Filipe Alexandre Gonçalves (Jornalista), Nuno Patrício (Jornalista, Imagem e Edição), Sara Piteira (Multimédia)
Filipe Alexandre Gonçalves (Jornalista), Nuno Patrício (Imagem e Edição), Sara Piteira (Multimédia)
Há pontes que ligam margens e outras que unem histórias.
A 6 de agosto de 1966, às dez e meia da manhã, o hino nacional ecoava sobre o Rio Tejo enquanto os tiros de salva, disparados do Forte de Almada, assinalavam um momento histórico: Era inaugurada a Ponte Salazar.
O país mudou.
A História também.
E a Revolução dos Cravos, em 1974, trouxe um novo nome à ponte: 25 de Abril.
Sessenta anos depois da inauguração, há outras histórias que continuam a ligar muito mais do que as duas margens.
E por isso, juntamos uma cabeleireira, uma jovem turista e um engenheiro. São três protagonistas que à partida parecem não ter nada em comum, mas basta ouvi-los para perceber que há muito mais a uni-los do que a separá-los.
Na espuma dos dias, há histórias, por detrás de uma história, que merecem ser partilhadas. Falam de saudade, de ofício, do quotidiano e dos bastidores daquela que é a terceira ponte do mundo, e a primeira da Europa, com o maior vão central, na categoria de pontes rodoviárias e ferroviárias.
E para conhecer as histórias que não se veem tivemos de andar a pé cerca de 600 metros pelo tabuleiro da ponte, percorrer corredores estreitos, subir escadas, fazer contorcionismo até chegarmos ao topo do Pilar 3, a 192 metros de altura, com o Tejo aos pés.
Esta reportagem conta tudo isto e é, também, um desafio para quem sofre de vertigens e de claustrofobia.
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"Nunca pensei viver debaixo da ponte"
Lucília Novo, 79 anos, cabeleireira
Lucília Novo tem 79 anos e desde os 13 é cabeleireira. Nunca teve outra profissão e não se via a fazer outra coisa que não a de cuidar da imagem das pessoas. A conversa com esta “alfacinha de gema” faz-se tendo a Ponte 25 de Abril como cenário. Mas a relação de Lucília com a Ponte vai além dos laços de vizinhança. Tem medo de atravessá-la e recorda com orgulho: “a minha mãe foi a primeira mulher a passar a ponte.”
Entre a Rua 1.º de Maio, no coração de Lisboa, e o pequeno cabeleireiro de Lucília Novo ergue-se um dos pilares da Ponte 25 de Abril. Lá fora, a estrutura de aço domina a paisagem. No interior, por entre espelhos, cadeiras e o silêncio das horas mais quentes do dia, a ponte deixou de ser novidade há muito tempo. “Tornou-se parte da rotina”, desabafa.
Há mais de quatro décadas que Lucília abre diariamente a porta do cabeleireiro, no número 45, com o “gigante de ferro” a fazer-lhe companhia.
“Nessa altura, a minha mãe trabalhava numa casa de fotografia e foi em serviço à inauguração. Então na foto, vê-se o Américo Tomás [Presidente da República] a apertar a mão à minha mãe. E estava o Salazar a olhar para ela. Risos E eu tenho essa fotografia, mas não sei onde”, contou.
Mas apesar dos esforços da família, não foi possível encontrar a fotografia. Diz que se perdeu algures nos arquivos da família, terá sido emprestada e não foi devolvida, e nem uma busca incessante conseguiram resgatá-la para os nossos dias.
Resta-lhe a memória. Lucília recorda que Argentina Galvão Novo era uma mulher muito à frente do seu tempo. Dominava vários idiomas e foi convidada para trabalhar na Casa Fotografia Vasques, que funcionava na Rua D. Pedro V, em São Pedro de Alcântara.
Argentina Galvão Novo mãe de Lucília
Cabia-lhe angariar clientes para adquirir as fotografias que eram tiradas em várias ocasiões e foi com essa missão que acompanhou o fotógrafo na inauguração da ponte, a 6 de Agosto de 1966.
Sempre que viaja no tempo até essa altura, Lucília lembra-se também de uma frase que dizia em tom de brincadeira e que a vida encarregou-se, anos mais tarde, de lhe dar outro significado.
“Quem nunca vai morar aqui, debaixo da ponte, sou eu. E agora, tenho o cabeleireiro há mais de 40 anos e nunca pensei vir viver para debaixo da ponte”, disse ao mesmo tempo que deixava escapar uma gargalhada.
E sendo vizinha da Ponte, Lucília nunca conseguiu vencer o medo. E quando tinha de passar pela zona, apressava o passo. “Tinha medo de passar pela ponte porque alguma coisa podia cair”, acrescentou.
E por repetir a frase vezes sem conta, acabou por antecipar episódios que aconteceram há bem pouco tempo. “Uma vez caiu um parafuso. Bem grande! E de vez enquanto caiam coisas que eram perigosas se caíssem na cabeça das pessoas”, fez questão de denunciar.
As conversas com Lucília vagueiam entre o passado e o presente, entre o que lhe contaram e o que vivenciou na primeira pessoa. Uma delas foi a primeira travessia na Ponte 25 de Abril, feita em autocarro, na companhia do marido. E décadas depois, a sensação continua a mesma. “Ainda hoje, não gosto de passar em cima da ponte e tenho muito mais medo de andar lá em cima, do que aqui em baixo ”, recordou. “Eu conduzia e cada vez que ia em cima da ponte não era capaz de conduzir em cima da grelha. E se eu for com alguém que vai a conduzir em cima da grelha eu fico nervosa”, explicou.
Enquanto a conversa flui, Bernardo Rocha, o neto, ouve em silêncio cada palavra da avó. Só o acenar da cabeça é o único gesto que faz para concordar com algumas histórias que ouve sobre a bisavó. O jovem diz que são parte da memória da família e regressam sempre que se juntam à mesa, nos almoços e jantares.
“Sempre ouvi a avó contar que a minha bisavó tinha sido a primeira mulher a pisar a ponte. E eu lembro-me de, em pequeno, ver a foto. Eu creio que nunca foi publicada, e a ter sido, talvez nos jornais da época”.
Depois da entrevista Bernardo Rocha comprometeu-se a vasculhar os retratos da família para encontrar a foto que testemunha o momento da inauguração. No entanto, o jovem não chegou a encontrar. “Eu dou-lhe a minha palavra que é verdade que a foto existe”, justificou.
Apesar dos 17 anos, Bernardo repara na ponte com outros olhos. Diz que a história contemporânea, sobretudo a partir da década de 60 do século XX, desperta-lhe uma curiosidade que aumenta sempre que conhece novos pormenores da ponte.
“Chamou-me à atenção a forma como a ponte foi construída. Eu não fazia a mínima ideia que tinham começado primeiro pela base, dentro do rio Tejo. E é interessante também saber que o projeto escolhido para a construção da Ponte não foi um atual, mas sim um anterior. Gosto de saber que a forma como foi construída mudou muito a zona, porque era uma zona fabril”, explicou.
Encostado a uma das paredes do espaço onde funciona o cabeleireiro da avó, Bernardo levanta os olhos para o enorme pilar branco e a irreverência da juventude e a vontade de querer saber mais faz com que existam perguntas para as quais não encontrou respostas.
“Há uma coisa que eu ainda não sei sobre a ponte e gostava de descobrir. O que é que há por dentro destas paredes brancas? Eu sei que é muito oco, porque quando eu era pequeno gritava para dentro e aquilo fazia eco”, contou.
A ponte e a avó sempre disputaram a companhia de Bernardo. Avó e neto desfiam histórias que não se veem e agora conversam à sombra de uma ponte que mudou de nome, mas nunca de lugar. Primeiro chamou-se Ponte Salazar, depois, Ponte 25 de Abril e para Lucília deviam ser tratada por outro nome.
“Esta ponte não tem nada que ver com o estado do país. Portugal mudou e foi feita antes [do 25 de abril]. Para mim é Ponte sobre o Tejo e continua a Ponte sobre o Tejo. Há muita gente que diz, e eu também estou a dizer-vos: mas o que é que esta ponte tem a ver com o 25 de abril?”
Elisa tirou a foto que faltava à história de vida da avó
Elisa Esteban, turista
O encontro de Elisa faz-se sem marcação prévia e por mero acaso. A pronúncia brasileira denuncia as origens mas é a sessão de fotografia e vídeo (as chamadas ‘selfies’) que decorrem à beira Tejo que contam uma história que vale a pena ser partilhada. É a foto da Ponte 25 de Abril que vai viajar de Lisboa para o Brasil, quem a recebe, a avó.
A luz de Lisboa parece fazer parte do cenário. É nela que Elisa Esteban procura o enquadramento perfeito para mais uma fotografia. A câmara do telemóvel aponta para a Ponte que domina a paisagem do outro lado do Tejo.
À primeira vista, poderia ser apenas mais uma turista entre os milhares de pessoas que todos os dias registam a passagem pela capital portuguesa. Mas, neste caso, há uma história que vai muito além da fotografia.
O enquadramento é pensado ao pormenor. Elisa faz questão de ficar centrada, com a ponte 25 de Abril em pano de fundo.
“Eu vim a Portugal para resolver algumas questões de cidadania, mas a história é com a minha avó”, começou por dizer a jovem.
Depois, o tempo livre que lhe sobrou dedicou-os a descobrir alguns dos locais mais emblemáticos de Lisboa. Perguntamos-lhe o motivo da sessão fotográfica e a resposta leva-nos para o outro lado do Atlântico. “A minha avó é portuguesa e foi para o Brasil com 12 anos, depois foi o meu pai e em seguida fui eu. E então eu disse: tenho de ir lá [a Lisboa]. Cada detalhe que eu encontro tiro fotos e mando-lhe”, explicou.
E as imagens que envia representam muito mais do que recordações de viagem. São fragmentos de um país que a avó lhe deu a conhecer através das histórias que ouviu em criança.
Sobre Lisboa, Elisa reconhece que ainda conhece pouco. Sabe, contudo, que a Ponte 25 de Abril “é um dos locais mais turísticos” da cidade. Tudo o resto foi construído pelas narrativas familiares.
Agora, pela primeira vez, há uma fotografia que faltava ao álbum de memórias da avó. E Elisa acaba de transformar essas memórias em lugares reais e conhecer ao vivo esses “pedaços de cultura”.
À sua frente, o Rio Tejo parece conduzir o olhar de Elisa até à ponte. A dimensão da estrutura surpreende-a. “Eu achava que era muito menor. Procurei na internet e não encontrei muita coisa. Então ao chegar de trem eu pensei: Meu Deus, é bem grande. Espanta, dá medo”, exclamou.
Mas o receio inicial mistura-se com a vontade de a conhecer mais de perto.
O outro lado da Ponte
A subida que poucos podem fazer
Pedro Abegão, gestor operacional Ponte 25 de Abril
O primeiro passo custou mais do que os seguintes. À esquerda, o trânsito passa a poucos metros de distância. À direita, o Tejo abre-se 70 metros abaixo dos pés. O aço vibra ligeiramente à passagem dos automóveis e lembra que esta não é uma visita comum. Estamos a entrar num lugar onde quase ninguém entra: a Ponte 25 de abril.
Quem atravessa a Ponte 25 de Abril dificilmente imagina que, muito acima do tabuleiro por onde circulam cerca de 150 mil automóveis por dia, ainda se erguem 80 metros de aço até ao topo das torres, o que equivale à altura de um edifício de 25 a 27 andares.
É uma dimensão invisível para quem faz a travessia entre Lisboa e Almada, mas que ajuda a compreender a imponência daquela que, seis décadas depois da inauguração, continua a ser uma das maiores obras de engenharia construídas em Portugal.
Foi precisamente essa perspetiva que nos propusemos descobrir. Subir até ao pilar 3 da Torre Sul, a 192 metros de altitude, para conhecer a Ponte 25 de Abril por dentro.
Nesta viagem ao esqueleto metálico da ponte fomos acompanhados por Pedro Abegão, gestor operacional da Ponte, e Rita Valente, do gabinete de comunicação da Infraestruturas de Portugal (IP), empresa pública responsável pela gestão, manutenção, conservação e segurança da Ponte 25 de Abril.
Todos os dias, 30 profissionais percorrem a estrutura para garantir que tudo funciona como previsto. Entre eles estão colaboradores da Infraestruturas de Portugal (IP) e técnicos de entidades parceiras, como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e o Instituto Soldadura e Qualidade (ISQ).
Há quem passe horas a inspecionar parafusos, quem substitua lâmpadas fundidas, quem analise o estado dos cabos de aço ou verifique os inúmeros componentes que sustentam uma das infraestruturas mais complexas do país.
A exigência do trabalho começa logo no recrutamento. “Aqui é mesmo um critério de seleção quem não tem vertigens e não sofra de claustrofobia, uma vez que o interior das torres, é muito compartimentada e muito similar a um submarino”, fez questão de dizer.
A subida começa nos estaleiros de apoio da Infraestruturas de Portugal, localizados no Campus do Pragal, em Almada.
São cerca de 600 metros percorridos sobre uma passagem de serviço. À esquerda, o ruído constante dos automóveis faz vibrar a estrutura metálica. À direita, abre-se um vazio de aproximadamente 70 metros até às águas do Tejo, a altura que permite a circulação dos navios sob a ponte.
Ao fim de cerca de dez minutos, o primeiro desafio fica para trás. Entramos finalmente no interior da ponte.
A adrenalina faz-se sentir.
Os joelhos denunciam algum nervosismo, mas a curiosidade de chegar a um lugar onde poucos estão autorizados a entrar acaba por falar mais alto.
Mas a verdadeira subida ainda nem começou.
Pela frente esperam-nos vários lanços de escadas quase verticais, corredores estreitos e sucessivas plataformas metálicas.
Rita Valente, habituada a este percurso, vai deixando conselhos práticos para tornar a escalada menos exigente. “A força dos braços dá-nos firmeza na subida”, explica. “As pernas têm de ser fletidas na diagonal, caso contrário o corpo não cabe entre o vão e a escada”, acrescentou.
O interior dos pilares é revestido por estruturas metálicas pintadas a cinza. A sensação é idêntica à de caminhar dentro de um navio. Há pequenas portas que obrigam a baixar a cabeça, corredores estreitos que ligam diferentes compartimentos e novos lanços de escadas que parecem desaparecer na vertical.
E antes de alcançarmos o topo da torre, Pedro Abegão faz uma última paragem para desvendar um detalhe que poucos conhecem e torna-se um dos segredos mais bem guardados da Ponte.
No piso existem pequenos orifícios, com pouco mais de meio centímetro de diâmetro, que funcionam como respiradores da estrutura. A olho nu, apenas um ténue raio de luz atravessa o metal. Parece impossível que dali se consiga observar o exterior. “Experimente tirar uma fotografia”, disse, enquanto experimenta.
De repente, o que parecia apenas um pequeno orifício transforma-se numa janela improvável sobre a ponte.
Lá em baixo, as viaturas deslocam-se num movimento contínuo, indiferentes à presença de quem as observa a partir daquele esconderijo metálico.
“É um acesso restrito”, clarificou Pedro Abegão. “Só podem estar funcionários e outros elementos devidamente autorizados”, acrescentou.
Apesar das medidas de segurança, houve quem conseguisse introduzir-se ilegalmente na Ponte. A 19 de outubro do ano passado, a PSP deteve um homem que escalou um dos pilares da infraestrutura e colocou uma bandeira da Palestina no topo da ponte.
É também por isso que o acesso ao pilar está protegido por uma corrente e um cadeado.
O momento mais aguardado da subida está prestes a acontecer.
O cadeado é retirado.
A escotilha metálica abre-se.
Subimos os últimos degraus e, num instante, o espaço fechado e escuro do interior da torre dá lugar à luz intensa do exterior.
A vista impõe silêncio.
À nossa volta, o horizonte abre-se sobre as duas margens do Tejo.
“Conseguimos ver as duas margens, numa perspetiva de 360 graus, sem obstáculos”, disse. “E, em dias de bom tempo, conseguimos ver Sintra”, referiu.
Visto lá de cima, o tabuleiro rodoviário parece mais estreito do que realmente é. São seis vias de circulação, três em cada sentido, e ainda duas vias férreas, inauguradas a 29 de julho de 1999.
De onde nos encontramos, o vento sopra sem encontrar obstáculos e o olhar alcança dezenas de quilómetros de distância. “É um dos locais mais seguros, no caso de existir um sismo”, fez questão de explicar.
A Ponte 25 de Abril é acompanhada através de um sistema de monitorização, desenvolvido em parceria com o LNEC. Entre os equipamentos instalados encontra-se um sismógrafo. “Já tivemos dois sismos em Lisboa e o sismógrafo registou-os”, disse Pedro Abegão. “Quem estava em cima do tabuleiro rodoviário não se apercebeu que estava a acontecer um sismo, e, em termos de vibração, não houve nenhum acréscimo provocado pelo sismo”, fez questão de referir.
A explicação está na própria engenharia da infraestrutura. “É bastante elástica, e apesar de uma das fundações da Ponte estar situada em cima de uma das falhas que passa na zona de Lisboa, é uma das estruturas que em caso de sismo é um dos locais mais seguros para se estar”, acrescentou.
O vento começa a soprar com intensidade, os cabos emitem um zumbido constante e, muito abaixo, o trânsito nunca abranda.
A entrevista e recolha de imagens terminaram, chegamos à hora de regressar.
O último passo devolve-nos ao tabuleiro de serviço.
O trânsito continua exatamente igual ao de quando começámos a subida.
Os automóveis entram e saem de Lisboa sem abrandar, indiferentes ao mundo escondido que existe alguns metros acima.
Quem atravessar hoje a Ponte 25 de Abril dificilmente imaginará que, sobre a sua cabeça, existem corredores metálicos, escadas quase verticais, plataformas de manutenção e dezenas de profissionais que todos os dias percorrem uma cidade invisível feita de aço.