Marcelo Caetano "chegou tarde demais" à chefia do Governo
Lisboa, 12 Fev (Lusa) - O ex-presidente do PSD Marcelo Rebelo de Sousa considerou hoje que o último presidente do Conselho de Ministros do Estado Novo, Marcello Caetano, "chegou tarde demais ao lugar" para realizar um processo de mudanças.
Marcelo Rebelo de Sousa, afilhado de Marcelo Caetano, de quem herdou o nome, foi hoje um dos intervenientes num debate em Lisboa sobre o político e Professor universitário que chefiou o Governo português entre 1968 e 1974.
"Tenho a teoria de que chegou tarde demais ao lugar", declarou Marcelo Rebelo de Sousa, que disse também que Marcelo Caetano "chegou tarde ao último encontro com a História".
De acordo com o social-democrata, a altura adequada para Marcelo Caetano suceder a Salazar teria sido o início ou o meio da década de 50. "Não foi, foi dez anos depois", assinalou.
Marcelo Rebelo de Sousa sintetizou o programa político de Marcelo Caetano em "três ideias" fundamentais, pensadas para um período de "dez a quinze anos" que foi interrompido pela revolução de Abril de 1974.
A primeira "era uma ideia regionalizadora" das então colónias africanas, "depois tendencialmente federalizadora e que logo se veria"; segunda ideia era uma "mudança na economia", em que teve "maior sucesso", segundo Marcelo Rebelo de Sousa; terceira ideia "uma liberalização com pluralismo interno", dentro do próprio regime, "que depois evoluísse para um pluralismo externo contido".
Na sua intervenção, Marcelo Rebelo de Sousa provocou risos no auditório da Faculdade de Belas Artes quando fez alusão à série da SIC sobre a vida de Salazar, dizendo que o ex-ditador "está a resistir à última versão de libertador sexual, que estamos a descobrir".
"Deixou de ser Salazar a gerir Portugal ao longo das décadas para gerir mulheres", observou.
A filha de Marcelo Caetano, Ana Maria Caetano, foi também oradora no debate, em que considerou que o seu pai "não era nem ditador nem democrata, era paternalista, legalista, professor que orienta, que ensina, que impõe regras e limites".
"Ele gostava de mandar, de governar. No exílio, escreve-me com humor: Pouco a pouco vou recuperando o governo da casa, o único que me resta", acrescentou Ana Maria Caetano.
"Queria liberalizar, sem dúvida, mas fazer a transição para a democracia? Talvez abrir o caminho para essa transição", sugeriu, contando outro excerto de uma carta enviada pelo pai do exílio no Brasil: "Continuo inconvertível: A teoria democrática pode ser bonita mas, na prática, a teoria é outra".
Ana Maria Caetano concluiu a sua intervenção considerando que o pai "não morreu em vão" e perguntando se a evolução registada durante os anos em que chefiou o Governo "não terá sido a via para a verdadeira mudança que se deu com a revolução palaciana do 25 de Abril que levou à desejada liberdade e à democracia".
Por sua vez, Pedro Feytor Pinto, que foi colaborador de Marcelo Caetano, defendeu que este foi "vítima dos limites do tempo em que lhe foi dado viver" e "um refém de si próprio" porque a sua "lealdade sempre se sobrepôs ás dúvidas, inquietações e interrogações que formulava" sobre as políticas adoptadas.
"A sua preparação jurídica, a profunda cultura e a raiz humanística da sua estrutura moral fizeram dele muito mais uma vítima do que um executor", reforçou Feytor Pinto.
IEL.
Lusa/Fim