Investigadores universitários desenvolveram robô de detecção de minas anti-pessoais
Coimbra, 04 Jun (Lusa) - Investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) desenvolveram um robô de detecção de minas anti-pessoais, que foi testado num campo militar belga, conseguindo detectar todas as minas existentes, disse hoje fonte universitária.
"No terreno [um campo militar dos arredores de Bruxelas, certificado para testar este tipo de robôs] estavam enterradas diferentes tipos de minas e outros objectos. Embora não tenha detectado todos os objectos, detectou todas as minas, que é o importante", disse à agência Lusa Lino Marques, um dos coordenadores do projecto.
A investigação, iniciada em 1999, passou pelo desenvolvimento de um sensor baseado na utilização de micro-ondas e radiação infra-vermelha para detectar minas anti-pessoais de plástico - as mais difíceis de localizar - em solos de conflito.
O robô incorpora aquela tecnologia numa estrutura apoiada em "oito patas" metálicas, responsáveis pela locomoção no terreno.
"Tem oito patas, cada quatro associadas a um eixo. Se tiver quatro no chão consegue mover-se através de uma força motriz pneumática, associada a comandos eléctricos", explicou Lino Marques.
Incorpora um "delicado" hardware e "complexos algoritmos de software", responsáveis pelo processamento da informação sensorial e pela decisão de como o robô se deve movimentar no ambiente que o rodeia.
"É composto por múltiplos detectores de minas e de outros engenhos explosivos, para garantir uma informação robusta e reduzir muito os alarmes falsos", disse Lino Marques.
O equipamento é autónomo, isto é, funciona sem intervenção do utilizador, que, previamente, define a área de terreno a "varrer" pelo robô, acrescentou o investigador do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR/FCTUC).
Apesar do sucesso do projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e dado a conhecer a responsáveis do Governo angolano - um dos países mais assolados pelas minas anti-pessoais - há umas semanas atrás, durante uma visita destes ao laboratório do ISR, Lino Marques frisa que a investigação está concluída.
"Acharam-no muito interessante. Mas não estamos a fazer alocação de recursos ao robô. Na prática, internamente, a investigação está terminada, a não ser que haja interessados", revelou.
Lino Marques disse ainda que ao longo dos cerca de nove anos que durou o desenvolvimento do projecto, o envolvimento de instituições nacionais, como o Exército, "nunca" aconteceu.
"Contactámo-los várias vezes. Nunca disseram que não, mas também nada resultou [dos contactos]", frisou.
Segundo o investigador, de acordo com os últimos dados, existem cerca de 120 milhões de minas anti-pessoais espalhadas por mais de 70 países, que matam aproximadamente 25.000 pessoas por ano e mutilam muitas mais, das quais 80 por cento civis.
"É uma situação particularmente grave, se considerarmos que as minas estão essencialmente distribuídas por países subdesenvolvidos, sem recursos para pagar a desminagem e que vêem desta forma o seu desenvolvimento comprometido pelas perdas humanas, pela inutilização de terrenos aráveis e de vias de comunicação", observou o docente da FCTUC.
Assim, "qualquer avanço na investigação e desenvolvimento de sistemas fiáveis, bem como na automação das tarefas inerentes à desminagem humanitária, é um grande desafio que pode salvar a vida a muitos milhares de pessoas", concluiu.