Em Coimbra Universidade e Câmara vão transformar óleos alimentares em biodiesel
Utilizar óleos alimentares usados para fazer andar um carro vai ser possível em Portugal graças a um projecto pioneiro da Universidade e da Câmara de Coimbra, que os vão reciclar e transformar em biodiesel.
Dois organismos da Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal juntaram-se num consórcio para recolher e transformar óleos alimentares usados em biodiesel, um combustível alternativo de grande potencial, indicado para veículos, máquinas e sistemas de aquecimento.
Para se tornar realidade, esta empresa piloto de produção de biodiesel a partir da reciclagem e transformação dos óleos vegetais já rejeitados para frituras aguarda a aprovação de uma candidatura a financiamento apresentada à Agência de Inovação, do Ministério da Economia.
à volta desta ideia juntaram-se o Departamento de Engenharia Química da Universidade, com o saber dos seus cientistas, os Serviços de Acção Social, que diariamente utilizam óleos na confecção das refeições das cantinas universitárias, e a Câmara Municipal, preocupada com o destino dos resíduos e à procura de um combustível "mais limpo" e mais barato.
Os resultados da candidatura ao financiamento da Agência de Inovação, a rondar os 250 mil euros, deverão ser conhecidos em Fevereiro ou Março e a expectativa é grande, pelo bom acolhimento ao projecto e pelo contributo que pode dar para minorar dois dos principais problemas das sociedades contemporâneas - a dependência dos combustíveis fósseis e o destino dos resíduos.
"Tratar os óleos vegetais usados é uma mais-valia. Não tem de se pensar para onde vão, porque criam problemas ambientais. E podia ser interessante reciclá-los para combustível nos transportes, e em outros veículos, e no aquecimento", disse à Agência Lusa o professor universitário António Portugal, ao explicar razões do projecto.
A unidade piloto que pretendem instalar nos laboratórios da Faculdade de Engenharia Química terá capacidade para produzir mil litros de biodiesel por dia.
No entanto, um dos grandes problemas com que se poderá defrontar é o do subaproveitamento, por escassez de "matéria-prima".
Será necessário mobilizar os cidadãos e as empresas alimentares que utilizam óleos vegetais a recolhê-los e a armazená-los para a sua transformação.
Os Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra, que servem uma média diária de 10 mil refeições, disponibilizam mensalmente mil litros de óleos alimentares usados, que correspondem à capacidade de laboração de um dia apenas da unidade piloto.
A candidatura a financiamento da Agência de Inovação, com um projecto para dois anos (Março de 2005 a Março de 2007), prevê que no primeiro ano seja montada a unidade piloto, se realizem acções de sensibilização pública para a reciclagem dos óleos e se crie uma rede de recolha. Só no segundo ano se entrará na produção efectiva do biodiesel.
Para responder aos objectivos do projecto, a Câmara de Coimbra tenciona instalar, ainda no primeiro semestre deste ano, em pontos estratégicos da cidade, recipientes para a recolha desses óleos alimentares (oleómetros), a exemplo do que já faz com o papel, embalagens e pilhas.
Coimbra, enquanto cidade de serviços, possui ainda grandes unidades hospitalares (Hospitais da Universidade, Pediátrico e Centro Hospitalar) que servem diariamente milhares de refeições aos seus utentes, centenas de restaurantes e refeitórios de instituições, que poderão disponibilizar grandes quantidades de "matéria-prima".
Na opinião de António Portugal, o sucesso da produção de biodiesel a partir da reciclagem dos óleos alimentares dependerá da forma como as entidades públicas organizem a sua recolha, a nível local ou nacional.
A Agência Regional de Energia e Ambiente do Centro (AREAC), com sede em Miranda do Corvo, que já esteve envolvida na demonstração de veículos movidos a biodiesel produzido laboratorialmente no Departamento de Engenharia Química da Universidade de Coimbra, poderá assumir um papel importante nesta estratégia, nomeadamente na sensibilização dos municípios seus associados para a recolha dos óleos alimentares usados.
Os promotores desta unidade piloto de reciclagem de óleos vegetais usados estimam que o litro de biodiesel apresente um custo a rondar os 50 cêntimos do euro, já tendo em conta o investimento inicial nos equipamentos necessários.
No entanto, há um subproduto da produção com interesse económico, a glicerina, que poderá ser purificada e utilizada na indústria de cosméticos.
Segundo os estudos realizados na Universidade de Coimbra, por António Portugal e o estudante de doutoramento Luís Miguel Pedroso, num litro de óleo alimentar usado, cerca de 98 por cento é convertido nos dois componentes da reacção, em biodiesel (80 por cento) e glicerina (18-20 por cento).
Um máximo de dois por cento é resíduo, que poderá ser utilizado como fertilizante.
Desde finais de Setembro de 2004 que a Câmara Municipal já utiliza biodiesel em três viaturas do Departamento de Ambiente e os primeiros resultados são animadores, ao ponto de se prever ampliar os testes em mais quatro viaturas a partir de Fevereiro.
O desejo do director daquele departamento camarário, Veiga Simão, é o de ter pelo menos metade das duas dezenas e meia de veículos da sua frota movida a biodiesel até ao final do ano, pelos ganhos ambientais e económicos.
Se toda a frota consumisse biodiesel, a poupança seria de 20 mil euros por ano.
Os veículos do Departamento do Ambiente e Qualidade de Vida da Câmara de Coimbra utilizam uma mistura de biodiesel (20 por cento) com diesel (80 por cento), mas os investigadores da Universidade de Coimbra afirmam que diversas marcas de automóveis, como a Seat, Skoda, Volkswagen, Peugeot e Audi, desde há uma década têm os seus veículos preparados para utilizar integralmente o biodiesel, sem necessidade de adição de diesel.
Em termos de rendimento automóvel - realçam - este combustível não tem variações sensíveis em relação ao diesel.
Além de mais económico, reduz as emissões poluentes para a atmosfera, o consumo dos motores também é mais baixo, o ruído de funcionamento é menor e a sua longevidade maior.
Pela sua menor viscosidade, o biodiesel é susceptível de provocar maior desgaste de borrachas sintéticas, dos vedantes, tubos de gasóleo e anilhas, limitações que a generalidade dos fabricantes automóvel já superou.
Hoje até utilizam a opção do biodiesel nos motores como estratégia de marketing.
Os Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra entraram neste projecto movidos por uma preocupação ambiental, e encaram a possibilidade de participar num futuro projecto industrial para produção de biodiesel, como forma de diversificar as fontes de receita e melhor apoiarem os estudantes carenciados, disse à Agência Lusa o seu administrador, António Luzio Vaz.