Estudo pioneiro com alunos revela que ar de espaços interiores é mais perigoso do que da rua
Mais de 200 alunos do ensino secundário mediram a qualidade do ar a que estão expostos e concluíram que ambientes interiores são mais perigosos para a saúde do que exteriores, mesmo tendo em conta a poluição dos automóveis.
Esta foi uma das conclusões do programa, inédito a nível europeu, "EuroLifenet - Ambiente/Saúde/Cidadania: Educação para o desenvolvimento sustentável", que foram hoje apresentadas.
Mais de 600 alunos de escolas do ensino básico e secundário de Portugal e Itália levaram a cabo o primeiro estudo em larga escala sobre a exposição pessoal ao poluente atmosférico PM2.5 (as partículas mais pequenas suspensas no ar), um dos que maior impacto tem na saúde humana, nomeadamente na sua relação com as doenças respiratórias.
Pedro Ferraz de Abreu, presidente do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia (CITIDEP), um dos envolvidos no projecto, destacou o facto de esta ser a primeira vez que se faz um estudo de exposição pessoal, o que permite aferir a qualidade do ar dos meios em que as pessoas vivem, e que em 80 por cento dos casos são espaços fechados.
Relativamente aos alunos envolvidos, que transportaram permanentemente um pequeno aparelho de medição da qualidade do ar, foi tido em conta se se deslocavam em carro, transportes ou a pé, se havia fumadores nos espaços que frequentavam e se habitavam em zonas com trânsito.
Os percursos traçados foram essencialmente escola (interior e exterior), rua, transporte e as diferentes divisões da casa.
"Este estudo demonstrou que se não fizermos este tipo de medições, não damos real dimensão à qualidade do ar a que os indivíduos estão expostos", disse Pedro Ferraz de Abreu, acrescentando que o projecto em causa constitui um "potencial de paradigma de medição de qualidade do ar, que poderia, no futuro, envolver todo o tecido escolar".
Para este investigador do MIT, apesar de o ar das cidades ser muito poluído, designadamente por causa dos automóveis, este estudo revelou que de uma maneira geral o ar interior é mais perigoso para a saúde, sobretudo quando há fumadores, do que o exterior, onde há circulação de ar.
"Um cigarro aceso no interior de uma casa atinge um nível de poluição que demora muito mais tempo a desaparecer do que em espaços abertos", exemplificou.
As cozinhas são também zonas da casa que alcançam picos elevados de partículas 2.5, revela o estudo, apontando para a importância de se arejar com frequência os espaços fechados.
O responsável adiantou que já está em cima da mesa uma proposta para alargar a 15 cidades europeias este estudo, em que Portugal e Milão (Itália) foram os pioneiros.
Apesar do sucesso alcançado, o presidente do CITIDEP lamentou a falta de apoios efectivos para o desenvolvimento do projecto, que podem inclusivamente inviabilizar que o mesmo seja desenvolvido a uma escala mais alargada.
"De um modo geral, houve predisposição das instituições para apoiarem o estudo, mas não existiu na prática uma compreensão das necessidades, não existiu um apoio real ", disse.
Como exemplo, referiu o caso dos professores envolvidos, que deveriam "ver o trabalho reconhecido e como parte da sua actividade curricular, pois se é encarado como um extra, pode-se fazer uma vez, mas não se repete".
"Estamos a fornecer conteúdo que deve ser agarrado. Este trabalho tem que ser parte do currículo, pois mais do que ciência experimental, estamos a pôr os alunos a fazer ciência real. Eles aprendem e simultaneamente os resultados vão ter uma aplicação real", frisou.
O "Programa EuroLifeNet - Ambiente/Saúde/Cidadania: Educação para o Desenvolvimento Sustentável" envolveu alunos e professores de três regiões de Portugal (Viana do Castelo, Açores e Lisboa e Vale do Tejo).
Para tal, estudantes das escolas secundárias Maria Amália Vaz de Carvalho e Pedro Nunes (Lisboa), Anselmo de Andrade (Almada), Ponte de Lima, Rocha Peixoto (Póvoa do Varzim) e Jerónimo de Andrade (Angra do Heroísmo, Açores) recolheram pela primeira vez as partículas 2.5 suspensas no ar.
Os alunos fizerem a medição do ar com pequenos aparelhos emprestados pelo Instituto para o Ambiente e a Sustentabilidade (IES), da Comissão Europeia.
Paralelamente foi feita uma recolha de ar também nas escolas, através de aparelhos fixos, emprestados por Itália e colocados nos estabelecimentos de ensino.
Este estudo surgiu da necessidade de avaliar o impacto na saúde da poluição atmosférica, em particular na União Europeia, e alertar para a necessidade urgente de melhorar a qualidade do ar.
Redes de Cientistas na UE têm vindo a alertar para o agravamento drástico das doenças respiratórias, sobretudo entre jovens, e da sua relação com o aumento da poluição do ar.
As partículas pequenas (as que medem menos de 2.5 micrómetros) podem acumular-se no sistema respiratório e estão associadas a diversos efeitos negativos na saúde, como o aumento de doenças respiratórias e a diminuição do funcionamento pulmonar, e no meio ambiente.
O EuroLifeNet contou com o apoio do Ciência Viva, Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, da Secretaria de Estado da Educação, e da Secretaria de Estado do Ambiente.
O Centro de Investigação de Tecnologias de Informação e Democracia Participativa (CITIDEP) coordenou o programa, que contou ainda com a participação do IES, da Escola Superior de Educação de Viana do Castelo, da Faculdade de Ciências e Tecnologia (Universidade Nova de Lisboa), Instituto de Ciências Sociais (Universidade de Lisboa) e departamento de Física da Universidade do Minho.