Irão gostava de ver Portugal nas negociações da crise nuclear

Irão gostava de ver Portugal nas negociações da crise nuclear

O Irão gostava de ver o Governo português assumir uma posição nas negociações da crise nuclear e, segundo o embaixador iraniano em Lisboa, há "um lugar vazio" à espera que Portugal o ocupe.

Agência LUSA /

"Infelizmente, o lugar de Portugal está vazio. E não sabemos de que é que Portugal está à espera para o ocupar. Por que é que os países vizinhos de Portugal estão a trabalhar com o Irão e Portugal não", disse Mohammad Taheri em entrevista à Agência Lusa.

"O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros (Seyyed Kamal Kharrazi) já se encontrou com os seus homólogos de Espanha, Alemanha e Itália e não com o português. O lugar de Portugal está vazio", insistiu o embaixador, num incentivo a Lisboa para que assuma uma diplomacia mais activa no processo de negociações sobre a questão nuclear.

"Portugal tem um bom papel na Europa e pode usá-lo", acrescentou o embaixador, defensor de um aprofundamento das relações entre os dois países, a nível político e económico.

O titular da Embaixada iraniana em Lisboa especificou que o Irão está à espera que um grupo do Ministério de Negócios Estrangeiros português visite o Irão ou, então, que seja um grupo do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano a vir a Portugal.

Além disso, o governo de Mahmud Ahmadinejad pretende que um grupo de parlamentares portugueses viaje até ao Irão - à semelhança do que fez um conjunto de deputados britânicos que estiveram naquele país recentemente.

"Portugal vai assumir a presidência da União Europeia no segundo semestre de 2007 e, a nosso ver, pode ter um papel importante a desempenhar no Médio Oriente", sublinhou.

"Portugal tem muito potencial para trabalhar com o Irão", sintetizou o embaixador.

Mohammad Taheri lembrou que o Irão é 17 vezes maior que Portugal e está situado numa área estratégica muito importante, não só porque o seu país tem a segunda maior reserva de gás do mundo e a quarta maior reserva de petróleo, mas também porque controla o Estreito de Ormuz, por onde passa "60 por cento do petróleo mundial".

Teerão já definiu até, segundo Taheri, as áreas económicas em que os dois países poderão vir a ganhar com uma relação mais estreita:

Portugal poderia colher benefícios na área da construção de refinarias e da petroquímica, o Irão está interessado na indústria do papel, nas pescas e na agricultura portuguesas.

Na entrevista à Agência Lusa, o embaixador iraniano foi ainda mais longe, considerando que a parceria entre os dois países podia estender-se a projectos comuns no Iraque, no Afeganistão e no resto da Ásia Central.

Uma "diplomacia trilateral: Portugal-Irão-Iraque e Portugal- Irão-Afeganistão", referiu Taheri.

Demonstrando o empenho da diplomacia iraniana em estreitar o relacionamento com Portugal - em 2007, comemoram-se os 500 anos das relações diplomáticas entre os dois países -, Mohammad Taheri encontrou-se nas últimas semanas com a ministra da Cultura portuguesa, Isabel Pires de Lima, e com o ministro da Agricultura Jaime Silva.

"Já pedi uma audiência ao ministro dos Negócios Estrangeiros (Diogo Freitas do Amaral), mas ainda não obtive resposta", revelou.

Depois da criação da Câmara de Comércio Portugal-Irão, a embaixada está a apoiar a fundação de uma associação de amizade entre os dois países, que está a ser dinamizada por um grupo de portugueses que visitou recentemente o Irão, em que se inclui o director do Museu Nacional de Arqueologia, Luís Raposo.

Taheri adiantou à Lusa que, à semelhança do curso que existe de persa (farsi) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Irão está a pensar criar "um curso de português na Universidade de Teerão" para o próximo ano.

Esta seria uma das iniciativas destinadas a assinalar os 500 anos da chegada de Afonso de Albuquerque à Pérsia e do estabelecimento de relações entre o reino persa e o reino português, afirmou o embaixador.

A outra, segundo Taheri, diz respeito ao restauro da fortaleza de Ormuz e à reconstrução da fortaleza de Qeshm, as duas mandadas construir pelos portugueses no século XVI, um projecto que está a ser apreciado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Confrontado com a notícia do semanário Expresso, na sua edição do dia 17, em que se dava conta de contactos entre a extrema-direita portuguesa e o Governo iraniano, Mohammad Taheri afirmou não a conhecer.

Aproveitou, no entanto, para negar que Teerão esteja interessado em canalizar dinheiro para que o Partido Nacionalista Renovador possa organizar em Portugal conferências e outras iniciativas para negar o Holocausto.

"É a primeira vez que estou a ouvir esta história. Desminto" que existam esses contactos, disse o embaixador.

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