Ex-autarca chama mentiroso ao procurador perante os jornalistas mas não repete no tribunal
Marco de Canaveses, 25 Fev (Lusa) - O ex-presidente da Câmara do Marco de Canaveses, Avelino Ferreira Torres, acusou hoje o procurador do Ministério Público de "mentir" nas alegações finais do processo em que está a ser julgado mas, no interior do tribunal, não repetiu a acusação que fez perante os jornalistas.
"O senhor procurador é que tem de pedir desculpa das mentiras que disse ali. O procurador mentiu", afirmou o ex-autarca num intervalo da audiência e no exterior da sala.
"Ele dava a impressão que estava num comício. Não sei se sabem que ele foi candidato à Câmara de Vila Nova de Foz Côa e perdeu. É por isso que ele anda assanhado", acrescentou Avelino Ferreira Torres.
O procurador disse nas alegações finais que ficaram provados quatro crimes - corrupção, peculato de uso, abuso de poder e extorsão, tendo retirado dois de abuso de poder, um deles por terem prescrito os factos.
Avelino Ferreira Torres disse aos jornalistas "que o procurador mentiu em quase tudo o que disse". O ex-autarca anunciou que quinta-feira vai prestar declarações relativamente a duas queixas-crime que tem contra o procurador Remízio Melhorado "por ele não ser isento".
"Eu julguei que os procuradores eram todos sérios e este não está a ser", acrescentou.
Terminadas as alegações da defesa, a juíza-presidente deu a palavra ao arguido mas advertiu-o que só poderia defender-se de factos que ainda não tivessem sido referidas no tribunal e que não poderia dirigir-se directamente ao procurador do Ministério Público.
No interior da sala de audiências, Avelino Ferreira Torres respeitou as regras ditadas pela juíza e não ousou chamar mentiroso ao procurador.
"O procurador comecou bem e terminou mal", disse Torres, acusando o Ministério Público de "ter sempre aquela espada apontada ao Avelino Ferreira Torres".
"Quero pedir desculpa por alguma coisa que aqui se passou e em que eu tivesse feito de modo incorrecto", desculpou-se, dirigindo-se à juíza-presidente, Teresa Silva.
"Ao senhor doutor procurador não peço desculpa nenhuma", frisou.
Quer a defesa do autarca quer o próprio arguido tentaram descredibilizar a testemunha José Faria, em cujo testemunho assenta a argumentação do Ministério Público para imputar a Avelino Ferreira Torres o crime de extorsão, o mais grave de todos, com uma moldura penal de três a 15 anos de prisão.
A defesa também alegou que relativamente ao crime de corrupção, a existir ilícito foi em benefício de um clube de futebol.
"Há um cheque entregue ao arguido que este deposita na sua conta", insistiu o Ministério Público.
"Não são as especulações do senhor procurador que fazem prova", retorquiu o mandatário de Avelino Ferreira Torres, Nuno Brandão.
O advogado de defesa pediu a absolvição de todos os crimes imputados ao arguido, assegurando que este "não teria nenhum interesse em utilizar Faria como "testa de ferro".
"Até haveria risco. Corre-se o risco de um dia [o testa de ferro] não honrar a palavra", aludiu.
No encerramento da audiência, Avelino Ferreira Torres lamentou ter ido para a campanha de Amarante, em 2003, e ter perdido o controlo sobre José Faria, de quem "foi muito amigo e ajudou a recuperar da dependência do álcool".
Sem esclarecer as razões da zanga entre ambos, o ex-autarca afirmou ao tribunal "que o início deste processo começou com um negócio de cabritos, na Feira Nova", acusando a família de José Faria de influenciar o seu antigo subordinado.
O tribunal do Marco de Canaveses agendou a leitura do acórdão para 26 de Março.
JDS