Comerciantes lamentam a falta do "charme" de antigamente

Comerciantes lamentam a falta do "charme" de antigamente

Lisboa, 25 Ago (Lusa) - Ardeu há 20 anos, foi reconstruído por um dos arquitectos portugueses mais prestigiados mas nem por isso manteve o charme de antigamente, pelo menos na opinião de alguns comerciantes do Chiado antes e pós incêndio de 25 de Agosto de 1988.

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Para António Lemos, da Casa Pereira, e José Manuel Gomes, da Sapataria Hélio, o projecto de reconstrução do Chiado, da responsabilidade do arquitecto Siza Vieira, recuperou a zona mas o espaço perdeu o "charme" de antigamente.

António Lemos e João Manuel Gomes são dos poucos comerciantes da zona que se recordam do dia exacto do incêndio que destruiu o Chiado e têm presente as memórias anteriores à tragédia.

O Chiado antigo - "que era lindo" - foi consumido pelas chamas e um novo, de serviços e lojas de marca, nasceu das cinzas, com novas caras e novos donos.

António Lemos, funcionário da Casa Pereira, é dos poucos que recorda o dia do fogo como o "dia da tragédia". O comerciante chegou à Casa Pereira às 06:30 da manhã, quando as chamas já ameaçavam habitações e comércio.

"Era um pandemónio, só se viam chamas. Felizmente que o pior, que se chegou a temer, não aconteceu", recorda, ao mesmo tempo que lamenta o facto de tudo ter mudado "para pior".

E se no final dos anos 80 o Chiado já não era o mesmo de há uns tempos atrás, "tudo piorou" desde o incêndio. Para António Lemos, a zona "perdeu habitantes, perdeu vida e perdeu `glamour`".

E apesar de ter ganho em construções reconstruídas, a dificuldade em parquear carros é, segundo António Lemos, o "grande problema" que o Chiado "nunca" vai conseguir ultrapassar.

"Quem é que vai comprar casa aqui se custam uma fortuna e não há onde arrumar os carros à noite?", questiona.

João Manuel Gomes, empregado da sapataria Hélio é outro dos que recorda o incêndio de 25 de Agosto de 1988.

Empregado da extinta sapataria Cinderela, ao 33 da Rua do Carmo - uma das sapatarias da Hélio - pouco passava das 07:30 quando João Gomes chegou ao Chiado.

"Quando cheguei já não conseguia passar e, três horas depois, já só se viam chamas enquanto uma nuvem de fumo tapava Lisboa", refere.

Apesar da mudança operada no Chiado com o projecto de reconstrução de Siza Vieira, João Gomes não vê que melhorias tenha trazido para a zona.

"O Chiado devia ter ficado reservado para as grandes lojas que estão na Avenida da Liberdade. Isso sim, seria devolver a vida e o charme ao Chiado de antigamente", sustenta.

"O melhor centro comercial de Lisboa era o Chiado, mas acabaram com ele", remata.

Das lojas que resistem na Rua do Carmo e na Rua Garrett pós incêndio contam-se a sapataria Hélio, a Casa da Sorte, a Picadilly, a Livraria Lello e a Portugal, a Luvaria Ulisses, a Casa Pereira, a sapataria Hélio e pouco mais.

De resto são lojas novas, de novas marcas que povoam o Chiado pós 25 de Agosto de 1988. Tal como as pessoas, na sua maioria estrangeiros que desconhecem que aquela zona foi devastada por um incêndio há 20 anos.

Madalena Gonçalves, que hoje cumpre 24 anos, não tem qualquer memória do incêndio, que há 20 anos consumiu uma das zonas consideradas das mais belas de Lisboa.

Do fogo só recorda o que ouve falar em família. Talvez por isso discorde de que o Chiado está mau, porque para si "o Chiado é a zona de Lisboa mais bonita para passear e namorar".

PUB