Calçada portuguesa nas ruas da amargura por falta de mão-de-obra
A calçada portuguesa está em "péssimo estado" e, apesar de ser um ex-libris que embeleza ruas e praças de Lisboa, a sua sobrevivência é cada vez mais difícil devido à falta de mão-de-obra qualificada.
As obras na cidade e os automóveis estacionados nos passeios têm também contribuído para o mau estado da calçada portuguesa, que suscita milhares de reclamações dos lisboetas.
"O estado das calçadas é péssimo", afirmou à Agência Lusa Luísa Dornellas, responsável pela Área de Formação da Câmara Municipal de Lisboa (CML), que atribui a situação à falta de mão-de-obra e à dimensão da cidade.
Lisboa conta apenas com 27 calceteiros e os que se reformam não têm sido substituídos "É preciso fazer algo" para inverter esta situação, diz Luísa Dornellas.
A Câmara de Lisboa tem uma "Escola de Calceteiros", desde 1986, onde já foram ministrados oito cursos de formação, com um total de 112 participantes.
No entanto, são "raros" os que ficam a trabalhar na autarquia, porque são aliciados por empresas onde ganham muito mais.
Na Câmara Municipal de Lisboa, um calceteiro operário ganha entre 440 euros e 723 euros e um encarregado entre 946 euros e 1.070 euros.
"Mesmo gostando da profissão, os baixos ordenados não a tornam suficientemente apetecível", salientou a responsável, comentando:
"ninguém quer ganhar pouco para estar todo o dia vergado ao sol e à chuva".
Para Luísa Dornellas, a profissão de calceteiro é encarada como um recurso, procurada normalmente por desempregados de longa duração ou adultos sem outra alternativa.
Esta situação levou o Governo a aprovar em 2003 uma resolução sobre a calçada à portuguesa que visa, entre outras propósitos, o incentivo e a promoção da formação de todos os trabalhadores técnicos envolvidos na manutenção da calçada de vidraço à portuguesa quer no exercício da profissão de calceteiro.
Recentemente, a autarquia abriu um concurso público para recrutar calceteiros com contrato a termo, mas apenas foram admitidos oito, adiantou Luísa Dornellas, do gabinete do vereador dos Recursos Humanos, Moreira Marques.
O número de vagas não ficou preenchido devido à falta de qualificação dos concorrentes, a quem é exigido cerca de um ano de formação, alguma experiência profissional e a escolaridade obrigatória, justificou.
Antigamente, a calçada portuguesa, que faz parte do património nacional e é muito apreciada por quem visita o país, era encarada como o pavimento predominante de Lisboa, mas, por ser muito dispendiosa, já só é utilizada nalgumas zonas da cidade.
"É um pavimento de luxo e caro, mas que é preciso salvaguardar", afirmou a responsável, adiantando que nalgumas zonas novas da cidade se equaciona outros pavimentos mais baratos.
"Calcetar a via pública com um passeio que é feito pedra a pedra, não é um passeio para existir como única alternativa, mas isto não quer dizer que se comprometa a calçada portuguesa, uma imagem de marca do país", acrescentou.
Há passeios em Lisboa que são verdadeiros tapetes e que chamam a atenção de quem visita a cidade e onde qualquer "remendo" altera a estética do desenho.
A Câmara de Lisboa fiscaliza estas obras, manda emendar, mas nem sempre os empreiteiros cumprem o que lhes é pedido, adiantou Luísa Dornellas.
"Há milhares de incidentes na cidade e não se consegue dar vazão a todos os pedidos", acrescentou.
Apesar de todos estes problemas, Luísa Dornellas acredita que a calçada portuguesa vai continuar a ter procura devido ao seu valor e à estética.
A calçada portuguesa pode também ser apreciada fora de Portugal, nomeadamente em Ipanema, Brasil, em Macau e em Díli, no monumento comemorativo da independência de Timor Loro Sae.