Idosos contribuem para aumento de casos de Sida Portugal
O aumento do número de casos de Sida em idosos contribui para a grande incidência da infecção em Portugal, e está a ser "auxiliado" por medicamentos como o Viagra, de acordo com especialistas.
A propósito do Dia Mundial de Luta contra a Sida, quarta-feira, a agência Lusa questionou especialistas sobre o facto de Portugal ser dos países da Europa com mais casos, coincidindo todos na ideia de que há informação mas não uma mudança de atitudes.
Jorge Cardoso, psicólogo e sexólogo, professor do Instituto Superior de Ciências da Saúde, considera que o facto de terem surgido no mercado medicamentos para combater a falta de erecção (Viagra é o mais conhecido) levou a que muitos homens voltassem a ter uma vida sexual activa, ainda que recorrendo por vezes à prostituição.
Justifica o especialista que, nos casais em que o homem toma Viagra "a maior parte das mulheres já se fechou para a sexualidade", pelo que ele procura o sexo comercial.
"Basta olhar para as páginas dos jornais. Um jornal traz quatro páginas sobre anúncios de prostituição de apartamento, um negócio altamente florescente. E depois há pouca apetência para os idosos aderirem aos preservativos", afirma.
O sexólogo está convencido de que a maioria dos "clientes" da prostituição são os mais velhos, porque para os jovens é mais fácil envolverem-se sexualmente "e porque os idosos foram por norma iniciados com prostitutas".
Depois, acrescenta, com as novas medicações anti-retrovirais (combate à Sida) os idosos julgam que a doença é "para se ir gerindo", pelo que quem tem 60 anos pensa que, ainda que a contraia, a medicação irá permitir-lhe viver o tempo "normal" que lhe resta.
Também Fausto Amaro, sociólogo (professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas) e especialista na questão da Sida, salienta o recurso à prostituição de pessoas mais idosas, as mesmas que "não foram educadas para a Sida".
Meliço Silvestre, encarregado de missão da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida, manifesta-se preocupado com a incidência junto dos mais velhos, explicando que a ideia que estes têm é a de que doença é própria dos homossexuais, toxicodependentes e hemofílicos.
"Foi a ideia que ficou marcada" quando se começou a falar de grupos de risco, ao invés de comportamentos de risco, afirma, justificando ainda que há da parte dos homens portugueses "uma masculinidade machista errada", que eventualmente terá sido "ajudada" pelo Viagra.
Portugal é na Europa dos países que mais contribui para o aumento de casos de Sida, alertou na semana passada um relatório da ONU.
O Gabinete de Estatísticas europeu, Eurostat, revelava na mesma altura que Portugal era o país com mais incidência de casos de Sida e que nos últimos 10 anos foi este país o único onde aumentaram os casos.
São os portugueses diferentes dos restantes europeus? Paquete de Oliveira, sociólogo, julga que não. "As atitudes é que são diferentes. Há o mesmo conhecimento, mas em Portugal, nos comportamentos, há desleixo, os comportamentos não acompanham a informação", alerta.
Rute Reizinho, psicóloga, a tirar o mestrado em sexologia, justifica os números com a "pouca educação sexual que há em Portugal", um país com "um grande preconceito em falar de sexualidade".
A especialista dá o exemplo dos preservativos, um dos meios mais eficazes de prevenir a doença, que ainda são um assunto tabu, nomeadamente nas conversas entre pais e filhos.
Diz Rute Reizinho que nos supermercados nunca se vê ninguém na zona onde estão os preservativos à venda, eles mesmos relegados para um canto quase escondido, o "sítio da vergonha".
"Há pessoas que param e olham, mas se estão a ser observadas afastam-se logo", diz.
"É muito raro eu ver uma pessoa com uma caixa de preservativos.
E se vejo são estrangeiros, porque os portugueses vão às caixas de venda automática e mesmo assim de noite e não perto de casa", lamenta a psicóloga.
E justifica: "em Portugal o sexo é associado à procriação e não ao prazer. Quando a pessoa compra preservativos é porque vai ter uma relação sexual pelo prazer".
E que relação há com a taxa de Sida? A psicóloga explica:
"Porque assim é tudo feito às escondidas, feito sem se perguntar, porque os jovens têm dúvidas e não perguntam, e têm sexo sem preservativo porque se comprarem podem ser descobertos".
A resolução do problema, diz, vai demorar décadas, sendo que as campanhas sobre a Sida não deviam ocorrer uma vez por ano mas muitas mais.
Jorge Cardoso diz que se informou mal e pouco na última década, tendo chegado a hora de reconhecer que é preciso modificar comportamentos, algo em que o poder político não investe porque é um investimento que só tem visibilidade a longo prazo.
E também este especialista concorda com a falta de formação e abertura das pessoas, dando um exemplo: um rapaz não leva preservativo para uma relação para que a parceira não fique a pensar que ele só quer sexo, e ela também não para não parecer promíscua.
"No fundo, podem os dois estar com um preservativo no bolso, mas não o vão usar por estes motivos", aponta.
Para Fausto Amaro o aumento dos casos de Sida deve-se sobretudo ao problema "da mensagem que não passa". "Muitas pessoas vêem a Sida como algo que não faz parte delas, é o problema da percepção do risco", observa.
Para mudar o estado das coisas, diz, é preciso "haver uma coordenação de todos os sectores da sociedade", porque "para mudar comportamentos há que mudar atitudes, para que as pessoas sintam o problema como delas".
Diz Fausto Amaro que não é no momento do sexo, que é emocional, que as pessoas vão pensar na Sida, pelo que tem de haver uma interiorização anterior do problema.
Meliço Silvestre admite que a mensagem não chegou ao destinatário, e concorda que as pessoas pensam sempre que o problema da Sida "é dos outros".
Hoje, jovens vão reunir-se no Estoril e tentar perceber por que razão as sucessivas campanhas não surtiram efeito.
Um estudo coordenado por Fausto Amaro, deste ano, indicava que há ainda muito desconhecimento sobre a forma de transmissão do vírus.
Nesse estudo, 21 por cento admitiu que a Sida se propagava pela picadela do mosquito, 37 por cento nos sanitários públicos e 18 por cento pela partilha de uma refeição.