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Cardeal Patriarca contra uso do poder "para fazer o que não é preciso"

Cardeal Patriarca contra uso do poder "para fazer o que não é preciso"

O Cardeal Patriarca de Lisboa admite que a sociedade portuguesa seja capaz de suportar “tudo”, em matéria de políticas de austeridade, mas adverte contra uma utilização indiscriminada do poder “para fazer aquilo que não é preciso ser feito”. O aviso foi deixado ontem à noite. Em entrevista à RTP, D. José Policarpo revelou que tem sido consultado por governantes, manifestou o receio de um colapso da União Europeia e deu como improvável a sua nomeação para Sumo Pontífice da Igreja Católica. “Resigno a seguir”, ironizou.

RTP /
“Resigno a seguir”, afirmou D. José Policarpo, questionado sobre uma eventual nomeação para o trono de Pedro Lusa

Em dias de crise económica e social, estima D. José Policarpo, a Igreja Católica “tem de estar presente” e “atenta a quem sofre”, com “amor, verdade e fé”. É com base nesta perspetiva que o Cardeal Patriarca de Lisboa alerta para a necessidade de prudência na governação do país.

“A sociedade aguenta tudo. A História mostra isso. Aquilo que esperamos é que as linhas de conduta sejam prudentes, realistas mas prudentes. Ou seja, que não se use o poder para, porventura, fazer aquilo que não é preciso ser feito”, sustentou o prelado português, entrevistado em exclusivo pela jornalista Fátima Campos Ferreira.

No edifício político, sublinhou o Cardeal Patriarca, “há gente que está calada”. Por outro lado, afirmou, não haverá “sentido de bem comum” se os portugueses não forem “corresponsáveis” nas respetivas comunidades.

D. José Policarpo revelou que tem desempenhado um papel ativo na esfera política. Na forma de um “diálogo pessoal”: “Não é bom metermo-nos na questão política em si mesma. Podemos fazê-lo em diálogo pessoal, é um exercício. Os políticos procuram-me. Aliás, desde sempre. Não é só deste Governo. Temos falado”.
“Resigno a seguir”
D. José Policarpo mostrou-se também preocupado com um eventual colapso do projeto europeu. Um cenário, defendeu, que deveria levar os responsáveis políticos da União Europeia a envolverem a Igreja Católica na resposta à crise.
Na entrevista à estação pública, o Cardeal Patriarca de Lisboa mostrou-se convencido de que a crise europeia “está para durar”.

D. José Policarpo defendeu mesmo uma “revolução cultural” à escala do Velho Continente, considerando que “a cultura tem na base a compreensão humana”.


“Se o Parlamento Europeu chumbar o orçamento [comunitário], volta tudo para trás. Porque quem paga não vai pagar mais e pode inclusivamente ser o gérmen do fim da União. A revolução cultural de recuperar os grandes princípios de uma sabedoria europeia, que tem matriz cristã, não pensem que vão conseguir isso mandando a Igreja para a sacristia”, vincou.

No capítulo eclesiástico, o Cardeal Patriarca reconheceu, sem detalhar, que a Igreja de Roma “foi sofrendo um desgaste” causado por “coisas muito graves e tristes”. Para contrapor que não há apenas “pecados e fraquezas” no mundo católico. Há também “uma força silenciosa, a de muitos milhões de cristãos que procuram ser fiéis”.

Relativamente ao tema do sacerdócio das mulheres, D. José Policarpo entende que não se trata de uma prioridade: “João Paulo II aparentemente fechou a porta durante um tempo. É uma porta que pode ser reaberta, mas pode ser reaberta com muita prudência e com muito cuidado”.

O sacerdócio feminino, argumentou, “só é uma prioridade para as mulheres que não percebem a Igreja por dentro. A mulher é uma força enorme na Igreja. E as mulheres que estão mais autenticamente empenhadas na vida cristã não têm essas reivindicações”.

Questionado sobre a sucessão do Papa Bento XVI, D. José Policarpo, que chegou a ser dado como papabile após a morte de João Paulo II, falou da necessidade de uma reforma da Cúria. Uma responsabilidade que descartou poder assumir na sequência do próximo conclave. “Eu resigno logo a seguir”, afirmou a sorrir.

“Enfim, às vezes o Espírito Santo prega-me partidas, mas essa, espero que não ma pregue”, concluiu.
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