Governo revela que onda de calor já provocou 63 mortes acima do esperado

Governo revela que onda de calor já provocou 63 mortes acima do esperado

A secretária de Estado da Saúde admite excesso de mortalidade associado à onda de calor que afetou o país na semana passada.

Andreia Brito com Frederico Moreno /

Fotografia: Kenia Nunes

No programa da Antena 1, Consulta Pública, Ana Povo relembra que “só daqui a 10 dias vamos ter a contabilização total do excesso de mortalidade nesta onda de calor”, mas revela que “a 6 de julho tínhamos mais 63 mortes do que o esperado neste período”.

Durante o programa referiu ainda que os dados do INEM e da Linha SNS 24 revelam uma “maior procura” por parte da população dos serviços de saúde. Diz mesmo que quando a Direção-Geral da Saúde ativou o nível 2 de contingência do plano da saúde, que indica risco elevado para a saúde devido às temperaturas elevadas, “em alguns locais começou-se a ver um ligeiro aumento da afluência, mas não significativo”.

Na opinião de Ana Povo a preparação do país para as ondas de calor que vão ser mais e mais intensas passa por um compromisso de toda a sociedade. “Isto é quase preparar o Serviço Nacional de Saúde para responder como na pandemia. Vamos ter que pôr o foco na resposta mais urgente e menos na resposta programada”, afirma.

A Associação dos Médicos de Saúde Pública estima também que o número de mortos, vítimas das temperaturas altas, possa aumentar por causa da onda de calor. Daniel Resendes, médico e membro da associação, defende que “é expectável um aumento da mortalidade associada ao calor tendo em conta a pirâmide etária, a carga de doença e os dias que tivermos com onda de calor”. 
Este ano o país já registou sete ondas de calor
Estamos na 7ª onda de calor deste ano. Há um aumento da frequência destes eventos. Este ano é um péssimo exemplo daquilo que vamos enfrentar nos próximos anos”, o aviso é feito por Ricardo Deus.

O chefe de Divisão do Clima e Alterações Climáticas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) indica que “desde 15 de maio, 70% dos dias foram em onda de calor”.

É um novo momento das nossas vidas”, lança o recado, e Ricardo Deus acrescenta que “as temperaturas muito elevadas são uma ameaça silenciosa. Temos de nos adaptar, porque as medidas de mitigação só terão resultados a médio e logo prazo”.

Na opinião de Helena Freitas, coordenadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, “tem de haver uma mudança profunda na forma como vivemos. Há práticas que estamos habituados a ter e que consideramos benignas em termos de clima, mas que deixaram de ser”.

E recomenda uma melhor gestão do território, e dá o exemplo dos incêndios: “é um falhanço das políticas públicas relacionadas com o território. Somos um caso exemplar do pior que se pode fazer no contexto europeu. Temos tudo convergente para funcionar mal”.

A atividade económica associada ao território é estruturante, mas não mantemos a consistência nestas áreas e o Estado fica refém de dinâmicas e de lobbies muito poderosos que capturam o Estado e que fragilizam o país”, conclui.

Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal, exemplifica: “acima dos 30 graus, cada grau adicional, pode reduzir a produtividade em 3%. Isto vai ter impacto económico significativo e não estamos preparados para isto”.

O líder da AEP sugere ainda que o calor deve implicar a reorganização do trabalho. Em resposta a essa recomendação a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, defendeu que “quer se queira quer não, a economia também é saúde e vamos ter que, claramente, adaptar o horário de trabalho em algumas situações”.

O parque edificado é muito envelhecido. É preciso reabilitá-lo”, é desde logo a recomendação de Odete Almeida. Para coordenadora Comissão de Especialização em Climatização e Refrigeração da Ordem dos Engenheiros “o ar condicionado não sendo a solução, é a solução para as ondas de calor porque os dados mostram que reduz a mortalidade em 30% e a falta de climatização aumenta em 11% essa mortalidade”.

Sobre esta matéria, Ana Povo, a secretária de Estado da Saúde afirma que a redução do IVA para 6 % na compra de equipamentos de climatização “não terá, infelizmente, o impacto que queremos. Porque a climatização não é só a compra do equipamento, é também a estrutura da casa aguentar a instalação e os custos associados à energia”.

38% das pessoas referem que as casas não são frescas no verão. Deve haver um investimento maior no isolamento dos edifícios, nas janelas eficientes, etc”, os dados foram apresentados por Ana Müller. A técnica da associação ambientalista ZERO defendeu que o Governo, assim como envia mensagens em caso de mau tempo, remeta à população mensagens com indicação da qualidade do ar. Em resposta a secretária de Estado da Saúde diz “vou analisar isso”.

O programa Consulta Pública é moderado por Frederico Moreno. 
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