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Freitas sai após um ano polémico e difícil da diplomacia portuguesa

Freitas sai após um ano polémico e difícil da diplomacia portuguesa

Freitas do Amaral, que hoje se demitiu dos Negócios Estrangeiros por razões de saúde, teve um mandato de um ano e três meses de grande notoriedade pública, marcado por polémicas, fortes ataques da oposição e desafios complexos para a diplomacia portuguesa.

Agência LUSA /

O fundador dos democratas-cristãos portugueses (CDS) foi, desde logo, considerado a principal novidade do governo socialista de José Sócrates, não apenas pelo percurso político de direita, mas também pela sua postura fortemente crítica da política externa dos Estados Unidos.

A escolha de Diogo Freitas do Amaral, 64 anos, para a pasta dos Negócios Estrangeiros, em Março de 2005, causou surpresa - e críticas da oposição de centro-direita - dadas as censuras que tinha feito publicamente à administração norte-americana e, em particular, à invasão do Iraque.

O impacto dessa nomeação ultrapassou fronteiras, com o influente Financial Times a noticiar a composição do Governo português num artigo intitulado "Crítico dos Estados Unidos vai ser o novo ministro dos Negócios Estrangeiros português".

Vários comentadores e membros da oposição vaticinaram na altura que as "posições anti-americanas" de Freitas do Amaral podiam colidir com a tradicional prioridade dada à relação transatlântica na política externa portuguesa, mas o Governo esforçou-se por reafirmá-la e dissipar todos os receios.

Logo no seu discurso de posse, José Sócrates afirmou o empenho em "aprofundar as relações de amizade e cooperação com os Estados Unidos" e, em várias ocasiões, Freitas do Amaral argumentou que "as atitudes mudam com as circunstâncias", dando como exemplo o inédito discurso multilateralista de George W. Bush na visita que fez à Europa dois anos depois da invasão do Iraque.

Menos de um mês depois de tomar posse, Freitas do Amaral encontrou-se com a sua homóloga norte-americana, Condoleezza Rice, à margem de uma reunião da NATO, em Vilnius e, dois meses depois, foi recebido por ela em Washington, em visita oficial.

Em Janeiro deste ano, Freitas do Amaral fez estalar aquela que foi talvez a polémica mais visível do seu mandato, ao dizer que compreendia a revolta dos muçulmanos com a publicação de caricaturas do profeta Maomé, esquecendo-se de condenar a violência dos protestos realizados em vários países árabes.

Em declarações posteriores, Freitas do Amaral foi repetindo que condenava a violência em todas as circunstâncias e que não precisa de o dizer, mas, quase um mês depois, admitiu no parlamento ter sido "um esquecimento", mantendo, no entanto, que a reacção islâmica era "condenável, mas compreensível".

Alvo de todas as críticas, embora sempre com o apoio do primeiro-ministro, Freitas do Amaral viu a situação agravar-se quando o embaixador iraniano em Lisboa, no meio de uma entrevista à Antena 1 em que questionou nomeadamente o Holocausto, elogiou a posição do ministro sobre as caricaturas.

"O senhor Amaral disse coisas muito boas e lógicas", afirmou o embaixador, levando o líder da oposição social-democrata, Marques Mendes, a ver neste elogio uma prova de que, nesta questão, "o governo andou mal" e Freitas "meteu o pé na argola".

Freitas do Amaral confessou à Lusa, há dois meses, que lhe custou mais "a falta de classe com que alguns sectores acolheram" a sua entrada no Governo do que propriamente as "reacções histéricas" às caricaturas.

Entre os êxitos do seu mandato, iniciado em Março de 2005, o ministro destacou à Lusa a "negociação das perspectivas financeiras da União Europeia para 2007-2013", referindo ainda os acordos de cooperação assinados com as Fundações Aga Khan e Bill Gates e a conclusão do acordo com o Governo de Moçambique sobre a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, que estava a ser negociada há 30 anos.

Freitas referiu ainda as reformas internas no Ministério, a nova linha de política de aproximação aos países árabes moderados, a entrada de Portugal para a organização dos Estados Ibero-Americanos ou a escolha de António Guterres para Alto-Comissário da ONU para os Refugiados.

A "situação económico-financeira muito grave e de estagnação económica", que disse ter motivado a sua entrada no Governo, levou-o a definir a diplomacia económica como uma prioridade.

Um ano depois de ter tomado posse, afirmou que esta nova vertente já estava "a dar os seus frutos" e apontou com exemplo "o grande número de contratos de investimento que foram assinados com empresas estrangeiras" no primeiro trimestre deste ano.

A outra prioridade da política externa conduzida por Freitas do Amaral foi, como aconteceu com todos os seus antecessores dos últimos anos, a União Europeia, a que Portugal vai presidir exactamente daqui a um ano.

Na mesma entrevista dada à Agência Lusa há dois meses, quando fazia o balanço de um ano de mandato à frente dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral afirmou que se manteria no cargo enquanto fosse útil e a saúde lhe permitisse.

"Não me considero politicamente morto, acho que ainda posso ter alguma coisa a dar ao meu país e, enquanto for considerado útil e a saúde aguentar, estou disponível", disse.

Dias depois, Freitas do Amaral admitia ao Expresso que poderia já não desempenhar as funções de ministro dos Negócios Estrangeiros quando Portugal exercesse a presidência da União Europeia (UE), no segundo semestre de 2007.

Interrogado sobre se gostaria de ser ministro dos Negócios Estrangeiros no período da presidência portuguesa da União Europeia, Freitas do Amaral deu a seguinte resposta: "sim e não".

"Sim" porque "é sempre uma experiência extraordinariamente enriquecedora, embora cansativa" e "não" porque "posso dizer que não seria mais importante do que várias outras coisas que fiz na vida. Já estou na vida política há 32 anos, já fiz praticamente tudo aquilo que se pode fazer", respondeu.

Na entrevista à Lusa, Freitas do Amaral resumiu assim o seu mandato: "Acho que foi um ano cheio, de trabalho de uma equipa com uma grande competência e experiência acumulada. Temos razões para estar satisfeitos, mas estou consciente de que há muito mais para fazer porque cada novo ano que entra é um novo desafio".

Diogo Freitas do Amaral nasceu na Póvoa de Varzim, a 21 de Julho de 1941, numa família católica e próxima do antigo regime.

Recentemente, no Congresso da Democracia, que assinalou os 30 anos do 25 de Abril, defendeu que Portugal deve limitar a sua participação militar em missões de paz aos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), sugeriu fechar embaixadas e apontou a União Europeia como a prioridade da política externa portuguesa.

Casado, pai de quatro filhos, o professor de Direito emergiu para a política portuguesa logo após o 25 de Abril, quando fundou o Centro Democrático Social (CDS) e formou, com Álvaro Cunhal, Mário Soares e Francisco Sá Carneiro o quarteto civil do Processo Revolucionário em Curso (PREC).

Na sua travessia política em direcção ao centro ideológico, governou com o PS e com o PSD, foi candidato derrotado à Presidência da República, foi presidente da assembleia-geral das Nações Unidas e liderou por vários períodos o CDS - do qual se desfiliou em Novembro de 1992.

Em 1977, três anos depois de fundar o partido, fez um acordo com o PS e levou os democratas-cristãos ao II Governo Constitucional, presidido por Mário Soares, experiência interrompida em 1979, ano em que fez a Aliança Democrática (AD) com o PSD de Francisco Sá Carneiro.

A coligação ganhou as legislativas e, em 1980, Freitas do Amaral ascendeu a vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros.

Com a morte de Sá Carneiro no final desse ano, a AD ficaria também ferida de morte, e Freitas deixou o Governo depois de assegurar durante um mês as funções de primeiro-ministro, cargo que seria ocupado por Francisco Pinto Balsemão.

Voltaria oito meses depois para o lugar de vice-primeiro- ministro e para a pasta da Defesa, cessando essas funções em 1983.

Ressurgiu em força como candidato às presidenciais de 1986, para as quais partiu como vencedor, mas acabaria derrotado por Mário Soares na segunda volta.

Depois da derrota, retirou-se da primeira linha da vida política, à qual voltaria entre 1988 e 1991, anos em que regressou à liderança do CDS.

Pela mão de Durão Barroso, Freitas do Amaral chegou depois às Nações Unidas. Foi o então ministro dos Negócios Estrangeiros que lançou a sua candidatura vencedora a presidente da 50ª Assembleia- Geral das Nações Unidas.

De regresso a Portugal, Freitas do Amaral dedicou-se ao lançamento da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e, em 2002, declarou o seu apoio ao PSD e a Durão Barroso nas eleições legislativas.

A poucos dias do início oficial da campanha eleitoral para as legislativas de 20 de Fevereiro de 2005, Freitas do Amaral surpreendeu ao apelar ao voto no PS, defendendo mesmo uma maioria absoluta socialista para evitar "prolongar a agonia de um país que merece melhor sorte".

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