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Investigação de Coimbra estuda papel do sexo biológico em "determinados transtornos"
Cientistas da Universidade de Coimbra procuram pistas para compreender de que forma o sexo biológico influencia o neurodesenvolvimento e a suscetibilidade a infeções, após estudos científicos anteriores terem revelado uma maior suscetibilidade masculina a condições como a sepse. Os resultados podem abrir caminho a novas terapias que melhorem a prevenção face a complicações de saúde nos primeiros dias de vida.
A investigação recorre a ratos recém-nascidos, também conhecidos por murganhos, para a estudar o cérebro logo após o nascimento.
O projeto de investigação BarriersReveal – Desvendar o papel do sexo nas barreiras cerebrais durante o período neonatal associa a variável da diferença biológica entre masculino e feminino à nascença para identificar vulnerabilidades.
Esta investigação tem como base dados lançadas em estudos científicos anteriores, que revelaram uma maior suscetibilidade masculina a condições como a sepse - septicemia ou infeção generalizada.A sepse é uma resposta extrema do sistema imunitário a uma infeção grave. Danifica os seus próprios tecidos e órgãos e que no limite pode levar à falência dos órgãos e consequentemente à morte.
As perguntas da investigação
“Os estudos científicos têm mostrado que bebés e crianças do sexo masculino têm maior risco de desenvolver transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo e hiperatividade, frequentemente associados a infeções neonatais e neuroinflamação”, alega a investigadora.
Porém “continuamos a não saber fisiologicamente como é que o sexo biológico influencia a maturação dos vasos e barreiras cerebrais, assim como a composição neuroimunológica, e como é que molda a suscetibilidade do sexo masculino a determinados transtornos ou o porquê de o sexo feminino ser mais resiliente e é isso que procuramos revelar com esta investigação”, continua.
Ao realçar a importância de estudar o cérebro no período imediatamente após o nascimento, a cientista sustenta que “o cérebro neonatal está particularmente desprotegido devido ao intenso crescimento vascular e ao amadurecimento da barreira hematoencefálica, mas também ao sistema imunitário imaturo que protege o nosso cérebro”.
Desta forma, ”face a estas vulnerabilidades, é essencial conhecermos a fundo os impactos destes processos fisiológicos de crescimento para que seja possível desenvolver, futuramente, intervenções que impeçam a propagação de problemas que possam ter origem neste momento de vulnerabilidade do cérebro humano”, sublinha.
O projeto pré-clínico propõe-se estudar as barreiras cerebrais que controlam a comunicação com o sistema periférico.
Entre as barreiras cerebrais estão “as meninges, que envolvem e protegem o cérebro e contêm células imunes; a barreira hematoencefálica, que regula a passagem de substâncias e células do sangue para o cérebro, garantindo a sua proteção; e o plexo coroide, que, além de produzir o líquido que envolve o cérebro, também ajuda a controlar a resposta imunitária. Estas estruturas desempenham um papel essencial na defesa do cérebro, influenciando a forma como reage a infeções, toxinas e inflamações nos primeiros dias de vida”, explica o comunicado divulgado esta quinta-feira.
Vanessa Coelho-Santos argumenta a necessidade da investigação recorrer a murganhos para analisar a composição imunológica e a maturação nas diversas barreiras entre os sexos masculino e feminino durante o período neonatal. “Como ainda não existem dados moleculares disponíveis em seres humanos, o estudo começa em modelos pré-clínicos, com o intuito de, posteriormente, comparar os resultados com tecidos humanos”.
Durante o processo da análise, as informações cerebrais vão ser obtidas com recurso a imagens do cérebro em tempo real. Vão estra a ser registadas a partir de microscopia de dois fotões, uma metodologia de imagem de ponta que permite captar imagens de alta resolução ao longo do tempo.
Para examinar as várias propriedades das células, a equipa cientifica utilizará ainda uma técnica laboratorial chamada citometria de fluxo, que permite.
“Estas interfaces vão ser estudadas de forma comparativa entre murganhos recém-nascidos de ambos os sexos para que seja possível perceber que diferenças existem entre o sexo feminino e o sexo masculino, e como é que esses aspetos diferenciadores explicam e conduzem à já provada maior suscetibilidade do sexo masculino a infeções e doenças do neurodesenvolvimento”, esclarece a investigadora.