Cultura
Carla Chambel: "Temos de apaixonar o público pelo cinema português"
Atriz, professora e agora presidente da Academia Portuguesa de Cinema, Carla Chambel assumiu em 2026 a liderança da instituição. Defende uma academia mais próxima dos profissionais e do público, pede melhores condições para o cinema português e acredita que a diversidade de histórias e linguagens pode reconquistar espectadores.
Carla Chambel chegou à presidência depois de vários anos como vice-presidente, cargo que ocupava desde 2014. O primeiro grande projeto que abraçou foi o Young Audience Award, iniciativa da European Film Academy dedicada à literacia cinematográfica junto dos jovens.
“Essa experiência permitiu-me perceber o funcionamento da Academia, as necessidades do setor e aquilo que ainda havia para construir”, explica. Nos últimos anos trabalhou de perto com o antigo presidente, Paulo Trancoso, acompanhando reuniões e decisões estratégicas.
A nova função revelou-se mais exigente do que imaginava. “É uma presença diária, quase horária”, admite. Com uma estrutura reduzida, a presidente diz que o desafio passa também por reforçar equipas e criar maior ligação entre a Academia e os membros.
Ao seu lado está o novo vice-presidente, Frederico Corado, que descreve como “uma alma nova para a Academia”. A renovação da direção é, para Carla Chambel, essencial numa instituição que tem apenas 15 anos e “ainda muito para aprender e melhorar”.
Uma das prioridades deste mandato é precisamente aproximar os profissionais da instituição. “As pessoas só se sentem à vontade se se reconhecerem na Academia”, afirma. Melhorar a comunicação e reforçar o sentimento de pertença são objetivos centrais da nova liderança.
Para Carla Chambel, a existência de uma academia de cinema é fundamental porque reúne os vários setores da indústria e garante representatividade institucional.
Os Prémios Sophia continuam a ser o principal cartão-de-visita da Academia, distinguindo anualmente o melhor do cinema português. Mas o trabalho vai além da cerimónia: a instituição, também, representa Portugal em prémios internacionais como os Academy Awards e os Prémios Goya.
Além disso, a Academia desenvolve projetos dedicados à formação e renovação da indústria. O Sophia Estudante aproxima escolas de cinema e profissionais, enquanto os prémios Nico distinguem talentos emergentes. Já o Prémio Bárbara Virgínia homenageia mulheres do cinema português em diferentes áreas.
“As atrizes são a face mais visível, mas o cinema é feito por mulheres em todas as áreas”, sublinha.
A presidente reconhece que o cinema português continua marcado por desigualdades de género, sobretudo nos cargos historicamente associados à realização, escrita ou direção de fotografia.
Apesar disso, acredita que o panorama está a mudar. Como exemplo, aponta as nomeações deste ano para Melhor Realização nos Sophia: três mulheres e um homem.
“Isso significa que os próprios membros já reconhecem o lugar das mulheres na realização.”
“Com pouco fazemos muito”
Sobre o estado do cinema nacional, Carla Chambel considera que os realizadores portugueses estão cada vez mais focados em histórias identitárias e próximas da realidade portuguesa. O principal obstáculo continua a ser o financiamento.
“É sempre muito difícil pensar em grandes produções sem meios”, admite, dando como exemplo filmes históricos de grande escala.
Ainda assim, destaca a criatividade dos cineastas portugueses. Refere o trabalho de João Botelho em Os Maias ou Miguel Gomes em Grand Tour como exemplos de como “com pouco se faz muito”.
Mas deixa um alerta: “Não podemos usar essa capacidade de improviso para justificar a falta de financiamento.”
A presidente acredita que o cinema português ainda sofre com o preconceito de ser “difícil” ou “aborrecido”, apesar do sucesso que filmes como "Variações" ou "A Herdade" tiveram antes da pandemia.
Para Carla Chambel, a entrada de novos realizadores com percursos vindos da publicidade, da televisão ou da representação trouxe novas linguagens e ajudou a aproximar o público.
Cita nomes como Tiago Guedes, Marco Martins, Gonçalo Waddington, Ana Rocha de Sousa e Diogo Morgado.
“O público ainda tem medo de arriscar uma má experiência”, diz. Por isso, defende maior diversidade de géneros e mais apoio institucional para filmes familiares ou comédias.
Também, considera essencial melhorar a permanência dos filmes portugueses nas salas e em horários acessíveis. Muitas obras desaparecem rapidamente da programação, dificultando o tradicional “passa-palavra”.
A Academia está agora a desenvolver projetos de curadoria com municípios para incentivar a programação regular de cinema português, incluindo uma parceria com o Coliseu Micaelense. O projeto-piloto arrancou nos Açores, mas a intenção é alargar a outras câmaras. A idiea é facilitar o acesso das autarquias a filmes nacionais e apoiar quem programa culturalmente estes espaços, ajudando, também, a prolongar a vida dos filmes portugueses junto do público. “Se houver uma curadoria previamente feita, isso pode ajudar as câmaras a investirem mais em cinema português”, defende Carla Chambel.
Carla Chambel defende uma maior cultura cinematográfica nas escolas e reconhece que ainda existem poucos filmes portugueses dirigidos a crianças e adolescentes.
“Também só podemos cultivar esses jovens se houver filmes pensados para eles”, afirma.