Madrid contabiliza 1.500 quilos de explosivos em Óbidos
As forças policiais depararam-se com 1.500 quilos de explosivos na casa dos arredores de Óbidos que funcionaria como base da ETA, a somar a dois computadores e mapas de Madrid, Cádiz e do Norte de Portugal, adianta Madrid. O presidente do OSCOT diz que “é altura de o Governo se pronunciar”. O Ministério da Administração Interna promete reagir esta tarde.
Na garagem anexa a uma vivenda dos arredores daquela vila, as autoridades portuguesas encontraram 1.330 quilos de nitrato de amónia em 12 bidões e quatro sacos. O material é empregue na produção de explosivos. Foram também encontrados, em três sacos, 75 quilos de nitrato de potássio, 40 litros de ácido sulfúrico, pentrita, pó de alumínio e nitrometano, um ingrediente utilizado pela organização separatista basca para a produção do explosivo amonitol.
As forças policiais portuguesas começaram por referir a existência de 500 quilos de explosivos na residência. Mais tarde diriam haver pelo menos 700 quilos. Os números avançados pelo Governo espanhol superam a quantidade de explosivos apreendidos à ETA durante todo o ano de 2009, em diferentes operações desencadeadas nos territórios de Espanha e França.
Mapas e computadores portáteis
De acordo com o Ministério espanhol do Interior, foram ainda encontrados dois computadores portáteis, documentação relativa à casa dos arredores de Óbidos e documentos de identificação pessoal, que permitiram identificar dois presumíveis operacionais da ETA: Andoni Zengotitabengoa Fernández, que se encontra fugido desde Janeiro de 2003, depois de ter sido condenado, em 2000, a 13 anos de prisão por violência urbana, e Oier Gómez Mielgo, condenado em 2001 a dois anos de detenção num centro de reabilitação por ter armadilhado uma viatura da polícia em Vitória, Alava.
Mapas de Madrid, Cádiz, do Norte de Portugal e da região de Coimbra encontravam-se também no interior da vivenda - assim como uma caixa com três telefones etiquetados de "Madrid", "Portugal" e "Cádiz", horários de autocarros para esta cidade, uma máquina fotográfica, um telemóvel, papéis manuscritos sobre circuitos, impressos com o anagrama da ETA, e um disco digital.
O Governo espanhol adianta que, entre os elementos encontrados numa carrinha abandonada pelos dois presumíveis etarras estava um recibo de compras efectuadas a 17 de Janeiro num supermercado português. A análise dos registos de videovigilância do supermercado levaram à identificação de Andoni Zengotitabengoa Fernández. Segundo a agência EFE, Zengotitabengoa Fernández tem um irmão chamado Luís Maria, cujos documentos foram encontrados na carrinha interceptada pela Guardia Civil em Bermillo de Sayago, Zamora.
Base "poderá não ser a única"
Para o presidente do OSCOT, o Governo português "tem que falar", depois de há um mês "ter feito uma declaração de tranquilidade", tendo em conta que "uma descoberta com esta dimensão" é "impressionante e única". A quantidade de materiais explosivos encontrados nos arredores de Óbidos, assinala José Manuel Anes, daria "para fazer centenas de bombas".
"O nitrato de amónia é fácil de encontrar e poderá ter sido adquirido facilmente em Portugal, mas outros produtos mais difíceis de adquirir foram trazidos do estrangeiro", acrescentou o responsável, para quem "o material encontrado há um mês e pouco numa carrinha [temporizadores, antenas de controlo remoto de detonação e sensores de movimento] era nitidamente para reforçar esta base".
"Perante esta desarticulação, ou já têm outras bases mais pequenas ou serão tentados a criá-las. A dimensão desta base leva a pressupor que aqui encontraram facilidade de movimentos", sublinhou o presidente do OSCOT. José Manuel Anes acredita "que não estarão envolvidos apenas dois elementos".
À agência Lusa, o Ministério da Administração Interna limitou-se a reproduzir uma mensagem de felicitações enviada a Rui Pereira pelo ministro espanhol do Interior, Alfredo Rubalcaba: "Evitaram mortes e muita dor no meu país. Obrigado, mais uma vez, e, por favor, felicite todos os que participaram na operação".
Contactado pela RTP, o gabinete de Rui Pereira remeteu esclarecimentos para uma nota a emitir esta tarde. A partir de Madrid, o ministro Alfredo Perez Rubalcaba avançou entretanto que a ETA estava a "tentar montar" uma "fábrica de bombas" em território português.