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"Inaptos comissários europeus tramaram o mercado europeu". A acusação do presidente do ACP
Carlos Barbosa não poupa nas críticas à Comissão Europeia (CE) e ao Governo português.
Fotografia: Jorge Carmona
Carlos Barbosa recusa que o aumento no preço do gasóleo e da gasolina tenha a ver com a guerra no Irão ou com os fornecedores de combustíveis.
“Quando o Governo perceber que isto não é a repartição pública que eles querem, teremos preços normais de combustíveis”, afirma.
O presidente do ACP atira ainda à CE: “os inaptos comissários europeus entregaram o mercado europeu aos chineses. Tramaram o mercado europeu”.
E avisa que “a qualidade (dos carros elétricos chineses) não tem nada a ver com a qualidade europeia”.
Reconhece o crescimento na compra de carros elétricos, mais por causa da poupança e do consumo porque as preocupa, e mesmo pelo ambiente. “As questões ambientais infelizmente ainda não estão muito enraizadas”, lamenta.
Ainda assim, deixa o aviso: “os portugueses que não se iludam: vão ser taxados, muito brevemente, nos carros elétricos. Se o Governo está a perder receitas nos carros a combustão, tem de ir buscá-las a algum lado”, refere, enquanto prevê que os impostos sobre os elétricos serão iguais ou semelhantes aos impostos sobre os restantes veículos.
Todos os intervenientes no programa Consulta Pública são unânimes: a Europa ficou para trás na transição para a eletrificação do parque automóvel.
O secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal, relembra que “a União Europeia (UE) perdeu 20% da produção automóvel desde a pandemia” e defende, por isso, “que a UE não se pode fechar no seu espaço geográfico. Tem de se abrir ao exterior e procurar novos mercados”, até porque, relembra, “existe o deslocamento da produção para o Oriente”.
Hélder Pedro refere que a Europa, com a eletrificação, tem vindo a perder um peso significativo porque a Ásia domina 60 a 70 por cento da cadeia de valor da produção dos carros elétricos.
E deixa a crítica: “na UE existe um excesso de regulamentação e a UE colocou a regulamentação à frente da realidade”, referindo-se à legislação para cumprimento de metas no que diz respeito à redução das emissões de carbono até 2030 por parte da indústria automóvel.
O Presidente da Mobinov, um cluster de automação e mobilidade, entende que “a Europa não criou condições para essa transição sem perder terreno para a China. Ainda vai a tempo. Mas será um caminho penoso”.
Na sua análise Miguel Pinto fala de “um desalinhamento da União Europeia (UE) entre as metas públicas, a política industrial e as infraestruturas” e prevê que “a Europa vai ter muitas dificuldades”.
Na opinião do presidente da direção da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel “a Europa teve uma atitude soberba e está neste momento atrás dos EUA em termos de produtividade e competitividade. Deixámo-nos atrasar tecnologicamente”.
José Couto relembra que “as cadeias de valor são dominadas pela China e pelos EUA” e acrescenta que “existe um risco de dependência da indústria dos componentes, mas para diminuir esse risco precisamos de ser competitivos”.
“A indústria automóvel portuguesa está muito dependente da europeia e essa não está nesta altura numa posição competitiva particularmente vantajosa”, adianta Carlos Brito.
O presidente da Delegação Regional do Norte da Ordem dos Economistas acrescenta que “há aqui um problema crónico em geral da indústria portuguesa que é a de falta de produtividade!”.
E deixa uma previsão: “no futuro aquilo que vai haver é um sistema de subscrições porque comprar um carro, para a grande maioria das famílias, é um investimento altamente improdutivo e irracional do ponto de vista económico, social e ambiental”.
É preciso, é urgente “política fiscal mais amiga dos elétricos”
Todos os convidados do Consulta Pública reivindicam aquilo a que chamam uma “politica fiscal mais amiga dos carros elétricos”, no sentido de disseminar esse tipo de veículos.
Por exemplo, a Associação Automóvel de Portugal, através do secretário-geral, defende a conclusão da reforma fiscal que foi iniciada em 2007 e descontinuar, num período transitório o imposto de matricula,
Hélder Pedro lamenta: “na UE temos um mercado único, mas nunca houve harmonização da fiscalidade sobre os veículos automóveis. 27 países tributam os automóveis de forma diferente. Portugal está no bloco dos que mais tributam”.
Recuar na eletrificação “por devaneio político? Seria absolutamente inconcebível”
“Eletrificação veio para ficar”, garante João Delgado.
O responsável de comunicação e assuntos governamentais da Volkswagen Autoeuropa alerta que “se, por um devaneio político, agora se recuasse, seria absolutamente inconcebível. Não há volta a dar”.
E explica que o processo de eletrificação implica “reorganizar por completo toda uma cadeia logística, todo o processo produtivo de um carro, e a maneira de se fazer um carro”.
Quanto à empresa garante que “está bem e recomenda-se" e põe de lado a possibilidade de despedimentos em Portugal: “tudo o que são notícias de redução de força laboral na empresa, preocupa-nos. Mas relativamente à Volkswagen Autoeuropa podemos afirmar que não se prevê de redução de força laboral”.
Acácio Pires, da associação ambientalista ZERO, também entende que a eletrificação é um processo que não dá para travar. No entanto entende que “estamos bastante atrasados (na eletrificação). Temos de acelerar esse processo e reduzir o impacto social e económico dessa transição”.
E vai mais longe: “temos de perceber quais são as vias que nos permitem fazer isso, reduzindo o impacto social e económico desta transição. E usar esta transição para potenciar novas valências também económicas e sociais”.
No Consulta Pública Acácio Pires deixa ainda a denuncia de que “na nossa Lei de Bases do Clima temos previsto a estratégia industrial verde que devia estar pronta há 2 anos” na qual deve assentar uma transição justa.
“Os carros nunca tiveram tanto plástico” diz Gonçalo Tomé.
O vice-presidente da Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos explica que o peso faz uma “diferença enorme” nas emissões, e que o plástico (pelo seu peso mais leve) ajuda a reduzir as mesmas. “Um carro na UE baixou, em média, 82 quilos no peso”, esclarece.
E garante: “as empresas de plástico fizeram um esforço enorme em descarbonizar. Há muitas que hoje são de emissões zero. Isto não vai acontecer em 2035. Está a acontecer”.
A fábrica Coindu, em Famalicão, que faz assentos e interiores para automóveis, decidiu colocar quase quinhentos trabalhadores em lay-off durante meio ano. Há apenas 10 anos, esta empresa era considerada uma estrela da indústria portuguesa. Agora, está numa situação delicada. Os responsáveis da Coindu justificam o cenário com a conjuntura global e a redução de encomendas do setor automóvel. A repórter Ana Gonçalves falou com trabalhadores, que têm um receio: que a seguir a este lay-off, venha um despedimento, como já aconteceu no passado. O programa Consulta Pública é moderado pelo jornalista Frederico Moreno.