Estudantes portugueses encontram em Santiago de Compostela porta de entrada para curso de acesso muito difícil em Portugal

Estudantes portugueses encontram em Santiago de Compostela porta de entrada para curso de acesso muito difícil em Portugal

Depois de dois anos a "marcar passo" em cursos que pouco ou nada lhe diziam, Andreia, natural da Póvoa de Varzim, conseguiu finalmente concretizar o sonho de entrar em Medicina, mas pela porta da Faculdade de Santiago de Compostela, em Espanha.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Tal como a Andreia Castro, outros 49 alunos portugueses começaram esta semana a frequentar o 1º ano de Medicina naquela faculdade galega, ocupando um sexto das vagas existentes (300), numa "invasão lusa" fortemente criticada e contestada pelos pais dos estudantes espanhóis que por milésimas não tiveram direito a matricular-se naquele estabelecimento de ensino de Santiago de Compostela.

Com 20 anos, Andreia já "navegou" um ano em Biologia e outro em Ciências do Meio Aquático, mas "sempre à espreita" de uma oportunidade para entrar em Medicina, o curso dos seus sonhos.

Face às médias "proibitivas" exigidas nas universidades portugueses, tentou a sua sorte também em Espanha, onde este ano o seu 8,6 (a escala é de um a 10) lhe deu direito a ocupar uma das 300 vagas disponíveis na Faculdade de Medicina de Santiago de Compostela.

"O acesso foi directo. Matriculei-me com as notas que tinha em Portugal e não fiz qualquer outra prova de selectividade ou de competência linguística. A minha média era superior à exigida e cá estou", referiu, à Lusa, a estudante.

Neurocirurgia é, neste momento, a área da Medicina que mais a atrai, mas admite que, com o tempo e com o contacto directo com os hospitais, "as coisas podem mudar".

Andreia Castro divide um apartamento com mais cinco colegas, pagando cada um 167 euros por mês.

Nesta fase inicial, e pelo menos até Novembro, virá todos os fins-de-semana a casa, numa viagem de autocarro que chega a demorar perto de quatro horas.

Um bilhete de ida-e-volta custa 34 euros.

Com apenas dois dias de universidade, Andreia confessa que ainda nem sequer teve tempo para conhecer os cantos à casa, quanto mais para se aperceber de uma eventual hostilidade dos alunos galegos em relação aos portugueses, por estes lhes terem ido ocupar as "suas" vagas.

"Para já, não notei nada disso", afirma, manifestando-se, no entanto, convicta de que "vai tudo correr bem".

Nas salas de aula e nos corredores da Faculdade de Medicina de Santiago de Compostela, o galego e o português misturam-se e chegam mesmo a confundir-se.

Isto equivale a dizer que não será por problemas de língua que os alunos dos dois países não se vão entender, até porque, pelo sim pelo não, quase todos os alunos lusos fizeram cursos intensivos de espanhol.

"Com um mês de adaptação, estamos a falar galego como eles", garante Ivo Gomes, 20 anos, igualmente da Póvoa de Varzim, que decidiu abdicar dos dois anos em que andou em Veterinária, em Portugal, para também ele abraçar a Medicina com que sempre sonhou.

"Como o meu 17,7 não dava para entrar em Portugal, vim para aqui, não só por ficar relativamente perto de casa mas também porque já tinha ouvido falar muito bem desta faculdade. É juntar o útil ao agradável", salienta.

Problemas de língua é coisa que não terá, com toda a certeza, Carla Pereira, 21 anos, natural de Fafe, que já fez dois anos de Medicina na República Dominicana mas que agora decidiu mudar para Santiago de Compostela, para "encurtar distâncias".

"Oito mil quilómetros era muito quilómetro, só podia vir a casa de quatro em quatro meses, as viagens custavam entre os 500 e os mil euros, dependendo da época, as saudades da família apertavam, era muita coisa junta", sustenta Carla.

Por isso, e mesmo sabendo das dificuldades que terá em conseguir equivalência dos dois anos que já fez na República Dominicana, decidiu mudar-se para Santiago de Compostela, aproveitando a sua média de 18 (9 em Espanha).

"Se for preciso começar de novo, que remédio", admite conformada.

Carla Pereira, neste momento, sente-se "mais virada" para a medicina interna e familiar e para a pediatria.

Como todos os colegas portugueses, divide um apartamento com mais três alunos, tendo cada um que pagar, no final do mês, 195 euros.

Aos fins-de-semana, conta aproveitar a boleia de um seu conterrâneo para vir a casa, também neste caso dividindo despesas de combustível e de portagens.

"Só em portagens, são 15 euros", diz.

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