Antigo Bairro dos Ferreiros em recuperação para habitação social
O bairro dos Ferreiros, em Vila Real, que chegou a ser um dos mais importantes centros económicos da cidade, mas onde a actividade foi desaparecendo e a desertificação alastrou, vai ser recuperado para habitação social.
Fonte da autarquia adiantou hoje à Lusa que está prevista a aquisição, já este ano, de 10 a 12 imóveis deste bairro, localizado nas margens do rio Corg o e debaixo da ponte metálica, para serem recuperados e transformados em habitaç ão social.
Maria Georgete Paiva, com 78 anos, vive desde "muito moça" no bairro do s Ferreiros, ou bairro de Santa Margarida na designação original, e recorda a a záfama de alguns ferreiros espalhados pelas ruas íngremes daquela zona da cidade .
"Ainda andei na escola com a filha de um desses ferreiros que, mais tar de, se tornou numa das minhas melhores amigas", afirmou a idosa à Agência Lusa, lamentando que actualmente já não se veja nenhuma actividade comercial ou indust rial.
Segundo Georgete Paiva, até para ir comprar pão ou beber um café é prec iso sair do bairro.
A designação de bairro dos Ferreiros surgiu na primeira metade do sécul o XIX e corresponde à actividade profissional que ali ganhou dimensão significat iva.
Segundo o historiador Elísio Neves, os ferreiros dominavam a actividade do bairro devido a factores como a especial adequação do local para a instalaçã o de forjas e a ligação à região do Douro, cuja lavoura era um dos clientes prin cipais dos artefactos de ferro ali produzidos.
Em certas zonas do Douro ainda hoje chamam "Vila Real" ao podão, relaci onando este artefacto que serve para podar as videiras com a origem da sua confe cção.
Como profissões também ligadas ao ferro existiam no bairro, em 1808, do is espingardeiros, um ferrador, quatro serralheiros e 15 ferreiros.
"Esta hegemonia vem de longe, provavelmente deste os primórdios do bair ro, e justifica plenamente a nova designação toponímica atribuída ao bairro de S anta Margarida", considera Elísio Neves.
Mas no bairro não existiam apenas ferreiros, pois ali também se localiz avam moleiros, padeiros, forneiros, alfaiates, sapateiros, barbeiros, carpinteir os, caldeireiros e surradores (curtidor de peles). A crise instalada no Douro na década de 1840 devido ao ataque do oídio nas videiras repercutiu-se nos ferreiros de Vila Real que, de um momento para o outro, se viram sobrecarregados de dívidas, incapazes de pagar aos fornecedores o ferro e o aço.
Em 1848 verificou-se uma última tentativa de manter a actividade atravé s da associação de 16 mestres ferreiros, que acordaram produzir uma determinada quantidade anual de podões, definir o respectivo preço e criar uma comissão enca rregada de os vender.
"Mas o declínio dos ferreiros era inevitável e hoje mantém-se apenas a designação popular de bairro dos Ferreiros", explica o historiador.
O bairro desertificou-se a passos largos e as casas entraram em process o de degradação acentuado.
No âmbito da empresa municipal "VilaRealSocial", a câmara criou o Gabin ete Técnico de Habitação que tem como áreas de intervenção o centro histórico da cidade, a Vila Velha e o bairro dos Ferreiros.
O vereador Nazaré Pereira adiantou à Lusa que foi preparado um plano de intervenção no bairro dos Ferreiros prevendo, já para este ano, a aquisição de 10 a 12 imóveis, para a construção de 18 fogos a ser disponibilizados para habit ação social.
O autarca admite que este projecto venha a ter um custo de 1,5 milhões de euros.
A autarquia pretende ainda adquirir cerca de 10 imóveis por ano, nos pr óximos dois a três anos, para a sua recuperação e transformação em habitação des tinada aos mais carenciados.
"O objectivo é fixar pessoas no bairro", afirmou Nazaré Pereira, acresc entando que a autarquia vai ainda disponibilizar apoios para os actuais moradore s recuperaram as suas casas.
Também o Programa Polis para a cidade de Vila Real promoveu uma interve nção nesta zona para a "devolução do bairro ao peão" através da beneficiação e r equalificação do espaço público.
O perfil das ruas foi redesenhado, passando a existir um canal central para o automóvel com três metros de largura, sendo o restante espaço reservado a peões, devidamente dotado de mobiliário urbano.
O Polis interveio em 20.000 metros quadrados e usou como único material de revestimento o granito.
O custo total das obras, que ficaram concluídas em Março de 2005, foi de 3,1 milhões de euros.