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Juízes proferem sentença do processo Casa Pia

Juízes proferem sentença do processo Casa Pia

O colectivo presidido pela juíza Ana Peres profere esta sexta-feira a sentença do processo sobre alegados abusos sexuais de menores na Casa Pia, quase seis anos após o início do julgamento. Ao cabo de 460 sessões, realizadas em quatro tribunais, os sete arguidos do maior processo de sempre da Justiça portuguesa ficam a conhecer o acórdão nas próximas horas. A sessão decorre sob apertadas medidas de segurança.

RTP /
Carloz Cruz, um dos arguidos mais mediáticos do processo, remeteu declarações para uma conferência de imprensa Miguel A. Lopes, Lusa

O julgamento demorou cinco anos e dez meses. Em 460 sessões, foram ouvidas 920 testemunhas, 32 alegadas vítimas, 19 consultores técnicos e 18 peritos. Os testemunhos ficaram gravados em mais de mil CD, 352 DVD, perto de um milhar de cassetes de áudio e mais de uma dezena de cassetes VHS. Foi também um processo marcado por um total de 168 recursos, dos quais 83 foram interpostos já em fase de julgamento.

São sete os arguidos que ficam hoje a conhecer a sentença do colectivo de juízes composto por Ana Peres, Lopes Barata e Ester Santos: Carlos Silvino, antigo motorista da Casa Pia, Manuel Abrantes, antigo provedor, o médico João Ferreira Diniz, o advogado Hugo Marçal, o antigo apresentador de televisão Carlos Cruz, o embaixador Jorge Ritto e Gertrudes Nunes, proprietária de uma casa em Elvas onde terão ocorrido abusos sexuais de menores a cargo da instituição.

Os arguidos estão acusados, entre outros, de crimes de abuso sexual, acto sexual com adolescente e lenocínio. O início da leitura do acórdão estava marcado para as 9h30, mas a sessão começou com quase hora e meia de atraso. E não tem hora prevista para terminar. São milhares de páginas, pelo que a juíza Ana Peres deverá ler uma súmula da decisão.

O dispositivo de segurança foi reforçado para a leitura do acórdão. A Unidade Especial de Polícia revistou, nas últimas horas, as instalações do Campus de Justiça, em Lisboa, à procura de eventuais objectos suspeitos.

"A noção clara de que o processo não acaba aqui"

Miguel Matias, advogado das alegadas vítimas dos abusos, considera que o facto de esta fase do processo chegar ao fim constitui já um factor positivo. Contudo, o causídico sublinha que os seus clientes "têm a noção clara de que o processo não acaba aqui".

"Para eles, a satisfação é dada no dia da decisão de primeira instância. A questão das outras instâncias é uma questão que será sempre um direito para qualquer pessoa, seja para os arguidos, seja para eles próprios, e será naturalmente um repor, no meio-termo, numa decisão de equilíbrio, num afinar de algum pormenor que tenha escapado na primeira decisão. E naturalmente que aí sim vai demorar mais tempo", antecipou Miguel Matias, em declarações à rádio TSF.

Por seu turno, o advogado de Carlos Silvino mostra-se convicto de que o seu cliente vai ser condenado, mas afirma também que as condenações não podem ficar só por aí: "Se não fossem condenados, seria um escândalo extraordinário, um escândalo que nem no tempo de Salazar seria admissível".

"Todos os arguidos são culpados, os que lá estão e outros que saíram. Na minha opinião, tendo em atenção que o meu cliente tem 54 anos - acaba por ser um produto da própria Casa Pia, um produto da falta de cuidado e de atenção do Estado -, a pena terá que ser uma pena até cinco anos e suspensa na sua execução. O meu cliente não pode ser o bode expiatório de todos os erros do Estado", sustentou José Maria Martins, também ouvido pela TSF.

"Longo" caminho de recursos

O advogado Rogério Alves antevê um "longo" período de recursos após a leitura da sentença, "não tão longo quanto o já percorrido, mas não tão curto quanto seria desejável". Citado pela agência Lusa, o antigo bastonário da Ordem dos Advogados considera "improvável que a decisão seja um ponto final".

"Só seria se a sentença agradasse ao Ministério Público, aos assistentes e aos arguidos todos, levando a que não recorressem", afirmou, acrescentando que essa é somente uma "possibilidade académica".

Depois de ressalvar que é "extremamente arriscado" avançar com "qualquer prognóstico" de tempo, Rogério Alves explicou que "dependerá do número de recursos e da sua extensão". "É muitíssimo difícil projectá-lo com qualquer rigor", insistiu. "O mais provável é que haja recursos. De acordo com o teor do acórdão, pode haver de todas as partes ou só de algumas, por aspectos distintos".

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