Especialistas criticam falta de medidas sociais sobre gravidez na adolescência
Especialistas em planeamento familiar criticaram hoje a falta de medidas sociais para travar a gravidez na adolescência em Portugal, o segundo país europeu com mais casos, salientando que não chega investir apenas na área da saúde.
"Precisamos de políticas sociais dirigidas às famílias e aos jovens. Isso é que vai prevenir a gravidez na adolescência e as melhorias dos cuidados perinatais", afirmou à Agência Lusa Fátima Xarepe, assistente social da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), à margem do seminário "Meninas e Meninos do Mar", que decorre até sexta- feira em Lisboa.
Se estes apoios sociais não existirem, podem andar imensas equipas multidisciplinares a trabalhar estas questões que a situação social vai manter-se, com tendência a agravar-se, acrescentou.
Também presente no seminário, Sílvia Graça, representante da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, adiantou que entre 1957 e 2002 os valores dos números de gravidezes na adolescência têm-se mantido iguais em termos absolutos, "apesar do que tem sido feito".
Segundo Sílvia Graça, Portugal tem a segunda maior taxa de gravidez na adolescência da União Europeia, sendo apenas superado pela Inglaterra.
Para inverter esta situação, Cristina Matos, pediatra na MAC que recebe as adolescentes grávidas, defende um maior investimento na área social, onde considera residir o problema.
"O que se nota em relação há 10 anos é que a qualidade de vigilância destas jovens e do recém-nascido tem melhorado francamente", mas falta actuar no contexto global, disse à Lusa, acrescentando: "nós estamos apenas a trabalhar a parte da saúde, nisso os números são melhores, mas depois falta tudo o resto", sublinhou.
No ano passado, dos 6.058 partos ocorridos na Maternidade Alfredo da Costa, 188 (3,1 por cento) foram de jovens com idade inferior a 18 anos, revela um estudo da autoria de Cristina Matos, divulgado no seminário promovido pela Associação para o Planeamento da Família.
Segundo o estudo, 17 por cento das adolescentes tinham menos de 15 anos, 37 por cento não tinha qualquer actividade laboral, 34 por cento frequentava a escola quando engravidou e 20 por cento trabalhava.
Em 84 por cento dos casos tratou-se de uma primeira gestação, mas 16 por cento das adolescentes já tinham uma ou duas gravidezes anteriores, que terminaram em aborto em 54 por cento dos casos.
Quanto aos pais dos bebés, a idade média em 78,6 por cento dos casos era superior à da mãe (média 21 anos) e 70 por cento não tinha actividade laboral.
A gravidez foi vigiada em 68 por cento dos casos, sendo 43 por cento exclusivamente na MAC, embora tardiamente. Houve sete por cento de gravidezes não vigiadas.
Verificou-se que 8,6 por cento dos partos foram prematuros, não havendo diferenças estatisticamente significativas em relação aos dados globais da Maternidade.
Pelo contrário, o número de partos por cesariana e fórceps foi significativamente inferior, adiantou a médica pediatra, acrescentando que não ocorreram asfixias nem óbitos.
Ainda segundo o estudo, apenas 1,1 por cento dos recém- nascidos tiveram malformações congénitas e quatro por cento dos bebés foram internados na Unidade de Neonatologia.
Tiveram alta com as mães 95,4 por cento das crianças, tendo um sido encaminhado para adopção. Duas crianças vivem com familiares e duas vivem com a mãe em centros de acolhimento.
O estudo acrescenta que na data da alta, estavam a ser amamentados 93 por cento dos recém-nascidos e que o tempo total médio de amamentação foi de 53 dias.
Cristina Matos disse ainda à Lusa que os jovens sabem que existem métodos contraceptivos, mas não os usam porque pensam que "só acontece aos outros".
"Eles iniciam a vida sexual cada vez mais cedo. Na grande percentagem das raparigas que engravidam isso acontece nos primeiros seis meses após iniciarem a vida sexual", sublinhou.
Para Fátima Xarepe, este problema é transversal a todos os níveis: "as pessoas não se encontram para comunicar, não se apoiam no dia-a-dia e estas raparigas sentem-se muito sozinhas e abandonadas e a gravidez vem preencher vazios afectivos".