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Associação acusa GNR de obrigar ciganos a assinar declarações "ilegais"

Associação acusa GNR de obrigar ciganos a assinar declarações "ilegais"

A associação SOS Racismo acusou a GNR de "xenofobia" por, alegadamente, obrigar a comunidade cigana de Beja a assinar declarações "ilegais", responsabilizando-se por eventuais desacatos, furtos e danos durante festas, mas a guarda alega desconhecer tal prática.

Agência LUSA /

"Durante anos, a GNR tem obrigado a comunidade cigana a assinar uma declaração completamente ilegal quando esta comunidade necessita de espaços para realizar as suas festas (casamentos, baptizados, etc)", afirma a mesma organização.

Em comunicado, divulgado em vésperas do Dia Internacional para Eliminação da Discriminação Racial, o SOS Racismo revela ter tido acesso a uma dessas declarações, relativa ao posto da GNR da Salvada, localidade do concelho de Beja.

"Venho através desta declaração assumir perante o comandante do posto territorial da Guarda Nacional Republicana de Salvada toda a responsabilidade de quaisquer desacatos, alterações de ordem pública, furtos e danos que possam vir a ser provocados pelos convidados no decorrer do casamento (Ó)", pode ler-se.

No documento divulgado pelo SOS Racismo, o subscritor tem ainda de assumir "que qualquer dos convidados do referido casamento não se deslocará para os bares e cafés do interior das localidades da Salvada e Cabeça Gorda".

Em declarações à agência Lusa, José Falcão, do SOS Racismo, sustentou hoje que a organização teve conhecimento "destes exemplos concretos", mas afirma tratar-se de uma prática "generalizada em postos do distrito de Beja".

"Já não bastava a dificuldade que os elementos desta comunidade têm para encontrar espaços para as suas festas, como ainda por cima têm de se sujeitar a esta humilhação e ilegalidade", sublinha a mesma entidade.

Contactado hoje pela Lusa, Manuel Canhoto, 46 anos, habitante de etnia cigana na Salvada, garantiu que a sua família já teve de "assinar várias declarações para casamentos, que foram entregues à GNR" local.

"No casamento de um sobrinho meu, há cerca de dois anos, na Cabeça Gorda, fomos à guarda e assinámos um papel para os moços se poderem casar, dizendo que, se houvesse algum mal, nós éramos responsáveis", relatou.

O mesmo aconteceu, acrescentou o mesmo habitante, há "ano e meio" na Salvada, aquando do casamento da sua filha: "Também tive que assinar a mesma declaração".

Garantindo que, em ambos os casos, "correu tudo bem, sem problemas com a guarda", Manuel Canhoto confirmou que "em muitos lados do distrito" a comunidade cigana "tem que assinar" idêntico documento.

"Pelo que sei, quando vamos pedir ao dono da terra para nos deixar fazer o casamento, os ciganos vão aos postos da guarda para pedir autorização para a festa e garantir, por escrito, que não vão criar problemas", disse.

Uma situação que diz não compreender, embora, até agora, nunca se tenha recusado a assinar a declaração.

"Parece que os ciganos são bichos, quando afinal não fazemos mal a ninguém. Dou-me bem com a guarda e nunca tive problemas, mas vou ter outro casamento de um sobrinho, em Julho, e desta vez vou recusar assinar o papel. Só para ver o que fazemÓ", afiançou.

Contactado pela Lusa, o porta-voz da Brigada Territorial nº 3 da GNR, responsável pelo policiamento no Alentejo e Algarve, afirmou que o comando da unidade está "surpreendido" com a denúncia, desconhecendo a prática de tal procedimento, que, a existir, considerou "reprovável".

"Se foi posto em prática este procedimento foi à revelia do comando. Vamos averiguar a existência de alguma situação pontual", declarou o capitão Manuel Jorge.

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