Educadora admite que consultou ilicitamente dossier de aluno
A educadora Leonilde Fátima Marcelino admitiu em julgamento que consultou ilicitamente na Casa Pia o dossier individual de um aluno que é testemunha após ter falado sobre a alegada vítima com o filho do arguido Manuel Abrantes.
Leonilde Fátima, ex-cunhada do antigo provedor adjunto da Casa Pia argu ido no processo, disse hoje, na 176ª sessão do julgamento do caso casa Pia, que a 04 de Outubro de 2003, num jantar na residência de Nuno Abrantes, falou com es te sobre um dos rapazes alegadamente abusado e decidiu consultar o processo pess oal do aluno, relataram fontes presentes na audiência, que continua a decorrer à porta fechada, apesar dos insistentes pedidos dos jornalistas.
De acordo com as mesmas fontes, a educadora, actualmente a cumprir lice nça sem vencimento, contou que, no dia seguinte, um domingo, se deslocou à prove doria da Casa Pia de Lisboa e que consultou ilicitamente o processo pessoal do a luno.
"O que tu vais ver não viste", terá dito a uma outra funcionária que en controu no local, relataram as fontes, acrescentando que a testemunha disse tamb ém que falou novamente com o sobrinho sobre o assunto, relatando-lhe pormenores do processo individual.
Confirmou ainda que pediu a uma colega para lhe proporcionar um encontr o com aquele aluno, que terá ocorrido no refeitório da instituição, e que pediu a este para transmitir um recado a outro aluno de que precisava de falar com ele , referiram as fontes.
Estes acontecimentos ocorreram numa fase em que o ex-provedor adjunto M anuel Abrantes se encontrava preso preventivamente e em que o processo de pedofi lia estava em investigação.
Questionada sobre como é que sabia que estes alunos eram alegadas vítim as no processo, a educadora retorquiu que teve conhecimento pela Comunicação Soc ial.
Na sequência desta consulta, a funcionária casapiana foi alvo de um pro cesso disciplinar que culminou numa suspensão durante um ano e meio.
À saída do tribunal, Paulo Sá e Cunha, advogado de Manuel Abrantes, desvalorizou o facto de a cunhada do ex-provedor ter confirmado que consultou ilicitamente o processo para obter informações.
"Os factos que a senhora relatou têm lugar meses depois da prisão preve ntiva de Manuel Abrantes. Qualquer cidadão que está preso e que tem de preparar a sua defesa e quando ainda nem sabe muito bem do que é que é acusado, é natural que procure desenvolver uma série de esforços no sentido de perceber o que é qu e lhe está a acontecer, quem é que o está a acusar, de que é que o estão a acusa r", argumentou.
"O que era grave era que a acusação sonegasse provas úteis para a defes a. Muitos dos documentos que Manuel Abrantes juntou estavam em poder da Casa Pia e não se percebe muito bem porque é que não aparecem no processo. Isto num trib unal americano seria suficiente para anular um julgamento por sonegação de prova s", acrescentou.
Para Miguel Matias, representante da Casa Pia, pelo contrário, "uma med ida reactiva é um acto eventualmente lesivo de um direito também ela própria tem uma cabimentação (consequência) jurídica". "Não posso conceber que, num acto de investigação criminal em segredo d e justiça, uma pessoa possa, cometendo um ilícito pelo qual foi punida, tentar o bter informações relativamente a um processo individual de um aluno que sabia qu e era vítima", vincou.
Na sessão da manhã de hoje, terminou o depoimento Luís Vaz, antigo dire ctor do Colégio Pina Manique, que afirmou que uma das principais testemunhas/vít ima do processo de pedofilia "passou a vida a mentir", relataram fontes ligadas ao processo.
Apesar de admitir que falou pouco com os alunos envolvidos no processo de pedofilia e que chegou a recusar ouvir o relato de um deles, o antigo directo r, que ocupou o cargo entre 2000 e 2003, afirmou que um dos jovens "era um peque no delinquente que se transformou num grande delinquente", revelaram as fontes.
"Tenho muito consideração pelas vítimas, compreendo que é difícil julga r estes casos. Receio que se condenem as vítimas das próximas vítimas", comentou Luís Vaz, de acordo com os relatos feitos à Lusa.
Segundo as fontes, o antigo director do Colégio Pina Manique disse aind a em tribunal que ficou muito incomodado quando, em depoimento na fase de inquér ito, o procurador do Ministério Público João Guerra lhe disse "você está a dar-m e uma pêra podre mas eu não a como", referindo-se às declarações que prestou.
O julgamento do processo Casa Pia prossegue quinta-feira de manhã com a continuação do depoimento de Celeste Santos, directora do Colégio de Santa Cata rina, que hoje respondeu a questões do Ministério Público, estando também agenda da a audição de Américo Henriques, o mestre de relojoaria que desde 1975 denunci ou várias vezes situações de abuso sexual na Casa Pia.