Directas, uma década de discussão
A discussão sobre a eleição directa do líder social-democrata arrasta-se desde 1996, num debate em que Pedro Santana Lopes e os `santanistas` assumiram sempre o papel de protagonistas.
"Eleições por sufrágio universal, directo e secreto" para todos os órgãos do partido, foi a proposta apresentada pelo "santanista" Rui Gomes da Silva em 1996, no XIX Congresso do PSD, realizado no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Uma proposta que corria apenas contra a apresentada pela direcção do partido, então liderado por Marcelo Rebelo de Sousa, que ainda antes do congresso deixou o aviso: ou a sua proposta era aprovada ou então ia-se embora.
Proposta que, ao contrário da apresentada por Rui Gomes da Silva, apenas previa eleições directas para as distritais.
"No congresso esclarecerei que a votação da minha proposta de revisão de estatutos e a não-votação da proposta que se lhe opõe são fundamentais para a minha liderança. Ou seja, se isso não ocorrer quer dizer que o partido quer escolher um novo líder", disse Marcelo a um mês do congresso.
"às vezes vale mais perder o líder e ganhar o partido do que ganhar o líder e perder o partido", disse, já durante o congresso, Rui Gomes da Silva, que chegou a classificar como "pouco democráticas" as ameaças de Marcelo Rebelo de Sousa.
Contudo, Rui Gomes da Sousa, acabou por recuar, retirando a sua proposta de alteração de estatutos ainda durante a primeira noite do congresso com a justificação de que não estava "interessado que o líder deixasse de o ser".
Uma decisão que contou com o apoio de Santana Lopes. "É que se ele ganhasse, o líder caía e havia um crise na pátria, no país, em todo o lado", disse na altura.
Quatro anos depois, em Viseu, as "directas" voltaram à discussão, mais uma vez com Rui Gomes da Silva a dar a cara pela proposta de alteração de estatutos, que teve Pedro Santana Lopes como um dos seus mais entusiastas defensores.
"A onda de apoio às directas já varre o país todo e é, por isso, que alguns militantes estão inquietos e incomodados", disse Santana Lopes nas vésperas do congresso de Viseu, onde disputou pela primeira vez a liderança do partido.
Como principal adversário a esta alteração surgia o então líder social-democrata, José Manuel Durão Barroso, que argumentava que os estatutos do PSD não deveriam ser alterados por "capricho" de um militante.
Marques Mendes, também na "corrida" à liderança do PSD, era igualmente contra a proposta de alteração de estatutos para permitir a eleições directas, considerando que tal poderia ser "perigoso", na medida em que poderia ocorrer o caso de uma só distrital ter os votos suficientes para eleger o presidente do partido.
Em Viseu, e ao contrário do que tinha sucedido quatro anos antes no congresso de Lisboa, a proposta para as "directas" foi a votos, acabando por ser rejeitada com 54 por centro dos votos contra.
O congresso de Pombal, onde Marques Mendes e Luís Filipe Menezes disputaram a liderança do PSD há um ano atrás, voltou recuperar o debate das "directas", com o autarca de Vila Nova de Gaia a transformar essa alteração nos estatutos como uma das suas "bandeiras" eleitorais.
A proposta acabou por gerar consenso, unindo bases e destacados militantes, como Manuela Ferreira Leite, e os dois candidatos à liderança do partido, apesar de Marques Mendes nunca ter sido um entusiasta dessa hipótese.
Uma unanimidade que levou Marques Mendes, depois de ser eleito, a comprometer-se a convocar um congresso para discutir a alteração dos estatutos após o fim do ciclo eleitoral.
No congresso deste fim-de-semana, as "directas" voltam assim a estar no centro do debate, com seis das sete propostas de alteração de estatutos a defendê-las, nomeadamente a da direcção do partido, a subscrita por Luís Filipe Menezes e ainda a apresentada por Rui Gomes da Silva.
A sua aprovação é, contudo, incerta, dado que são necessários os votos de cerca de 570 dos 900 delegados ao congresso.
Por esclarecer está também o que Marques Mendes tenciona fazer se as "directas" forem aprovadas: se convoca as eleições para os próximos meses, uma forma de relegitimar a sua liderança, ou se opta por esperar pelo próximo ano, quando acabar o seu mandato na liderança.