivando a produção agrícola nacional, uma ideia inspirada no Instituto Logístico indonésio que "comprava todo o arroz de todo o país para depois o distribuir integrado nos vencimentos".

Sobre a exploração petrolífera, a maior mudança na economia do país nas últimas décadas, o PNT propõe a alteração do modelo do Fundo existente.

"Achamos bem a constituição do Fundo mas não a sua aplicação. O modelo copiado da Noruega não é consentâneo com o estado de desenvolvimento de Timor", explicou Abílio Araújo.

"A própria Noruega, quando iniciou a exploração, esperou dez anos para começar a constituir o seu fundo petrolífero. Nós começámos logo. Isso criou uma dependência do Governo das doações ao não conseguir libertar investimento produtivo", segundo o líder do PNT.

"O modelo actual é condenar o povo timorense à doença, à fome e ao subdesenvolvimento".

Abílio Araújo acredita que "nenhum partido vai ter maioria absoluta" nas eleições de 30 de Junho, "e nenhum partido irá ultrapassar os 30 por cento".

"Vamos precisar de uma coligação de dois ou três partidos no governo" e o PNT estaria "disponível" para a integrar.

O PNT tem dois deputados no actual Parlamento, obtidos com 8 mil votos nas eleições para a Assembleia Constituinte.


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