Crise na alimentação. Há cada vez mais pessoas a precisar de ajuda para comer

Crise na alimentação. Há cada vez mais pessoas a precisar de ajuda para comer

Os 21 Bancos Alimentares do país têm registado, nos últimos meses, um aumento dos pedidos de apoio. A subida do preço dos combustíveis - que faz crescer, também, o preço dos alimentos - e o peso do custo da habitação, estão a pressionar os orçamentos familiares. Por causa disso, há cada vez mais gente a precisar de ajuda para comer.

Oriana Barcelos - RTP Antena 1 /
Foto: José Dias - RTP

No Banco Alimentar Contra a Fome, em Lisboa, há azáfama diária. Daqui saem, todos os dias, 40 toneladas de comida - alimentos que as instituições parceiras distribuem, depois, por quem precisa. Há de quase tudo para fazer uma refeição completa. Hoje há até pastéis de nata.
Oriana Barcelos - RTP Antena 1

Em todo o país, há bancos que fazem um trabalho semelhante. Ao todo, de norte a sul e nas ilhas, eles apoiam 380 mil pessoas, com mais de 100 toneladas de comida, diariamente. O valor tem permanecido estável, sobretudo desde a pandemia de covid-19, mas este ano, nos últimos meses, tem sido claro um aumento dos pedidos.

Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, regista esse acréscimo, motivado pela subida dos preços dos combustíveis e da energia - que fazem crescer, também, os preços dos alimentos. São nuances que atingem as famílias mais vulneráveis e é por isso que o Banco Alimentar sente a responsabilidade de acudir a quem precisa. "É fundamental que nós possamos dar resposta quando há mais pedidos, como nesta altura, pedidos de famílias que têm os orçamentos completamente esticados e para quem o peso da habitação representa uma parcela muito grande, demasiado grande, e que não têm qualquer folga", explica Isabel Jonet.

Os pedidos chegam também à DECO. Natália Nunes, do gabinete de proteção financeira da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, faz o retrato aos rendimentos de quem pede ajuda: a média está nos 1300 euros, mas há quem ganhe ainda menos. Para esses é mais difícil lidar com os aumentos no supermercado. "Com esta subida, as famílias acabam por estar - estas dos baixos rendimentos - num verdadeiro sufoco. Já temos famílias a darem-nos o testemunho de que têm de fazer opções na compra dos alimentos", sublinha. Por causa disso, a DECO encaminha muitos desses casos para a rede social de apoio.
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Em Belas, no município de Sintra, está uma das instituições que ajudam quem está em apuros. Todos os meses, o Centro Social da Sagrada Família chega, com alimentos, a mais de 30 famílias. É uma ajuda essencial para pessoas como Isabel Cabaços e Anabela Lucas, a braços com rendimentos baixos e contas de supermercado cada vez mais altas. "O que nós [comprávamos] antes com 50 euros agora tenho de ir com 80. E não comemos aquilo que gostaríamos de comer", explica Isabel Cabaços.
Oriana Barcelos - RTP Antena 1


Nícia LãBranca, diretora técnica do centro, e Orlando Reguinga, coordenador da equipa que acompanha as famílias beneficiárias do Rendimento Social de Inserção não têm mãos a medir, não têm tempo sequer para celebrar a autonomização dos utentes, quando eles deixam de precisar de ajuda: logo depois há uma nova urgência a que é preciso acudir. Sobretudo em tempos de crise. "Nós notamos muito sobretudo quando há crises, quando falamos em guerra, quando falamos na pandemia. A crise em 2014 também foi muito acentuada e, sempre que há esses ciclos, acabam por ter uma influência direta na capacidade destas famílias - que são as mais vulneráveis - em conseguirem fazer face aos aumentos significativos", explicou Orlando Reguinga.

Para os cabazes, contribuem as empresas do concelho e, também, o Banco Alimentar, que vai ter uma campanha de recolha nacional nos dias 30 e 31 de maio, consciente de que, no atual contexto, os donativos podem diminuir. "Eu digo sempre que as campanhas têm o resultado melhor que pode acontecer naquela altura e tenho a certeza de que no último fim de semana de maio, uma vez mais os portugueses vão manifestar a sua solidariedade seja através de voluntariado, dando o seu tempo, à porta do supermercado ou no armazém, ou doando alimento. Não é preciso doar muitos alimentos, é preciso dar um alimento para não faltar a uma família", conclui Isabel Jonet.
Ana Gonçalves - RTP Antena 1
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