Descriminalizar "terapias de conversão" põe em risco apoio a pessoas LGBTI, alerta APAV

Descriminalizar "terapias de conversão" põe em risco apoio a pessoas LGBTI, alerta APAV

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) alertou hoje que a eventual descriminalização das chamadas terapias de conversão poderá colocar em risco o apoio a pessoas LGBTI, além de passar uma mensagem de serem práticas aceitáveis ou recomendáveis.

Lusa /
Foto: Tim Bieler - Unsplash

As terapias de conversão são crime em Portugal desde 2024, mas uma petição entregue recentemente na Assembleia da República, com cerca de 17 mil assinaturas, pede a revogação desse enquadramento legal e o "fim da ideologia de género nas instituições".

Em declarações à Lusa, uma psicóloga da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima alertou para as eventuais consequências que uma alteração legislativa pode vir a ter, colocando em causa medidas e estruturas de apoio criadas ao longo dos últimos anos.

"Tudo aquilo que se está a pretender alterar na legislação, metido debaixo deste chapéu de proibir a ideologia de género, acaba por retirar uma série de medidas que permitem proteger pessoas, incluindo crianças e jovens", afirmou.

Joana Menezes explicou que foram sendo criadas respostas especializadas, com profissionais preparados para acolher e acompanhar pessoas LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo) em contexto de vulnerabilidade, garantindo "um desenvolvimento saudável" independentemente da orientação sexual ou identidade de género.

"Essas estruturas e estratégias de apoio passam necessariamente a estar em risco", advertiu.

Sobre as chamadas "terapias de conversão", a APAV não recebeu qualquer denuncia ou pedido de ajuda até ao momento, mas a associação sublinha que tal não significa que essas práticas tenham deixado de acontecer.

"As pessoas nem sempre sabem aquilo que é crime ou aquilo que podem denunciar", disse, temendo que ainda possam acontecer em contextos familiares ou religiosos, envolvendo líderes espirituais, conselheiros ou outras figuras próximas das vítimas.

À APAV chegam muitos dos casos enquadrados como violência doméstica ou intrafamiliar motivada pela rejeição da orientação sexual ou identidade de género da vítima.

"Existem pessoas a sofrer, no contexto da família, alvo de violência e agressões psicológicas, físicas e de outras formas, a serem impedidas de ter autonomia, de ter relações sociais, de trabalhar, de estudar, devido à sua orientação sexual, à sua identidade ou expressão de género, e muitas vezes, com o objetivo de que deixem de ser assim", disse.

Há jovens que são expulsos de casa ou forçados a abandonar o agregado familiar por se encontrarem em situação de risco, contou a psicóloga, admitindo que "daí até as pessoas pensarem que uma solução pode ser submeter alguém a uma terapia que o `cure` é um passo curto".

Para Joana Menezes, uma eventual descriminalização transmitiria uma mensagem de normalização destas práticas, de algo "aceitável e até recomendável".

Sobre o apoio dado pela APAV a quem recorre à associação, explicou que no caso de menores a intervenção pode implicar a atuação das autoridades policiais, tribunais de família e menores e eventual retirada da criança do contexto familiar, ao abrigo da Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo.

Já no caso de adultos, o apoio centra-se no acompanhamento psicológico, jurídico e na procura de alternativas de autonomização quando existe violência no seio familiar.

Em 17 de maio assinala-se o Dia Internacional Contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia.

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