Humberto Delgado queixou-se em 1946 do Aeroporto da Portela por ser "acanhado"

Humberto Delgado queixou-se em 1946 do Aeroporto da Portela por ser "acanhado"

O fundador da TAP e primeiro responsável nacional da aeronáutica civil, general Humberto Delgado, queixou-se ao governo de Salazar, em 1946, do tamanho "acanhado" do Aeroporto da Portela, revela um documento hoje divulgado pelos Aeroportos de Portugal (ANA).

Agência LUSA /

A polémica entre o "general sem medo" e o Ministério das Obras Públicas do governo de Oliveira Salazar, a propósito das condições de funcionamento do A eroporto da Portela - inaugurado em 1942 -, é um dos elementos constantes na exp osição hoje inaugurada, intitulada "Humberto Delgado e a liberdade dos céus".

A exposição, patente no aeroporto de Lisboa, está integrada nas comemor ações do centenário do nascimento de Humberto Delgado, efeméride também assinala da com o lançamento de um selo e de um livro sobre o candidato opositor ao regim e de Salazar nas eleições presidenciais de 1958, em que foi derrotado de forma f raudulenta.

Numa das partes da exposição, está patente uma carta da "British Overse as Airways", onde a companhia britânica fazia um vigoroso protesto: "querem-nos fora do aeroporto [de Lisboa]", numa alusão às dificuldades em operar na Portela .

Depois, numa carta dirigida ao então Ministério da Guerra, em 1946, Hum berto Delgado adverte que "o tráfego civil está aumentando imensamente dia a dia , o que complica o caso [do funcionamento do aeroporto], com a agravante de que a plataforma de estacionamento actual não poder ser aumentada em largura sem int erferir com as zonas de segurança das pistas, internacionalmente fixadas".

Humberto Delgado solicita então àquele Ministério para se "dignar a dec idir se devem ou não estacionar a título permanente no tão acanhado Aeroporto da Portela aviões militares de treino".

Sessenta anos depois, a capacidade do Aeroporto da Portela para receber tráfego aéreo continua a motivar controvérsia na sociedade portuguesa, com o Go verno a pretender construir um novo aeroporto na Ota contra a opinião dos que de fendem o alargamento da actual infra-estrutura, como o PSD ou a Câmara de Lisboa .

Além da inauguração da exposição, o ministro das Obras Públicas, Transp ortes e Comunicações, Mário Lino, presidiu também no aeroporto de Lisboa ao lanç amento e obliteração do primeiro selo de Humberto Delgado e à sessão de apresent ação do livro "Humberto Delgado e a aviação civil".

"Tinha 18 anos, estudava no Liceu Salazar de Lourenço Marques, em 1958, quando o general Humberto Delgado lançou a sua candidatura presidencial, opondo -se ao regime fascista de Salazar", disse Mário Lino sobre o fundador da TAP, co nsiderando-o um "percursor na luta pela democracia".

Num breve discurso, o autor do livro "Humberto Delgado e a aviação civi l", Frederico Rosa, neto do general, evidenciou a paixão do seu avô pelos aviões .

"Humberto Delgado teve na aviação a sua maior paixão, mas Salazar não g ostava nada de aviões e creio que nunca pôs os pés num avião. Mesmo assim, chamo u Humberto Delgado para responsável nacional da aeronáutica civil, percebendo qu e Portugal tinha que recuperar o seu atraso neste domínio" na década de 40, refe riu Frederico Rosa.

A presidente da Fundação Humberto Delgado e filha do general, Iva Delga do, elogiou as iniciativas que assinalaram o centenário do nascimento do seu pai .

"Deram a Humberto Delgado um passaporte para o século XXI", sustentou.

O selo hoje lançado pelos CTT sobre Humberto Delgado mostra o general p erante uma multidão de apoiantes, que o ouvia num comício no Porto, em 1958, dur ante a sua campanha presidencial.

Da autoria do professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade Té cnica de Lisboa José Brandão, o selo integra a série da colecção "Grandes Vultos " dos CTT, tendo sido impressos 250 mil exemplares.


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