Gaspacho e cavacas garantem distinção de Portugal no Guinness
Do maior gaspacho à maior bicicleta, várias proezas inscrevem no livro mundial dos recordes do Guinness os nomes de portugueses, que procuram um melhor emprego, promover um estabelecimento ou angariar dinheiro por solidariedade.
"Para o bem e para o mal, somos um povo virado para o Guinness", comentou à Lusa o psicólogo clínico Marcelino Mota, referindo que Portugal é também recordista nos acidentes rodoviários e nos incêndios.
Na edição comemorativa dos 50 anos do Guinness, lançada no ano passado, constam 24 referências a feitos portugueses, desde o maior reinado - o de Dom Afonso Henriques, durante 73 anos e 220 dias - ao maior logótipo humano - 34.309 pessoas que formaram o símbolo do Euro2004.
Uma proeza que ainda não figura no livro de recordes, mas cuja candidatura está prestes a ser formalizada, é a "maior sopa do mundo", um "gaspachão" com 4.524 litros, cozinhado em Julho, em Cercal do Alentejo, Santiago do Cacém.
A iniciativa partiu da Liga dos Amigos do Cercal do Alentejo e da Associação dos Bombeiros Voluntários locais, e pretendeu angariar fundos para pagar uma ambulância medicalizada, no valor de 70 mil euros.
A gigantesca receita, que incluiu 900 quilos de tomate, 337,5 quilos de pimento, 525 quilos de pepino e 2500 litros de água, não acarretou quaisquer custos para os organizadores, já que os alimentos foram doados por comerciantes da zona, afirmou à Lusa uma das promotoras, Maria dos Anjos Polícia.
Para promover a cidade e a doçaria regional, a Associação Comercial das Caldas da Rainha construiu, em Junho, uma pirâmide com 48.900 cavacas e 25 metros de altura.
Na confecção das cavacas, o doce típico da região, foram utilizados 1.800 quilos de farinha de trigo, 700 quilos de farinha de milho, 33.600 ovos, 2.800 quilos de açúcar, 65 quilos de margarina, 34 quilos de fermento, duas toneladas de gás, 5.000 metros de arame, 1.500 caixas de cartão e 5.000 luvas, todos cedidos gratuitamente.
O feito trouxe benefícios para o produtor das cavacas, que "teve um aumento de vendas" e acabou por provocar "uma revitalização do consumo dos doces, nomeadamente entre os jovens, que não tinham tanto esse hábito", disse Ricardo Roque, da associação comercial.
Se a tentativa de entrar para o Guinness só está ao alcance de poucos portugueses, António Rito, gerente de um restaurante em Maximinos, Braga, quer inscrever o seu nome com quatro proezas.
"Sou especialista a fazer francesinhas e pensei promovê-las, fazendo uma gigante. Como sou um bocado aventureiro, decidi divulgar as quatro especialidades do meu restaurante", explicou.
Ao longo de quatro sábados consecutivos António Rito fez a maior francesinha, com 2,5 metros por 2,5 metros, os maiores pratos de marisco e de petiscos regionais, com 3,80 metros de diâmetro cada, e o maior cachorro, com cem metros de comprimento.
"Já me disseram que estou sujeito a bater um quinto recorde, como a pessoa que mais recordes quebrou num mês", afirmou.
As quantidades de ingredientes são astronómicas, mas António Rito garante que não terá prejuízo: além dos diversos patrocínios, cada pessoa paga dez euros para ter direito a um prato de cada especialidade.
Se algumas provas exigem o esforço e o empenho dos candidatos, outros recordes são absolutamente inesperados, mesmo para os visados.
Que o diga Amílcar Reis Mendes, de Casal Branco, Ourém, que descobriu que era dono dos maiores chifres do Mundo, quando o seu bode entrou para o Guinness com o maior par de chifres, que, na altura (09 de Abril de 2002), mediam 1,09 metros de ponta-a-ponta.
Também o ilusionista Luís de Matos entrou para a categoria de "mais não-mágicos ensinados a fazer um truque num único local", apesar de não ter planeado candidatar-se ao Guinness.
O ilusionista fez "desaparecer" em simultâneo 52.001 lenços de seda azuis - tantos como os espectadores presentes na cerimónia de inauguração do Estádio do Dragão, no dia 19 de Novembro de 2003.
"Tudo surgiu com a proposta de criar um espectáculo o mais irrepetível possível. O lado insólito da ilusão criada remeteu-nos para o imaginário do Guinness", o que justificou a candidatura, explicou o ilusionista, considerando que este é "um momento histórico associado àquele estádio e ao clube (o Futebol Clube do Porto)".
Para o psicólogo clínico Marcelino Mota, entrar no Guinness "é uma forma de melhorar a auto-estima pessoal por fazer parte de algo que hipoteticamente vai melhorar a auto-estima colectiva".
Na opinião do especialista, "vive-se a obsessão pela fama, o instantâneo e o fácil", na era do "fast", dominada pela televisão.
"Ninguém procura a fama com estudo, trabalho ou dedicação, porque isso não rende. O que rende é a exposição imediata do corpo ou dos sentimentos, ou a participação em experiências que tenham uma natureza aberrante ou excêntrica, como os recordes", afirmou à Lusa.
A consagração por um livro famoso como o Guinness só requer, sustentou, "esforço físico, trabalho braçal e um pouco de organização".
Os motivos para concorrer são diversos, desde os mais filantrópicos ou meramente casuais às proezas para conquistar os "15 minutos de fama".
Foi à procura de uma "oportunidade" no mundo da música que Valter Antunes, de Santarém, bateu o recorde ao tocar viola baixo durante 43 horas seguidas, superando em uma hora o máximo atingido pelo músico argentino Guillermo Terraza.
Com 27 anos, Valter Antunes pretendia fazer "uma coisa maluca" para se tornar conhecido.
Apesar de considerar que "valeu a pena", menos de dois meses após o feito, o recordista já foi contactado por alguns "músicos famosos" e "foi à televisão", mas ainda não conseguiu assinar um contrato.
A ideia de construir uma bicicleta com 65 lugares surgiu-lhe após ter lido, numa revista de ciclismo, que um americano tinha feito uma bicicleta para 55 pessoas.
Dois anos e meio depois, Vítor Marques, de Ferreira do Alentejo, bateu o recorde, após 65 "ciclistas" terem percorrido um quilómetro ao (único) volante da +big bike+, a 05 de Março deste ano.
O sonho de alcançar o Guinness era antigo para o pedreiro alentejano, que aos 26 anos tentou quebrar o recorde de maior número de horas seguidas a pedalar, mas as forças faltaram-lhe ao fim de cem horas, cinco a menos que as necessárias.
Outras tentativas de bater recordes incluem um pão com chouriço com 975,40 metros de comprimento e cerca de oito toneladas de peso, a maior broa do Mundo, com 402 metros e 4.190 quilos, o maior tempo de imobilidade voluntária (20 horas e 11 minutos) e uma caldeirada para 400 pessoas, com 300 quilos de peixe.
Com tantos feitos, Portugal arrisca-se a bater o recorde do paísÓ com mais inscrições no Guinness, mas talvez não se consiga qualificar para o recorde da proeza mais original.
Na secção de "feitos incríveis" do Guinness descobrem-se recordes como o do grito mais alto, com 129 decibéis, produzido por Jill Drake (Reino Unido), o beijo mais longo, de um casal de jovens americanos, que se prolongou ininterruptamente por 30 horas, 59 minutos e 27 segundos, a "dieta" à base de metal e vidro de Michael Lotito (França), ou as 153 molas de roupa que o britânico Garry Turner prendeu na cara.