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Grande Entrevista com psiquiatra Vítor Cotovio. "A maldade não é uma doença" e "todos somos santos e pecadores"
O psiquiatra Vitor Cotovio, diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Casa de Saúde do Telhal, analisou com Vítor Gonçalves, o que leva pessoas a comportamento maldosos e violentos, normalmente vistos com repulsa.
O ponto de partida da entrevista foi o caso das crianças francesas, abandonadas pela mãe na beira de uma
estrada em Setúbal, que comoveu o país nos últimos dias e levantou questões sobre comportamentos maldosos e o que poderá levar adultos a proceder daquela forma.
Ao referir-se à situação, Vítor Cotovio recorreu a uma frase dita por quem socorreu as crianças, Alexandre Quintas, "eles deitaram-nos fora". Lembrou igualmente a frase do filósofo do séc XIX, John Stuart Mill, de que, "para triunfar, o mal apenas precisa da inação das pessoas de bem".
Neste caso, "temos o contraponto" destas ações, "o que significa, a natureza humana", indicou. "Todos somos santos e pecadores".
"Tivemos aqui uma ameaça de destruição, naquilo que é o funcionamento de crianças a crescer, e daquilo que é a salvação, com um abraço". "Um abraço é uma conversa que acontece sem palavras", afirmou o psiquiatra, citando o cardeal Tolentino de Mendonça. É "um coração que escuta o outro coração", a propósito, novamente, de Alexandre Quintas, que abraçou as crianças "para elas sentirem amor".
"As crianças tiveram a oportunidade de oscilar entre 'deitaram-nos fora' e aquilo que é serem resgatadas por um abraço".
O psiquiatra sublinhou a maldade, a vontade de fazer o mal, que a forma de abandono revelou, lembrando o jogo e o ato de vendar as crianças. "Para mim é muito estranho".
"Estas crianças foram traídas", aponta, "porque, quando voltam à realidade [após o jogo], saiu a venda e não estão lá as pessoas significativas".
Pais das crianças "são imputáveis"
Para explicar o que levou os adultos a "deitar fora" as crianças, "podemos pensar em muitas razões", para acautelar juízos precipitados, lembrou o psiquiatra. "Precisamos conhecer a história destas pessoas e entender o que é que se passou ali em contexto".
De qualquer modo, sejam qual forem os motivos, "não justificam a dimensão daqueles factos". "A maldade não é uma doença", sublinhou Vítor Cotovio, reconhecendo que pode ter sido uma demonstração de crueldade, sem qualquer contexto de patologia clínica". Também o fio condutor do que sucedeu com as crianças desde que entraram em Portugal e do procedimento da mãe e do padastro, parecem afastar igualmente um cenário de episódio "psicótico".
"Há dados que reenviam mais para a estrutura de personalidade" e isso tem consequências, "estas pessoas são imputáveis pelos seus actos, porque têm o seu livre arbítrio" intacto.
Ambiente vs biologia
Já na análise do que consiste o entendimento de má contuda, Vítor Cotovio lembrou que "a maldade é social, cultura, antropológica" e que nem um juízos ético é capaz de ter a última palavra, dando como exemplo o ato de roubar, que pode ser despenalizado por circunstâncias específicas.
Pode haver predisposição para atitudes maldosas nalgumas pessoas mais do que noutras, explicou, "é sempre uma mistura de uma predisposição, com oportunidade, com ambiente, com traumas, com abusos".
Isso pode ter um impacto profundo em pessoas com "predisposição cerebral podia ter mais susceptibilidade, e isso está estudado, para ter comportamento mais impulsivos, com menos sentido de moralidade", frisou o clínico.
"Uma pessoa que tenha mais predisposição biológica, se tiver situações traumatizantes ao longo da vida, ela pode abrir essa possiblidade". "Estas predisposições biológicas estão identificadas no cérebro", como o córtex frontal, a amígdala ou a ínsula.
Mas, sublinha, "não há uma área da maldade", lembrando que a experiência de vida é "fundamental". "A predisposição não é igual a um destino moral".
"Quando se identificam pessoas com comportamentos psicopáticos" [num comportamento persistente e disfuncional em todas as circunsânticas], elas em crianças já apresentavam esses comportamentos, de "prazer na maldade", aponta o psiquiatra.
Maldade em grupo
"Quanto mais precocemente se atuar e mais intensamente, maior a probabilidade de se fazer alguma coisa", para atenuar a presdisposição. O objetivo é criar na pessoa a consciência dos atos. "É como se o interruptor da empatia estivesse sempre avariado, não há remorso", exemplificou Vítor Cotovio.
"Nem todo o criminosos é psicopata, nem todo o psicopata é criminoso", frisou.
Nestas doenças de pesonalidade, os fármacos servem para controlar comportamentos, "impulsos" e há ainda terapias para a gestão da raiva e da agressividade. Os choques elétricos, a "eletroconvulsivo terapia", continua a fazer-se, para patologias específicas, referiu o médico e "sob anestesia". "É um dos tratamentos de eleição por exemplo numa depressão gravissima, de uma grávida".
A maldade em grupo é outra faceta, que cria aquilo que Anna Ahrendt sintetizou como "a banalidade do mal", e sob a qual, "qualquer ser humano comum, sob influência de alguém com autoridade ou sob um contexto de representação de papel de grupo, poderia cometer atrocidades". Por "perder o sentido crítico".
A "diluição da responsabilidade" é outro fator coadjuvante, por criar um sentimento de "invulnerabilidade, de impunidade, há a desumanização das pessoas" acrescentou o psiquiatra. "Deixam de ser pessoas que sentimos como pessoas e são pessoas objeto".
"O contexto, a pressão social e a autoridade, podem levar pessoas normais a cometer coisas que não se imaginariam a cometer por diluição de responsabilidade", alertou.
Também. "na dinâmica de grupo há tendência a não aceitar quem faça o contraponto" para chamar à consciência e à responsabilidade. O receio de perder o sentido de pertença pode levar indivíduos a calar-se, mesmo com consciência da maldade.
Quanto maior é o grupo maior o risco de violência. "As redes sociais funcionam com este sentido grupal", avisou e atenuam "a capacidade empática" do indivíduo. Para existir plena conexação com outra pessoa, referiu, é, pelo contrário, necessária "a presença" que envolve "todos os sentidos", criticando a "écranização das relações".
"O funcionamento em grupo é a acetona da inteligência e o fermento da estupidez", referiu o clínico, uma vez que a pessoa passa a funcionar "em espelho", apenas com quem valida a sua ação.
"A pressão ideológica cega é também uma das razões sociológicas para que haja risco de coisas violentas", lembrou, apontando por isso mesmo, "o risco de nacionalismos e de populismo".
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