Domingos Simões Pereira chega a Lisboa mas promete voltar à Guiné-Bissau para continuar "combate"
O opositor guineense Domingos Simões Pereira chegou hoje de madrugada ao aeroporto de Lisboa, após sair da cadeia, onde se encontrava em prisão preventiva na Guiné-Bissau, e prometeu regressar ao país para continuar "este combate".
Questionado pelos jornalistas, à saída do lounge VIP do aeroporto de Lisboa, se tencionava regressar, Domingos Simões Pereira foi taxativo: "absolutamente".
"Eu sou guineense e continuarei, assim que possível, este combate", garantiu o opositor guineense, que foi recebido em euforia por dezenas de guineenses a residir em Portugal e que encheram o aeroporto com bandeiras e gritos e cânticos de apoio.
"Eu não posso virar costas ao meu povo", sublinhou.
O responsável admitiu estar a sentir uma "sensação de liberdade" e "agradecido pela população que vem acolher".
Quantos aos pormenores da sua estadia em Portugal, admitiu que ainda não conhece as condições, "porque quem trata de tudo, são as autoridades portuguesas".
Questionado sobre os assuntos internos no país, Domingos Simões Pereira escusou-se a responder diretamente às perguntas, dizendo apenas que "alguém trabalhou, as autoridades trabalharam" e permitiram que estivesse em Portugal.
"Eu quero respeitar esse esforço que foi feito. Assim que conhecer todos os contornos", falará, assegurou.
Quanto ao seu estado de saúde, disse ainda não saber, respondendo apenas que se "sente bem".
Domingos Simões Pereira chegou por volta da 01:00 a Lisboa, tendo saído no dia anterior da cadeia, onde se encontrava em prisão preventiva, por ordens do juiz de Instrução Criminal, Mamadú Embaló, que autorizou que viajasse para Portugal, onde vai submeter-se a tratamento médico.
A informação foi avançada à Lusa por fonte da defesa do político, num contacto telefónico feito a partir de Lisboa.
Simões Pereira estava a cumprir prisão preventiva desde o passado dia 10 de julho, no âmbito de um processo em que é acusado pela justiça militar de participação em alegada tentativa de golpe de Estado ocorrida em outubro de 2025.
Citando o despacho do juiz, a fonte referiu que Simões Pereira foi autorizado a ausentar-se da Guiné-Bissau durante noventa dias, período durante o qual não poderá desenvolver atividade política.
A mesma fonte adiantou que a decisão do juiz se baseou num relatório médico do Hospital Militar de Bissau, segundo o qual seria necessário que o líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) fosse observado num centro médico especializado em Portugal.
Segundo a fonte, Simões Pereira viajou para Portugal na companhia da esposa e do irmão, o médico Camilo Simões Pereira.
A decisão do juiz de instrução criminal (JIC) respondeu a um requerimento da defesa e contou com o parecer favorável da Promotoria de Justiça Militar, tendo em conta "razões humanitárias e legais, fundamentada num atestado emitido pelo Dr. Domiciano Bernardo Nacocam Mango, médico do Hospital Principal Militar de Bissau", disse a mesma fonte.
A defesa disponibilizou à Lusa a cópia do despacho do JIC, no qual é referido que a "prisão preventiva fica suspensa pelo período de três meses, ao abrigo do artigo 164º do Código de Processo Penal (CPP)" da Guiné-Bissau.
"O suspeito está sujeito à obrigação de abster-se de desenvolver qualquer atividade político-partidária durante a vigência da suspensão. Findo o prazo de três meses, a situação processual do suspeito será novamente reapreciada pelo tribunal", sublinha-se no despacho.
Presidente eleito do Parlamento guineense, Simões Pereira estava em prisão preventiva desde o passado dia 10, no âmbito de um processo em que é acusado pela justiça militar de participação em alegada tentativa de golpe de Estado ocorrida em outubro de 2025.
A Guiné-Bissau foi palco de um golpe de Estado em vésperas da publicação dos resultados provisórios das eleições legislativas e presidenciais, que tinham decorrido sem incidentes em novembro de 2025.
Em comunicado, o Governo português confirmou que Portugal vai acolher "por razões médicas e humanitárias" o opositor guineense Domingos Simões Pereira.
"Portugal acolhe Domingos Simões Pereira, conforme solicitado pelos seus familiares, depois da libertação hoje ocorrida por razões médicas e humanitárias", lê-se no comunicado divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.
"Reconhecendo o gesto humanitário, continuaremos a trabalhar com empenho e recato, pelas vias diplomáticas, no quadro da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa] e em cooperação com a CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental] e União Africana, em prol do regresso das instituições da Guiné-Bissau à normalidade constitucional e democrática", sublinhou a diplomacia portuguesa.