Dona Camila faz 104 após ajudar a vir ao mundo parte da freguesia de Vizela

Dona Camila faz 104 após ajudar a vir ao mundo parte da freguesia de Vizela

Dona Camila, que se tornou parteira porque o médico lhe descobriu jeito, passa hoje o seu 104º aniversário, com celebrações dos habitantes da freguesia de Tagilde, em Vizela, boa parte dos quais ajudou a trazer à luz do dia.

Agência LUSA /

Camila Ferreira, nascida em 1903, casou com 20 anos, trabalhou como doméstica para ganhar a vida, vingou três dos onze filhos nascidos, viu o marido morrer com 62 anos, passou, então, a ajudar "gente a vir ao mundo" e aos 101 anos realizou o último parto.

"Quero durar até quando Deus quiser. Já vivi muito", diz, indo buscar à memória, já um tanto esbatida, os tempos em que viu os soldados, ainda jovens, entrar para o comboio rumo aos campos de batalha da Flandres na primeira grande guerra mundial.

Camila Ferreira manteve-se activa até aos 101 anos, estando acamada há quatro, devido a uma trombose.

Apesar disso, mantém grande lucidez, embora uma surdez teimosa lhe dificulte a comunicação com a família e os vizinhos, que não lhe faltam com apoio e carinho.

Dona Camila vive no quarto de uma habitação modesta, mas condigna, ajudada por uma das filhas, Maria de Lurdes Ferreira de Almeida, de 77 anos, que a lava, lhe dá comida e remédios e até canta e dança para a divertir.

As filhas, Maria de Lurdes e Adelina, esta já com 82 anos, ajudam na conversa e desfiam a sua biografia, recordando que casou aos 20 anos de idade com José de Almeida (viria a falecer com 62 anos), vindo morar para a freguesia de Tagilde - Vizela após o matrimónio.

Do casal nasceram 11 filhos (três vivos e oito falecidos), que se multiplicaram em 24 netos, 36 bisnetos e 2 trinetos.

A maior parte dos filhos morreu devido à "gorgontilha" ou "febrão", nomes populares dados à febre tifóide.

Dona Camila tem pena de nem sempre ver os netos juntos e de não poder gozar a vida, quando hoje - sublinha - "se vive muito melhor que outrora".

"Sou do tempo em que só havia pão e sopa para comer, quer na Primeiro República quer com o Salazar", recorda, frisando que, então, era "criada de servir" para ganhar a vida.

A evocação das agruras da infância e da juventude é, de imediato, acentuada pelas filhas que não esquecem as dificuldades e as "vidas difíceis" do século passado.

Foi doméstica até aos 60 anos, altura em que se tornou parteira, porque "o doutor Eugénio, um médico de Vizela, descobriu que tinha jeito e qualidades para ajudar as crianças a vir ao mundo e deu- lhe autorização para exercer a actividade", recorda uma das filhas.

Naquele tempo, as mulheres só iam para o Hospital se houvesse "parto complicado", pelo que a Dona Camila viu nascer a maior parte dos residentes em Tagilde.

De resto, a festa que a Junta de Freguesia local lhe organizou para decorer durante toda a tarde de hoje - pela mão voluntária da Tesoureira Paula Lima - junta, numa ampla mesa à porta de sua casa, a família, os vizinhos e as crianças do ATL, cujos avós nasceram com a ajuda das mãos ágeis da aniversariante.

Com visível agrado, Dona Camila diz que ainda se lembra que o primeiro parto foi realizado a uma actual vizinha (Leonor de Jesus - 70 anos) e que o último foi aos 101 anos de idade, pouco antes de ter a trombose.

Não obstante, encontra-se em perfeito uso das suas faculdades mentais, lembrando-se perfeitamente de pessoas, acontecimentos e da sua história de vida.

A surdez impede-a de acompanhar as novelas da televisão, mas, em contrapartida, dá-lhe para sonhar com o marido, familiares e antigos conhecidos.

Há alguns dias, os devaneios nocturnos levaram-na ao tempo em que comia "sopa seca", uma espécie de rabanadas, que são uma especialidade típica da zona e lhe foram oferecidas por um amigo da juventude, que "já "partiu".

Agora, aos 104 anos e depois de - recorda - ter tido uma festa com música quando fez 100, Dona Camila já não se preocupa com nada, nem com a reforma de 200 euros - mais um suplemento recente - que mal dá para os medicamentos.

PUB