Associações Homossexuais olham sem surpresa números do Expresso

Associações Homossexuais olham sem surpresa números do Expresso

Associações de homossexuais consideram próximo da realidade o estudo divulgado hoje pelo Expresso, que aponta para a existência de um milhão de homossexuais em Portugal, mas salientam que a maioria ainda se esconde devido ao preconceito.

Agência LUSA /

Um inquérito anónimo e confidencial sobre os hábitos sexuais dos portugueses, elaborado pela Eurosondagem e divulgado hoje pelo semanário Expresso, revela que um em cada dez (9,9 por cento) portugueses é homossexual ou bissexual, o que perfaz cerca de um milhão de portugueses.

António Serzedelo, da Opus Gay, considerou que a novidade não são os números, mas o ser um jornal a apontar uma percentagem de homossexuais e bissexuais na população portuguesa como próximo dos 10 por cento, ou seja cerca de um milhão de portugueses.

"Nas minhas declarações tenho referido existirem cinco a 10 por cento de homossexuais em Portugal porque os outros países também andam à volta disso", salienta.

Para o responsável, "a diferença de Portugal e de muitos outros países europeus nas mesmas condições é que há um milhão de homens e mulheres que são homossexuais ou bissexuais que praticam actos homossexuais, mas não praticam a identidade homossexual" porque não se assumem.

"Não se trata da assumpção pública, como no meu caso, mas que o assumam para si próprios e dentro dos patamares em que circulam, como a família, os amigos e o emprego", disse, sublinhando que Portugal é um país onde também a sexualidade heterossexual "não é transparente, quando as pessoas não assumem coisas tão simples como a suas fantasias".

Na sua perspectiva, a admissão sem restrições da homossexualidade terá vantagens, desde a "prevenção de doenças sexualmente transmissíveis - porque quem não se assume não toma precauções - até à estabilidade emocional dessas pessoas, sendo também uma forma de evitar a tendência para discursos de exclusão, "porque para que os outros não desconfiem delas têm tendência para usar expressões como `eles, os homossexuais`".

Também Sérgio Vitorino, da associação "Panteras Rosas", disse ter como referência para Portugal um número "muito perto dos 10 por cento" de homossexuais, à semelhança de dados oficiais obtidos em censos e informações fiscais de países como os EUA e a França.

No entanto, considera que esta sondagem "só permite "aproximações subjectivas", porque não avalia, por exemplo, "a população com desejos homossexuais" não assumidos.

Vitorino considera que há "um grau de homofobia muito elevado na sociedade portuguesa" e que a recusa de dois terços das pessoas convidadas a participar no estudo anónimo e confidencial em responder a estas questões "indica mais do que os que responderam".

"Estudos internacionais dizem-nos que o ódio e o preconceito mais enraizados estão relacionados com a homossexualidade recalcada, pessoas com tendências homossexuais que não querem assumir", acrescentou, atribuindo as não respostas a "vergonha e preconceito".

"Até a este nível as pessoas querem esconder a sua sexualidade. Nem a nível de cruzinha anónima definem a sua orientação sexual, porque para pôr a cruzinha teriam de reconhecer a sua sexualidade para si próprios", considerou, por seu lado, António Serzedelo.

No inquérito, 78,4 por cento recusam a adopção de crianças por casais homossexuais, o que Vitorino considera "uma questão mal colocada", porque refere que a realidade social portuguesa não é a de homossexuais a pedirem para adoptar, mas a de "muitos homossexuais com filhos biológicos de anteriores casamentos ou por combinação" com um parceiro fictício.

"Para serem coerentes com esta forma de pensar, as pessoas que são contra a adopção por homossexuais tinham de ser a favor que estes filhos fossem retirados aos pais biológicos", sublinhou.

Serzedelo refere que a questão da adopção por homossexuais não tem sido discutida na sociedade portuguesa e que por falta de informação reproduz "o discurso conservador latente".

No entanto, salienta que para a Opus Gay a luta não se esgota na adopção ou no reconhecimento do casamento, mas, entre outras medidas, na criação de "uma lei contra a exclusão e actos homofóbicos à semelhança do que acontece com a violência doméstica", alargar a figura das uniões de facto que já estão no papel e sobretudo apostar na informação das pessoas.

"É muito bom que se comece a falar destas questões, principalmente na imprensa local, de forma que existam incidências grandes na mentalidade das pessoas", concluiu Serzedelo, referindo acreditar que o estudo divulgado pelo Expresso "terá importância nos mercados do turismo gay e publicitário, contribuindo para orientar campanhas para este sector" da população.

O inquérito revela ainda que mais de metade (52,8 por cento) dos portugueses tem relações sexuais sem se preocupar com a ameaça da sida, três quartos (75 por cento) concordam com um referendo para alterar a lei da interrupção voluntária da gravidez e pelo menos uma em cada quatro mulheres (27,1 por cento) assume já ter feito um ou mais abortos, a grande maioria (81,1 por cento) destas admite que fez a interrupção voluntária da gravidez ilegalmente em Portugal.

O Expresso sublinha que "quase dois terços (63,3 por cento) das pessoas contactadas para colaborar no estudo recusaram fazê-lo", uma percentagem considerada anormalmente alta, e que "como consequência desse facto, a maior parte das entrevistas validadas são de pessoas na faixa etária entre os 15 e os 30 anos, o que não tem correspondência com a população residente no país".


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