Madeira inicia recuperação da antiga rede de "caminhos reais"
Funchal, Madeira, 16 ago (Lusa) - O Governo da Madeira iniciou, recentemente, o projeto de recuperação dos "caminhos reais", a antiga rede de estradas que cruzava a ilha em todas as direções, procurando assim valorizar o património regional e aumentar a oferta de percursos pedonais.
"Não existe ainda um orçamento para este trabalho. Fizemos um levantamento preliminar e iniciámos a recuperação de um caminho, para utilizarmos como modelo e avaliarmos os custos. Depois, provavelmente vamos recorrer a fundos europeus", explicou à agência Lusa o diretor regional das Florestas e Conservação da Natureza, Miguel Sequeira.
O "caminho real" que está a ser intervencionado estende-se do Paul do Mar à Ponta do Pargo, percorrendo uma vasta extensão na zona oeste da ilha, através de uma típica paisagem rural madeirense, salpicada de poios (socalcos) e palheiros e combinada com nichos de vegetação mediterrânica endémica.
"Este é o nosso projeto-piloto e vai servir para avaliarmos o desafio que temos pela frente, pois estamos a falar de uma rede muito extensa, com técnicas de construção complexas que importa manter, preservar e repetir", disse Miguel Sequeira, destacando, por outro lado, a importância dos "caminhos reais" como alternativa aos percursos nas levadas e na floresta laurissilva.
O diretor regional lembrou que a maior parte dos trilhos utilizados por turistas se encontra acima dos 500 metros, ao passo que as antigas "estradas reais" cruzam regiões mais baixas, onde é visível a intervenção humana, mas também onde floresce cerca de 50% dos endemismos da ilha.
"São paisagens pouco exploradas do ponto de vista turístico e, no entanto, têm a enorme virtude de serem complementares à laurissilva", explicou Miguel Sequeira, sublinhando o valor histórico dos próprios caminhos. "O turista é quem move a economia da Madeira, pelo que só ficamos a ganhar ao recuperar estradas que têm grande valor cultural e patrimonial e estão associadas a paisagens pouco exploradas", reforçou.
"Caminho real", ou "estrada real", é a designação atribuída às principais vias terrestres construídas antes da implantação da República. Na Madeira, a maior parte surgiu por iniciativa dos governadores ou dos capitães-generais, funcionando como alternativa e complemento às ligações marítimas.
"Estas `estradas reais` não podem ser esquecidas, porque fazem parte da nossa memória coletiva e, acima de tudo, porque são exemplo da grande dificuldade que foi construir uma ilha do nada", disse o diretor do Centro de Estudos de História do Atlântico, o historiador Alberto Vieira.
Diversas localidades na Madeira cresceram e assumiram importância em torno das rotas de circulação terrestre, funcionando como pontos de apoio aos viajantes, sejam locais, comerciantes ou estrangeiros, que começaram a percorrer a ilha com particular ênfase a partir dos séculos XVIII/XIX.
A manutenção desta rede de estradas obrigava a duros trabalhos, sobretudo após os meses de inverno e tendo em conta a orografia agreste da ilha, pelo que foi criado um imposto, designado por "roda de caminho", o qual obrigava toda a população a contribuir com dias de trabalho. No entanto, os mais abastados podiam revertê-lo em dinheiro.
Os "caminhos reais" começaram a perder importância com a chegada do automóvel e da moderna rede viária, ao longo do século XX, e a maior parte caiu no abandono e na ruína. Atualmente, dos 28 percursos pedonais recomendados pelas autoridades (25 Madeira e três no Porto Santo), apenas 12 são em veredas e antigas "estradas reais"; mas o interesse na recuperação da velha rede viária mobiliza, agora, o governo e as câmaras municipais.
"Estas `estradas reais` são do domínio público e interessava preservar, se possível, todas as que ainda existem", declarou Alberto Vieira, sublinhando o esforço despendido ao longo dos séculos na sua construção. "Mais não seja, estes caminhos são uma imagem e um retrato de quase 400 anos da nossa história e, portanto, não podem ser esquecidos nem renegados", vincou.