Ex-governante socialista reprova apelo de Sócrates
Atribuir incentivos à compra de painéis solares fotovoltaicos, conforme foi anunciado ontem pelo primeiro-ministro na Póvoa de Varzim, "é uma fraude", que resulta de "falta de competência técnica no Governo, por falta de assessoria, aconselhamento", garante o autor da política energética do Governo. Oliveira Fernandes e outros dois especialistas acusam a empresa de painéis solares de fazer "publicidade enganosa".
"O site diz que o sistema deles funciona com sol, céu nublado, chuva e à noite. Vê-se logo que não é solar. É por isso que tenho vergonha deste país", comenta Oliveira Fernandes, antigo secretário de Estado do Ambiente e da Economia, presidente da Agência de Energia do Porto e professor da Faculdade de Engenharia do Porto. A bomba dos painéis fotovoltaicos precisa de electricidade para funcionar e produz o dobro da energia que consome, "o que é um valor ridículo", sustenta.
Oliveira Fernandes considera que o primeiro-ministro e o ministro da Economia foram mal informados sobre o processo de funcionamento dos painéis da empresa "Energie", que anuncia no seu site ter conseguido superar a "limitação" dos painéis solares tradicionais, que requerem o calor do sol para funcionar. O primeiro-ministro lançou um apelo à compra de painéis solares, como os que são produzidos pela "Energie" para "combater a crise" para poupar dinheiro na factura energética, poupar nos recursos naturais e para "dar emprego a portugueses".
"Estar a utilizar as verbas que foram anunciadas para a energia solar como incentivos para a compra de painéis fotovoltaicos é uma fraude", afirmou à Lusa o docente universitário, que aconselha adopção de colectores solares, dadas as características do clima em Portugal. "Muitos dos colectores solares também precisam de uma bombinha. Mas, em média, a energia que captam do Sol é 50 vezes superior à que consomem. A relação é de dois para 50. Não estamos a falar do mesmo campeonato", concluiu.
A tecnologia da "Energie" é eficiente mas "não é energia solar", sustentam Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal e da Sociedade Portuguesa de Energia Solar, e Manuel Collares Pereira, antigo investigador do INETI e director da fabricante de painéis solares térmicos "Ao Sol", citados pelo "Público".
Os painéis solares da empresa da Póvoa de Varzim usam um condensador e um evaporador com recurso a electricidade, com apoio secundário de energia solar, em vez de recorrer essencialmente a um painel solar térmico. Por isso, os especialistas consideram que este sistema não é considerado como movido a energia solar.
Empresa mostra certificados térmicos
A empresa de painéis solares recorre a certificações passadas por marcas internacionais para produtos solares térmicos, para fazer prova do "produto da Energie como sistema solar térmico". Além disso, garante que "os painéis que a Energie vai vender com base no protocolo assinado com o Governo são certificados como sistema solar térmico".
A "Energie" refere ser líder em Portugal na comercialização de painéis solares termodinâmicos e quer duplicar a capacidade de produção anual, para 24 mil painéis. Entre outros objectivos a atingir encontram-se a redução das importações dos complementos utilizados na produção dos painéis e aumentar o controlo de qualidade destes mesmos complementos, segundo informações da empresa. Para este objectivo, a direcção da "Energie" convidou o primeiro-ministro para presidir à cerimónia de lançamento da primeira pedra da segunda fase do seu complexo industrial.
As novas instalações vão ocupar 3.000 m2, requerendo o investimento de quatro milhões de euros, que poderão ser requeridos junto do Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN).