Divã digital. A Inteligência Artificial chegou ao lado mais íntimo

Divã digital. A Inteligência Artificial chegou ao lado mais íntimo

Todos os dias em todo o mundo, milhões de pessoas recorrem à Inteligência Artificial para resolver problemas, encontrar caminhos e até para desabafar ou gerir a ansiedade.

O vento frio corta a marginal da Nazaré. Mariana Lopes acelera o passo até ao consultório de psicologia, frente ao mar. Foi ali que procurou ajuda para lidar com a pressão de uma carreira na dança.

Mariana fez o conservatório em Lisboa, mas o percurso trouxe exigências físicas e emocionais difíceis. "No mundo da dança que é tão rigoroso é muito fácil de cair em padrões emocionalmente não tão saudáveis a nível da imagem corporal, do que se come, do que não se come, do que se treina, do que não se treina", conta.

No início recorreu a uma psicóloga. Anos depois juntou outra ferramenta de apoio: a inteligência artificial. “Uso bastante. Um bocadinho como bengala para a vida. São coisas mais simples do género: estou com insónias, dá-me exercícios para conseguir adormecer“, diz.

Nem todas as conversas foram simples. Numa fase de treinos intensos, pediu ao algoritmo instruções para perder quatro quilos numa semana. A resposta da IA à dieta extrema foi rápida, mas inesperada.

Reportagem completa do programa Linha da Frente - 23 de julho de 2026
Viver na era da IA
A inteligência artificial é cada vez mais usada. Gratuita, veloz, sempre disponível e carregada de simpatia é uma ferramenta irresistível para esclarecer todo o tipo de dúvidas. Até as existenciais.

"O ChatGPT é, neste momento, o maior prestador de serviços psicológicos do mundo. Não há nenhuma clínica de psicoterapia que se compare ao impacto, à quantidade de pessoas que estão a ter apoio emocional e psicológico, comparado com esta inteligência artificial", afirma Alexandre Vaz, psicólogo clínico, investigador e professor universitário nos Estados Unidos.

Segundo o psicólogo, a questão já não é saber se a inteligência artificial fará parte da saúde mental, mas compreender como poderá ser utilizada de forma segura. "O psicólogo não se vai definir por saber mais do que a máquina. A máquina terá sempre acesso a mais informação. A diferença estará na capacidade humana de interpretar essa informação, compreender o contexto e estabelecer uma relação terapêutica."

Os números confirmam a rapidez desta mudança. O estudo europeu “EU Kids Online” revela que 85% das crianças e jovens portugueses utilizam a IA no quotidiano, mais 10 pontos percentuais do que a média dos 19 países analisados. Os dados revelam ainda que 1 em cada 4 jovens portugueses já procurou a IA para apoio emocional ou pessoal, uma proporção superior à média europeia.

As razões da procura da IA são semelhantes às encontradas nos consultórios: ansiedade, depressão, stress, ataques de pânico, dificuldades de autoestima, solidão ou problemas nas relações. 

Entre a ajuda e a dependência
Na Nazaré, a psicóloga clínica que acompanha Mariana, lembra que "a relação terapêutica acaba por ser um espaço seguro, um espaço empático, de escuta e presença que não há igual.”

Para Rita Morais, uma das grandes diferenças entre o algoritmo e uma consulta é a existência de limites. Num consultório há horários definidos e processos terapêuticos com princípio e fim, enquanto na IA há uma disponibilidade total. Mas o que parece uma vantagem, pode não ser.

Miguel Ricou, da Ordem dos Psicólogos Portugueses, alerta para os riscos da consulta excessiva da IA em questões de autonomia, “a ideia de ter um apoio diário, a mim, se alguém precisa disso, eu fico preocupado com esse alguém!". O objetivo da intervenção psicológica, sublinha, não é criar dependência, mas desenvolver a capacidade de cada pessoa enfrentar sozinha os estímulos da vida “sentirem que elas são capazes de lidar com as suas dificuldades, com os desafios, com aquilo que vai acontecendo”.
Quando o algoritmo aprende
A Roomie é a primeira plataforma criada para assuntos de saúde mental, em Portugal. Criada por psicólogos, com um sistema de IA, o agente virtual funciona como um apoio para psicólogos e pacientes de uma clinica.

A ideia não foi substituir a terapia, mas sim complementar, assegura o fundador da Roomie. O psicólogo Francisco Valente Gonçalves, lembra que o agente virtual surgiu de uma necessidade “começámos a perceber que um sistema de inteligência artificial poderia facilitar este trabalho terapêutico entre consultas para algumas pessoas.”

As plataformas de IA mais usadas são abertas. O Chat GTP, da americana OpenAI, é procurado, mas existem milhares de outros modelos, criados por empresas em todo o mundo, desde as mais pequenas às gigantes tecnológicas.

Todos recolhem dados, aprendem padrões de comportamento e procuram manter o utilizador ligado o maior tempo possível.

"Estamos aqui numa luta complexa, porque estas empresas estão a trabalhar com os melhores investigadores, em muitos casos, que estão constantemente a atualizar o algoritmo e o algoritmo a atualizar-se a si mesmo, de modo à pessoa permanecer na plataforma”, observa Alexandre Vaz.

Apoiada em fórmulas matemáticas, com capacidade de fazer previsões, a IA é, neste momento, um poderoso detentor de informação à escala planetária. A cada segundo a base dados torna-se mais gigantesca.
Os novos limites
O pedido de perda de peso de Mariana Lopes foi recusado. O ChatGPT escreveu que entendia a frustração, mas que “não posso nem devo dar instruções que ponham a tua saúde em risco”

Mas as respostas do Chat nem sempre foram tão cuidadosas. Nos Estados Unidos multiplicam-se processos judiciais em que acusam a IA de incitar a violência e o suicídio em jovens. Entre eles está o processo apresentado pelos pais de Adam Raine, um adolescente que se matou depois de meses a conversar com um chatbot.

A gravidade da situação fez disparar os alertas dos educadores e das grandes empresas tecnológicas. Nos últimos meses, os fornecedores de IA reforçaram os mecanismos de proteção dos utilizadores.

Na pesquisa para esta reportagem colocámos à IA várias questões sobre saúde física e mental. Em temas como depressão, automutilação ou ideação suicida, as várias aplicações não deram respostas que pudessem pôr em causa a segurança do utilizador e encaminharam para linhas telefónicas de apoio.

Em Portugal, não há até agora qualquer queixa de atentado à integridade física motivado pelo uso da IA. As preocupações da Polícia Judiciária em relação à IA centram-se sobretudo na manipulação de imagens e no ciberbullying.

Carla Costa, inspetora-chefe da PJ, lembra que uso das redes sociais ou da IA acontece muitas vezes dentro de casa, o que pode criar uma falsa sensação de segurança nas famílias. “Há pais que julgam pelo facto de (os filhos) estarem em casa, estão no quarto, estão sossegados, que não correm perigos, mas não correm perigos no mundo real. No mundo virtual, a porta fica escancarada a todos os riscos e perigos que existem.” A inspetora alerta para a necessidade de educar pais e filhos para os riscos do mundo digital.
Bem-estar digital
A IA começa muitas vezes como ferramenta de estudo e estende-se rapidamente a outras dimensões da vida.

Na escola de Barcelinhos, no norte do país, a maioria dos alunos do 9º B levantou o braço à pergunta sobre quem já utilizou inteligência artificial para realizar trabalhos escolares.

A sessão de esclarecimento é conduzida por Cristiane Miranda e Tito de Morais, do “Agarrados à Net”, um programa que promove a literacia digital nas escolas.

Tito de Morais, o fundador do projeto, explica aos jovens que os agentes de inteligência artificial parecem muitas vezes “o amigo perfeito”, mas que não ajudam a desenvolver a resiliência social. “ O que é que pode acontecer? Nós cansarmos de ter que estar a fazer o esforço para nos relacionarmos com as pessoas do dia-a-dia. E isso pode conduzir-nos a isolar-nos socialmente.”
A importância da saúde mental
A saúde mental é cada vez mais associada ao bem-estar.

Em Portugal a procura crescente por consultas de psicologia revela um problema mais profundo: a dificuldade de acesso aos serviços de saúde mental. O tempo de espera no SNS pode chegar aos seis meses e não há garantias de regularidade nas sessões de acompanhamento posteriores.

A IA responde em segundos, mas nem sempre consegue reconhecer sinais de sofrimento.

O psicólogo Miguel Ricou alerta que o sofrimento psicológico tende a conduzir ao isolamento. “Aquilo que nós precisamos quando as pessoas estão a sofrer é contrariar essa sensação de isolamento. E aquilo que é a busca a partir de um algoritmo e não a partir de outra pessoa qualquer, pode ter esse efeito paradoxal. Nos isolar cada vez mais.”

O grande risco está no uso da IA, por pessoas com problemas mentais sérios.

Alexandre Vaz acrescenta que em situações clínicas como episódios psicóticos, transtornos obsessivo-compulsivos ou fases maníacas da bipolaridade a utilização da inteligência artificial “facilmente pode criar mais problemas”. E dá um exemplo, “eu facilmente consigo convencer o ChatGPT que eu sou o renascer do Napoleão. E ele, a certa altura, está a concordar comigo. Sim, sim, tu és o Napoleão! “

A ideia de existiram máquinas a servir o homem é antiga. O cinema ajudou a humanizar robôs, mas o que parecia ficção científica pode hoje tornar-se realidade. Enquanto espera pela próxima consulta, Mariana Lopes continua a falar com o ChatGPT. Não o vê como um psicólogo, mas como uma ajuda entre sessões. Talvez seja esse, para já, o lugar da inteligência artificial: não no divã, mas na sala de espera.