Locomotivas a vapor voltam aos carris nos 150 anos do caminho de ferro
O comboio a vapor voltou hoje a andar, numa iniciativa comemorativa dos 150 anos do caminho- de-ferro em Portugal, que se celebram sábado e são também assinalados com exposições, um selo especial e até um sorteio de lotaria.
O comboio apitou pela primeira vez em Portugal numa viagem de Lisboa para o Carregado a 28 de Outubro de 1856, quando a capital e o Porto estavam separados por cinco dias de viagem em liteira e mais de um dia à velocidade estonteante, na época, da mala-posta.
O povo não teve lugar no primeiro comboio, de 16 carruagens, incluindo a carruagem real reservada para transportar o rei Dom Pedro V, seu governo e corte, aristocratas e convidados, durante os 40 minutos que demorou a viagem.
Embora confusos, os registos da época notam que a chegada ao Carregado foi festiva, mas o pior foi o regresso: por falta de força da locomotiva, várias carruagens foram sendo largadas, obrigando já na altura a pensar em "transportes alternativos".
A linha do Leste, onde decorreu a viagem inaugural, só chegou a Espanha sete anos depois.
Progressivamente, os carris foram chegando ao resto do país, com a ligação entre as linhas do Norte e Sul a fechar-se em 1904.
Depois do vapor - que só deixou de ser utilizado em 1977 - do diesel e da electricidade, o próximo passo da evolução da ferrovia portuguesa será o comboio de alta velocidade ou TGV.
Ao longo de 150 anos, contam-se marcos que mudaram a maneira como se viajava de comboio em Portugal: a electrificação da linha Lisboa-Porto em 1966, a viagem inaugural do "foguete" Lisboa-Porto em 1953 ou a primeira travessia ferroviária da Ponte 25 de Abril em 1999.
Além das inovações, registam-se também o fecho e abandono de várias linhas, especialmente no interior do país.
Em termos empresariais, o caminho-de-ferro começou como um empreendimento privado, depois o público coexistiu com o privado até 1951, quando os dois sectores se combinaram.
Em 1975, foi criada a empresa pública CP, que em 1997 passou a ocupar-se da operação do transporte, ficando a gestão da infra- estrutura a cargo da REFER e a regulação do sector com o Instituto Nacional do Transporte Ferroviário.
No sábado, os comboios urbanos de Lisboa e Porto, os regionais e os inter-regionais serão de graça para os passageiros que usem um autocolante fornecido nas estações e bilheteiras.
No mesmo dia, será inaugurado um obelisco comemorativo da viagem inaugural no Carregado, e o comboio volta a partir daquela estação, desta vez um Alfa Pendular que parará em Alcântara, onde está montada uma exposição com carruagens e locomotivas das três gerações da ferrovia em Portugal.
Em Alcântara estarão também instaladas várias carruagens remodeladas para albergarem uma exposição sobre século e meio de comboios em Portugal, que poderá ser visitada até 12 de Novembro e inclui ainda cinema alusivo ao caminho-de-ferro.
O Carregado será ainda o cenário para o lançamento de selos de correio comemorativo da efeméride: quatro estampilhas com imagens do comboio ao longo dos anos, do Flecha de Prata ao Alfa Pendular, passando pelo Sud-Express (que ligou Lisboa a Paris) e o Foguete.
No dia 30, será sorteada uma lotaria especial comemorativa dos 150 anos dos caminhos-de-ferro, no valor de 500 mil euros.