Doentes desconfortáveis e médicos ansiosos no Hospital de S. Gonçalo (Amarante)
Um vai-vem de ambulâncias, uma sala de espera apinhada, dezenas de doentes em macas num corredor, três pequenos gabinetes médicos para todas as especialidades, espaços divididos por precários cortinados.
Este cenário que a Lusa encontrou na tarde de sexta-feira passada no serviço de urgência do Hospital de S. Gonçalo, em Amarante, não provocava, no entanto, protestos dos utentes contra o pessoal hospitalar.
"Bagdad", a cidade em guerra, foi o nome escolhido pelo pessoal do S. Gonçalo para baptizar o serviço de urgência, cuja falta de condições contrasta com a qualidade das instalações da maternidade, situada dois pisos acima, já com fim anunciado até ao final do ano.
Instados pela agência Lusa, a maioria dos doentes e acompanhantes sentados em desconfortáveis bancos de madeira elogiou o atendimento do pessoal cujas condições de trabalho estão abaixo dos padrões mínimos.
O pequeno Vitor, de Gatão, Amarante, com nove anos, tem sido uma presença habitual nos últimos tempos. Partiu os pulsos a jogar à bola na escola e está agora, sentado ao lado da mãe, com ambos os braços engessados. Vai ser visto pelo ortopedista, mas a mãe elogia o atendimento que tem sido prestado ao filho.
Cândida Gonçalves, 59 anos, corrobora: "somos muito bem atendidas, mas devíamos ter uma casa de banho para homens e outra para as mulheres".
Magda Gomes, 58 anos, que ali se desloca com frequência a acompanhar o marido que sofre do coração, confirma que ele é "bem atendido" mas às vezes espera mais tempo do que seria admissível.
Desta vez, Magda estava a acompanhar a neta, mas à noite esperava regressar por causa do marido que deixara em casa "a queixar- se de falta de ar".
O desconforto dos utentes não deixa indiferente o pessoal clínico e de enfermagem, que espera com grande ansiedade uma decisão governamental sobre o futuro deste serviço de urgência médico- cirúrgica.
De momento, o maior constrangimento sentido pelo cirurgião Joaquim Carvalho, chefe da equipa de urgência, é a falta de espaço, em termos de gabinetes médicos e de separação do atendimento.
A braços com uma afluência média de 180 pessoas, que cresce até às duas centenas nos fins-de-semana, o responsável tem apenas três gabinetes médicos para todas as especialidades, que vão da pediatria à cirurgia.
"Se chega um sinistrado, temos de dividir os espaços recorrendo a um cortinado", resigna-se.
"Não há, de facto, privacidade nenhuma para os doentes e as condições de trabalho são muito mais que precárias", reconhece o médico, em declarações à Lusa.
Garantindo que se faz em Amarante "um atendimento aos doentes de que não se envergonha", apesar das limitações do espaço físico, Joaquim Carvalho mostra-se descontente com a indefinição sobre o futuro da unidade hospitalar.
"Há grande ansiedade entre os profissionais, que não sabem como vai ser o seu futuro", confessa o cirurgião.
É que, além de pretender encerrar a maternidade até ao final do ano, um projecto normativo do Ministério da Saúde, datado de Abril, apontava para a desclassificação do hospital para unidade básica, o que implicaria fechar a actual urgência médico-cirúrgica.
Uma decisão que, segundo o presidente da câmara local, o socialista Armindo Abreu, ainda não está tomada.
O autarca considera existirem boas possibilidades de um acordo com a Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN) de manter aquele serviço pelo menos até ás 22:00.
Face a este quadro - cuja concretização depende designadamente de negociações em curso entre a ARSN e a administração do Hospital de S. Gonçalo - ficou congelado um projecto de ampliação do espaço.
A Administração tencionava comprar pré-fabricados e instalá- los numa área de 170 metros roubada a um parque de estacionamento no exterior, triplicando todas as zonas da urgência, desde os lugares sentados na sala de espera até à área de atendimento.
As más condições de atendimento do hospital, que duram há quase uma década, voltaram a ser denunciadas há uma semana pelo deputado do Bloco de Esquerda João Semedo, que entregou dia 16 na Assembleia da República um requerimento a perguntar ao ministro Correia de Campos o que tenciona fazer.
O deputado pergunta se o estabelecimento vai ser transformado num grande centro hospitalar com o Vale do Sousa, que o tornaria maior do que o S. João, no Porto, ou se passará a constituir o "eixo" de uma Unidade Local de Saúde para servir 250 mil pessoas das sub-regiões do Baixo Tâmega e do Douro Sul, solução que defende.
No requerimento, João Semedo refere que "alguns responsáveis da saúde anunciaram a intenção de criar um grande centro hospitalar em torno do Hospital Padre Américo (Penafiel), destinado a toda a população do Vale Sousa do Baixo Tâmega e que absorveria a actividade hoje desenvolvida pelo Hospital de Amarante, assim, condenado a transformar-se num hospital de retaguarda para cuidados continuados".
Para o presidente da Câmara de Amarante, aspecto importante é o impacte social que o esvaziamento a curto prazo do hospital poderia ter, sabendo-se que directa e indirectamente dependem daquele serviço cerca de um milhar de famílias.
"Os equipamentos públicos são muito importantes para o desenvolvimento do interior e o Estado também tem de se preocupar com isso. O senhor ministro não pode ser insensível a isso", considerou o autarca socialista em declarações à Lusa.
"Todos nós sabemos que as taxas de desemprego no Baixo Tâmega são elevadas e aqui, em Amarante, também. [Fechar serviços no hospital] será um agravamento da taxa de desemprego, já de si muito elevada. O Estado também não pode fechar serviços assim à toa, sem criar um alternativa", salienta.
O autarca defende a Unidade Local de Saúde em vez do centro hospitalar, que a curto prazo conduziria ao esvaziamento da unidade, uma opinião também defendida pelo cirurgião-chefe da equipa de urgência, Joaquim Carvalho, e pelo administrado do hospital, Albano Tamegão.
O presidente da câmara tem esperança que seja esta solução a vingar.
"Estou confiante, porque vi o interesse do senhor ministro em falar connosco. Com os documentos que a administração do hospital me vai facultar, vou tentar convencer o senhor ministro a criar aqui a Unidade Local de Saúde ou menos que criar a Unidade de Missão para estudar o assunto convenientemente", disse.