Carvalhas, doze anos de liderança marcada pela moderação -Perfil
Carlos Carvalhas abandona o cargo de secretário-geral do PCP depois de doze anos de uma liderança marcada pela moderação de posições, em que tentou fazer a ponte entre "ortodoxos" e "renovadores" sem a "descaracterização" do partido.
Carlos Alberto do Vale Gomes Carvalhas nasceu em 1942 em São Pedro do Sul, Viseu. Aderiu ao PCP em 1969, tendo participado no movimento estudantil e nas campanhas eleitorais de 1965, 1969 e 1973.
Foi fundador do Conselho para a Paz e a Cooperação e colaborou com o movimento sindical entre 1969 e 1974.
Após o 25 de Abril de 1974, Carlos Carvalhas foi secretário de Estado do Trabalho em cinco governos provisórios, tendo sido vice- presidente do Conselho Nacional do Plano.
Foi eleito deputado ao Parlamento Europeu em 1984. Foi eleito para o Comité Central, como membro suplente, no o VIII congresso, em 1976, e no IX congresso em 1979 e membro efectivo desde o X congresso.
Economista de profissão, foi candidato à Presidência da República em 1990 (quando já ocupava o cargo de secretário-geral adjunto e se encontrava na linha de sucessão a Cunhal), obtendo cerca de 12 por cento dos votos, um resultado que foi considerado muito positivo.
Defensor da renovação sem "descaracterização" do PCP, Carvalhas teve uma liderança discreta, prudente, de diálogo e abertura, mas sem fugir à linha oficial do partido.
Recusou defender a ruptura com o marxismo-leninismo, reclamada pelos renovadores, que o acusam de ter cedido a pressões da linha "ortodoxa" do PCP.
No período mais crítico das divergências internas entre os "renovadores" e "ortodoxos", que culminou na expulsão de Edgar Correia de Carlos Luís Figueira e na suspensão de Carlos Brito, em 2002, Carvalhas assumiu uma posição moderada, apelando sempre à união do PCP.
"Se entende por renovação uma descaracterização do PCP, engana- se. Nós continuamos a ser comunistas... Mas continuamos a lutar pela renovação e a actuar nesse sentido", afirmava já em 1991 Carvalhas, numa entrevista ao Independente.
A 04 de Dezembro de 1992, Carvalhas sucedia, num Congresso realizado em Almada, a Cunhal, que esteve décadas na liderança do partido.
Assumida a difícil tarefa de substituir um líder carismático, o novo dirigente do PCP passou os primeiros meses a explicar aos jornalistas que era um secretário-geral em "plenas funções", que cada secretário-geral tem a sua personalidade e que tinha "competências" diferentes do seu camarada Álvaro Cunhal, então presidente do Conselho Nacional, um cargo criado à medida do veterano líder comunista.