Arguido do primeiro homicídio por encomeda confessa ser autor moral
O principal arguido do julgamento do primeiro homicídio por encomenda conhecido em Portugal confessou hoje no Tribunal do Fundão ser o autor moral do crime que vitimou, em Junho de 2003, em Cortiçada, o proprietário de um café.
Luís Maia Monteiro, de 38 anos, que se identifica como engenheiro informático, confessa ter contratado dois homens para "darem uma sova" em Fernando Justo, angolano, de 33 anos, embora garanta que não pretendia matá-lo.
O arguido é acusado de ter contratado terceiros para atacarem a vítima, que morreu vítima de dois tiros à queima-roupa junto ao estabelecimento de cafetaria de que era proprietário.
Não está ainda clarificada a forma como a vítima foi atraída para o exterior do café.
Os terceiros contratados terão sido dois brasileiros, Jérri Ribeiro Santos e Cássio Rodrigo Luís, que alegadamente terão entrado na Europa através de Itália e que, depois do homicídio, pretendiam fugir por Espanha, para o que furtaram um automóvel na Covilhã a um casal que sequestraram e agrediram.
Os dois acabaram por ser detidos no Porto pela Polícia Judiciária (PJ) da Guarda e são agora também arguidos no processo cujo julgamento começou hoje no Fundão.
Perante o colectivo de juízes, Luís Maia Monteiro negou hoje que na origem do crime estivessem motivos de ordem racial, hipótese admitida pela Polícia Judiciária por a vítima ser negra e por o arguido ser considerado próximo da extrema-direita e de ideias racistas.
Segundo a acusação, o engenheiro terá contactado Virgílio Santos, de 42 anos, guarda-nocturno residente em Chãs-Fundão, para lhe apresentar alguém que consumasse o acto, para o que prometeu pagar-lhe de mil contos (cinco mil euros).
O guarda-nocturno terá então indicado o nome de Jerri Ribeiro Santos, brasileiro que, numa ida ao Brasil, contactou outro indivíduo da mesma nacionalidade, Cássio Rodrigo Luís.
Segundo disse hoje o próprio em julgamento, Luís Maia Monteiro, com raízes familiares no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo (Guarda), teria inicialmente projectado o crime para cerca de sete meses antes, quando se encontrava ausente nos Açores, devendo pagar aos autores materiais a quantia de 15 mil euros antes da execução e mais dez mil euros depois de consumado o acto criminoso.
Para se deslocarem a Cortiçada, onde concretizariam as intenções, Jerri e Cássio terão alugado uma viatura no Porto, abandonando-a na Covilhã, onde roubaram o automóvel a um casal que sequestraram e dirigiram-se para a zona onde aconteceu o crime.
Antes passaram por Viseu, onde compraram uma arma ilegal a Virgílio dos Santos, porta-miras (ajudante de topógrafo) de profissão, também arguido.
Os brasileiros estão acusados dos crimes de homicídio qualificado, roubo e sequestro.
No depoimento, o engenheiro informático disse ter contactado Virgílio, para que os terceiros que lhe seriam indicados "dessem uma sova" a Fernando Justo.
Justificou este acto alegando que a vítima o terá ameaçado de vingança depois de o arguido ter batido a dois amigos, os irmãos Melro.
Por seu Turno, Virgílio Santos explicou ao colectivo presidido pelo juiz Ernesto Nascimento que indicou os brasileiros a Luís Maia Monteiro para que efectuassem "uma cobrança difícil", e não para matar o angolano.
Argumentou no entanto que Jerri Ribeiro Santos alvitrou que seria para "limpar logo o sebo" a Fernando Justo, à semelhança do que se fazia no Brasil, devendo o acto ser consumado em Novembro de 2002.
Quando veio dos Açores, Luís Maia Monteiro verificou que nada acontecera, pelo que se dirigiu a Virgílio Monteiro dizendo ter sido burlado pela pessoa que este lhe indicara.
Contudo, Jerri dirigiu-se a Virgílio Santos, tendo então o filho deste, Edgar Filipe Dias dos Santos, também arguido, conduzido de carro o homicida até ao café da vítima, onde este desferiu dois tiros contra Justo: um na cabeça e outro na face.
Depois, e segundo registos telefónicos da PJ, telefonou a Luís Maia dos Santos dizendo-lhe para preparar o dinheiro.
Para se porem em fuga, os brasileiros utilizaram a viatura que alugaram no Porto, dado que o automóvel que roubaram ao casal na Covilhã ficou sem gasolina, tendo sido detidos pela PJ naquela cidade nortenha.
Nas investigações então efectuadas pela PJ na quinta de Luís Maia Monteiro em Vale de Prazeres, Fundão, foram encontradas "milhares de munições e várias armas, entre elas uma caçadeira, um revólver, e duas pistolas, uma das quais terá sido utilizada no crime", segundo referiu então a PJ da Guarda.
O depoimento de Luís Maia Monteiro, que está ainda a ser interrogado pelos juízes e pelo Procurador da República do Círculo da Covilhã, foi durante a manhã marcado por várias contradições referentes ao móbil do crime e de questões de pormenor sobre o seu planeamento.
A sala de audiências do Tribunal do Fundão é pequena para acolher as várias dezenas de pessoas do público que querem assistir à sessão que decorre sob fortes medidas de segurança no interior da sala por guardas dos Serviços Prisionais e, à porta, por elementos da GNR.
O julgamento prossegue esta tarde com a audição dos arguidos, recusando-se os brasileiros a prestar declarações.