Jogos Santa Casa assumem "efeito nocivo" da Raspadinha e admitem alterações

Jogos Santa Casa assumem "efeito nocivo" da Raspadinha e admitem alterações

A Santa Casa da Misericórdia admite estar preocupada com o aumento da dependência nas apostas.

Andreia Brito com Frederico Moreno - RTP Antena 1 /

Fotografia: Andreia Brito

No programa da Antena 1, Consulta Pública, Cátia Candeias, da Unidade de Jogo Responsável dos Jogos Santa Casa, afirma que “os Jogos Santa Casa não negam que, principalmente a Raspadinha, têm esse efeito nocivo. Estamos a trabalhar para que possamos melhorar as nossas medidas referentes ao jogo problemático”.

Assegura que “estamos a equacionar uma série de medidas, concretamente em relação à Raspadinha. Infelizmente ainda não consigo divulgar se está para breve alguma especifica à autoexclusão da raspadinha”.

Questionada pelo jornalista Frederico Moreno sobre se a instituição “admite que no futuro possa haver um mecanismo de autoexclusão para a Raspadinha”, Cátia Candeias diz que “poderá ser esse o caminho. Pode ser esse um dos caminhos”.

A Raspadinha é aliás uma preocupação da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO). Natália Nunes, coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira da DECO adianta que “deparamo-nos com famílias que tiveram de avançar para tribunal para pedir a insolvência. A declaração de insolvência é quase o último recurso em termos financeiros”.

É a questão financeira o que mais leva jogadores e famílias até à DECO. “Muitas vezes, para manter o vício, acabam por esgotar as poupanças, mas também recorrer ao crédito. E na iminência de entrar em rutura, é esse o momento em que nos batem à porta”, revela Natália Nunes.

Outra preocupação da DECO é o jogo ilegal. Preocupação partilhada por Bernardo Neves. Diz o secretário-geral da Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online assume que "a nossa principal preocupação é o jogo ilegal que em Portugal ainda tem 40 por cento dos utilizadores de jogo e apostas online apostam em sites ilegais. E atenção: isto é só aqueles que sabemos”. E acrescenta “estamos a falar de 370 milhões de euros em receitas brutas de jogo”.

O jogo online existe em Portugal há uma década e “tem crescido mais do que o jogo territorial” explica Bernardo Neves. E defende que “muitos anos antes de aparecer o jogo online, as estatísticas falavam de 50 por cento da população portuguesa praticar atividade de jogo a dinheiro. Não foi uma coisa que surgiu com o jogo online”.

A atratividade é mais forte no jogo online” avisa Pedro Hubert. O psicólogo e diretor do Instituto de Apoio ao Jogador refere que “entre o jogo recreativo e a dependência, a progressão tem sido mais rápida”, nomeadamente entre os mais novos.

“Agora são muito os jovens, há uma moda, uma cultura do jogo, e é onde tem havido um aumento maior no número de jogadores. Cada vez recebemos mais jovens com 18/19 anos e que começaram a jogar com 16/17 anos”, adianta.

O jogo online representa receitas significativas para o Estado português. Receitas que têm vindo a crescer. No ano passado, em impostos, os cofres públicos encaixaram mais de 350 milhões de euros, com as apostas na internet.

O Governo promete apresentar, este verão, novas leis para atualizar as regras do jogo online. Sendo que tem sido grande a discussão na Assembleia da República, nomeadamente sobre os limites à publicidade destas plataformas.

A jornalista Madalena Salema faz-nos um resumo das posições dos partidos políticos, nesta matéria que tem estado em debate no Parlamento, embora ainda sem avanços.
 
“Cada jogador afeta entre seis a dez pessoas”
Não podemos falar da perturbação do jogo como afetando apenas o jogador”. O alerta vem de Rita Vieira. A assistente técnica do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), a trabalhar na Unidade de Intervenção no Jogo, explica que “cada jogador afeta entre seis a dez pessoas dentro da sua rede. O impacto é ainda maior do que os números mostram”.

“Esta é uma vulnerabilidade que a pessoa tem para o resto da vida”, lamenta Rita Vieira. É por isso que defende que “a família pode reconhecer que precisa de ajuda para si própria independentemente do jogador o admitir”.

Que o diga Jorge Antunes. É jogador em recuperação há cinco anos e no seu testemunho no programa Consulta Pública admite que “joguei 25 anos sem ninguém saber e quando fui descoberto foi um choque para a família”.

Na opinião de Jorge Antunes “ainda se fala pouco sobre o problema” até porque “o jogador não pede ajuda. Só pede ajuda em último caso e normalmente para resolver a questão financeira e não para resolver a dependência”.

E porquê? “É difícil falar com a família sobre as loucuras que se fez para ter dinheiro para o jogo”, revela.

Jorge Antunes faz parte do universo de que fala Rita Mendes. A psiquiatra do ICAD e especialista no Jogo a Dinheiro lembra os dados do inquérito nacional realizado pelo instituto em 2022: “em Portugal temos 50 por cento de jogadores recreativos. Jogadores com alguns problemas são 1,3 por cento e jogadores patológicos são 0.5 por cento”.

A clínica refere que a abordagem para tratar um jogador compulsivo é semelhante à intervenção noutras dependências, até porque “há cada vez mais evidências científicas de mecanismos neurobiológicos presentes em pessoas com dependência de álcool e cocaína que também existem no jogador patológico”.

O programa Consulta Pública é moderado pelo jornalista Frederico Moreno.
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