Carvalho da Silva diz que tentativa de conotar a central politicamente só serve para desvalorizar o trabalho
Lisboa, 08 Fev (Lusa) - O secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, rejeita conotar politicamente a central sindical e considera que as acusações que lhe são feitas de radicalismo são uma forma de desvalorizar e desacreditar as lutas dos trabalhadores.
"A tentativa de dar uma imagem de radicalização às lutas dos trabalhadores, para as desacreditar, é um caminho que o neoliberalismo pratica em grande parte do mundo, mas que em Portugal tem mais força", devido ao défice de cultura democrática, disse Carvalho da Silva, em entrevista à agência Lusa.
Questionado sobre se a conotação política que a central tem, nomeadamente com o Partido Comunista Português, pode influenciar a acção da CGTP, Carvalho da Silva disse que em Portugal "tenta-se fazer crer à sociedade que os trabalhadores e os sindicatos estão em posição radical".
"Vamos ter sistematicamente os nossos inimigos a dizerem que há radicalização e a fazerem a instrumentalização de situações pontuais desviantes, para dar a ideia que toda a acção do colectivo é desviante", sublinhou.
Além "desta guerra", Carvalho da Silva apontou ainda a exploração do anti-comunismo na sociedade portuguesa.
"Qualquer sindicalista que se empenhe, qualquer trabalhador que reivindique os seus direitos com força, independentemente da sua filiação partidária, arrisca-se a ser catalogado de comunista", sustentou o dirigente sindical.
Carvalho da Silva considera que o que é necessário, no plano político, é que haja respeito pelos direitos dos sindicatos e que as forças políticas ponham a questão do trabalho nas suas agendas.
O líder da CGTP, que deverá ser eleito no Congresso da próxima semana para mais um mandato à frente da central sindical, salientou que a CGTP "é a força social mais representativa da sociedade portuguesa, e que, apesar de todas as contradições e limitações, vai dando sinais de que é mobilizadora de dinâmicas sociais".
Duas manifestações - uma em Março com 150 mil participantes e outra em Outubro com 200 mil participantes - e uma greve geral são alguns dos exemplos que mostram que a CGTP "é uma força muito significativa", diz.
"Secundarizá-la [a CGTP] é um erro na sociedade portuguesa", frisou Carvalho da Silva.
Questionado sobre as interferências políticas na CGTP, o secretário-geral da CGTP respondeu que a autonomia sindical adquire-se em três planos: na relação trabalhador/empregador, no plano político e na construção do projecto sindical.
No que se refere à relação trabalhador/empregador, Carvalho da Silva refere-se à liberdade de organização dos trabalhadores, nos sectores público e privado.
No plano político, o dirigente sindical defende que os direitos dos sindicatos sejam efectivos e não considerados benesses, criticando que o primeiro-ministro, José Sócrates, considere que os sindicatos são importantes, ou não, conforme entende se o seu pronunciamento é favorável ou desfavorável às políticas seguidas pelo Governo.
Carvalho da Silva preconizou que o projecto sindical deve ser uma construção de todos e com a participação de todos, independentemente de qual seja a corrente política.
Outra condição é a autonomia financeira.
Confrontado com a opinião expressa por Mário Soares num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias, de que o Partido Comunista queria transformar Carvalho da Silva num "robot" ao seu serviço, o dirigente da CGTP foi claro: "Não comento os comentário do Dr. Mário Soares nem do PCP".
O XI Congresso da CGTP realiza-se a 15 e 16 de Fevereiro, no Centro de Congressos de Lisboa.
TSM/RRA.
Lusa/Fim