Circular em Lisboa pode ser uma aventura perigosa
"Zebras" para peões encobertas por curvas ou já quase sem tinta, sinais de trânsito descoloridos, longas avenidas com poucas passadeiras. Estas são algumas ratoeiras da capital que transformam a vida de peões e automobilistas num inferno.
Os taxistas criticam, os peões queixam-se, a associação de auto-mobilizados faz propostas, a câmara diz que tem uma "empreitada permanente" para resolver estas situações numa cidade onde no ano passado morreram atropelados 22 peões.
A agência Lusa viajou "à boleia" de um taxista por algumas das principais ruas da capital e encontrou passagens para peões e sinais horizontais (pintados na estrada) muito gastos devido à contínua passagem de carros e dos gases dos veículos.
Ao volante de um táxi há 12 anos, Pedro Lopes queixa-se do mau estado da sinalização horizontal em Lisboa, alertando para algumas "ratoeiras" como é o caso do cruzamento da Rua Sol ao Rato com a Rua de Campo de Ourique, onde existe uma passadeira "escondida" logo a seguir a uma curva.
Os sustos são mais que muitos e várias vezes alguns peões já foram confrontados com carros cujos condutores desconheciam ser aquela uma zona de passagem para peões.
Não muito longe, na Rua Dom João V, Maria João, 52 anos, foi atropelada há quatro anos quando atravessava uma passadeira.
"Ainda hoje tenho medo de lá passar", contou à Lusa, adiantando que "os condutores às vezes não param por falta de civismo, mas também porque não se apercebem que está ali uma passadeira".
O taxista Pedro Lopes não aponta só a má localização das passadeiras, também assinala que os próprios peões "são muito pouco respeitadores" destas zonas.
"As pessoas têm as passadeiras, mas preferem andar no meio da rua e, muitas vezes, atravessá-la na diagonal, pondo em perigo a vida delas e dos automobilistas", comentou.
No entanto, admitiu, há avenidas como a 24 de Julho, a de Ceuta e a Alameda Infante D. Henrique em que os peões não têm alternativa e são obrigados a atravessar a estrada.
"Há vias com cerca de 200 metros que chegam a ter quatro ou cinco passadeiras e outras com vários quilómetros que apenas têm uma.
Ninguém está para percorrer essa distância e atravessam à maluca", sustentou.
Pedro Lopes citou também o exemplo na Avenida D. Carlos I: "a malta que sai dos bares à noite anda a alta velocidade naquela via e nem vê as passadeiras, nem vê nada".
Para o taxista, a avenida mais perigosa de Lisboa é a 24 de Julho: "só há uma passagem aérea junto ao Hospital da CUF e mesmo assim as pessoas preferem atravessar por baixo da estrutura".
"Quem vem dos bares e quer passar para o lado das Docas, tem de atravessar a linha de comboio porque não tem alternativas", acrescentou.
As críticas deste profissional estendem-se ao mau estado das passagens para peões. Enquanto conduz, Pedro Lopes dá vários exemplos, como a Calçada da Estrela e algumas ruas da Baixa de Lisboa, onde as cores das "zebras" há muito que estão gastas.
"As passadeiras estão quase invisíveis na ruas de São Julião, dos Fanqueiros e do Comércio, que são vias onde passa imensa gente. É perigosíssimo", referiu, sublinhando que tem "atenção redobrada nestes locais".
O taxista questionou-se durante todo o percurso por que é que em locais como no início da Rua D. Estefânia, em frente ao hospital, e na Rua Gonçalves Crespo, perto da Clínica de Todos-os-Santos, as zebras "mal se vêem".
O mesmo acontece no Largo dos Lóios, Rua de Santiago, Travessa do Almada, Rua da Madalena (frente ao Largo do Caldas), na Rua Gomes Freire, no Príncipe Real e em Benfica, junto ao metro do Colégio Militar.
Há outros casos em que as passadeiras apenas estão pintadas junto aos passeios, nos sítios onde as rodas dos veículos não passam.
Na Praça do Comércio, além de estarem sumidas, as passadeiras têm alguns buracos. A propósito, o taxista contou à Lusa uma situação a que assistiu: "uma senhora ia a correr com sapatos altos, que se prenderam num buraco e vai ela, aflita, continuou a correr descalça".
Mas, segundo o taxista, o mau estado estende-se à sinalização horizontal que "está deficiente em toda a Lisboa": "Só pintam quando fazem uma nova via", lamentou Pedro Lopes.
Estas críticas são refutadas pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carmona Rodrigues, que garante que a autarquia tem uma "empreitada permanente" para melhorar as condições de circulação dos peões e dos automobilistas, que passa pela pintura da sinalização horizontal.
No entanto, o autarca admite que é uma situação difícil de solucionar: "A cidade tem milhares de quilómetros de sinalização horizontal que requerem uma actuação permanente".
Carmona Rodrigues disse à Lusa que "a autarquia tem vindo a fazer a reparação das passagens de peões e da marcação de vias de trânsito na faixa de rodagem das zonas da periferia para o centro da cidade", admitindo que "há situações gritantes" neste aspecto.
Segundo o autarca, há outras situações em que a tinta das passadeiras está lá, mas não se vê devido à sujidade da combustão dos veículos.
Nesses casos, a autarquia procede à lavagem das passadeiras com um jacto de água que reaviva a cor, explicou Carmona Rodrigues, frisando que a prioridade são as passadeiras nas zonas envolventes das escolas.
Contactado pela Lusa, o presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M), Manuel João Ramos, atribuiu o mau estado das marcações na via à "tinta de muito má qualidade que foi utilizada no anterior Executivo autárquico e que saiu imediatamente".
Para o responsável, uma sinalização horizontal bem pintada pode reduzir drasticamente o número de acidentes e atropelamentos, mas tem de ser acompanhada de medidas de acalmia de tráfego como lombas e curvas artificiais para reduzir a velocidade.
"Eu tenho a certeza que o mesmo taxista que matou a menina na Avenida de Ceuta, pára em todas as passadeiras na Avenida de Roma porque elas lá estão bem visíveis", argumentou Manuel João Ramos, para quem a autarquia "é a responsável moral por um ambiente de agressão na cidade".
O presidente da ACA-M salientou que Lisboa foi a única cidade do país que teve um aumento do número de atropelamentos graves, atribuindo essa situação à política de investir no fluidez de trânsito, em vez de dar prioridade aos peões.
Segundo dados da autarquia, no ano passado morreram 22 pessoas atropeladas na cidade. As vias onde se registam mais acidente com peões são as avenidas de 24 de Julho, Infante D. Henrique, República, Almirante Reis, Ceuta, Liberdade, Fontes Pereira de Melo, bem como o Campo Grande e a Estrada de Benfica.
A sinistralidade de peões em Portugal é mais do dobro da média na União Europeia, representando um quinto dos mortos em acidentes de viação, na maioria crianças e pessoas idosas, segundo o Programa Programa Nacional de Prevenção e Controlo dos Acidentes/Lesões Involuntárias (PNPCA/LI).